Saturday, July 28, 2007

friday night

como passava o tempo?
sem destino sem futuro
sem remorsos sem pena
sem amor sem ódio
como se nada passasse
nem houvesse lugar onde
nem razão para
nem som nem cor
nem sentido nem o vazio
e eles e elas dançavam
ao som da música irlandesa
no bar onde se transpirava
pedi um mojito ao balcão
nada a ver distanciei-me
mamas gordas barrigas

nada a ver com o meu destino
as quase inocentes de pele jovem riam
as quase velhas a tentar ainda
os homens sós e dava pena
trejeitos caretas passos indecisos
e tu ao balcão enchias os copos
e tu sorrias mantinhas a compostura
eu tinha estado a olhar para um rosto
para uns olhos para umas mãos eu e ela

estávamos ainda sentados lá fora na esplanada
que noite terrível de calor insuportável ela
viu que eu a via mas era tão discreta tão
bem educada tão séria o que me seduzia
evidentemente a seriedade a beleza das
maneiras são indício de uma alma habitada
por pensamentos nobres por desejos dignos
de longas horas de investimento e de investigação
depois chegou um rapaz e foi a mão dele que ela
tocou não sei se com ternura se com amizade

ou se foi para eu ver como se é mulher carinhosa
com um homem e agradou-me a simplicidade a

espontaneidade o calor que senti nos seus olhos
nos
seus dedos ah ser querido e pensado por uma
menina assim sonho inútil eu de qualquer modo

sabia que não tinha hipóteses estava apenas a
distrair-me a
ver passar a noite seria incapaz de
falar sem
mais nem menos a uma desconhecida
embora
amá-la não me parecesse extravagante seria
certamente uma experiência apaixonante cheia de
imprevistos
de alegrias de esperanças de dissabores
até acabar tudo em nada como acontece quase sempre


o mojito eu olhava-o e bebericava um dia destes
disse-me o rapaz que trabalha no bar e que sempre
me aperta a mão levo-o a comer caracóis a uma tasca
que eu conheço de acordo disse eu a repensar o passado
a tentar sentir-me romanticamente infeliz sem conseguir
não tive saudades dela ela aborreceu-me só de pensar
nela invadiu-me o tédio ah os anos perdidos ao lado
daquela tonta pensei eu ela perdeu-se de si mesma
para sempre quero lá saber durou dois anos depois
apagou-se a chama e à fada sucedeu a bruxa desvairada

para me consolar de ter vivido tão distraído
tão seguro erradamente de estar no caminho
certo lembrei-me da minha menina aquela que
me escrevia um beijo meu amor no fim das cartas
aquela que ao contrário da outra i love you and think of
you all the time e eu dizia-lhe previdente corremos
o risco de estar a viver um amor abstracto o amor não
é um bicho que se possa alimentar a si próprio durante
muito tempo o carnívoro o falso o imprevisível o
animalzinho sem escrúpulos ah o amor e o que a gente
inocentemente imagina que ele é tu estás a dormir escrevia
eu dou-te um beijo mas em que parte do teu corpo tu não
sabes quando acordares procura a marca e ficarás a saber
a grandeza da minha paixão por ti saberás tudo e ela dizia
um beijo enorme e prolongado for how long penso eu agora
mas tudo nos escapa falhamos todas as oportunidades de
ser amados por quem nos ama cobardia ignorância ligeireza
depois um dia morremos e assim se esgotou o nosso destino

quando saí daqui na sexta-feira cheia de
raiva de ti pensei é agora que me livro dele
da ascendência que ele tem sobre mim do amor
e no entanto passei o fim de semana todo
sem conseguir fazer isso conscientemente eu
odiava-te mas lá no fundo não conseguia
e não sei se não tinha medo de viver aí é tão
sozinho só mesmo com um cão bom dia
meu querido afinal tens mais poderes do
que pensas gostava que me visses hoje
sinto-me tão bonita falar contigo acalma-me
e deixa-me feliz vou ficar com a minha cabeça
encostada ao teu ombro e sentir a tua respiração
se me abraçares com força ainda melhor sim sim

como passava o tempo friday night e as cinzas
voavam levadas pelo ar da noite quente para longe
nem um ruído nem uma palavra no meu coração inerte
só a música irlandesa a sacudir a noite ilusões não te
amei eu sei o bastante não lutei por ti durante anos
preferi pensar que era preciso esquecer-te desculpa-me
o amor o que é o amor o que será temos de adaptar
os nossos sentimentos ao bater das batutas militares
quem é tão divino que possa desobedecer ser feliz

mood

Friday, July 20, 2007

... e passa-o pelo corpo

Li este poema de Bruno Béu no blogue paperback. Foi uma surpresa. Há aqui e noutros textos que li no blogue qualquer coisa que já tem muito sentido... É bom que seja impossível dizer qual...

relato dentro das minhas possibilidades de um concerto

(celebração)

toma, pega neste pedacinho
de noite e passa-o pelo corpo
antes de te deitares
. o fisicista
beijava a mulher e olhavam ambos
pedaços de terra antes de manipular
os elementos. aprender música
dizia o joão é como aprender a andar
de bicicleta
. e explicava: o silêncio
é a terra batida e ao início ainda
tememos a sua força ele está sempre
lá é nele que pedalas a diferença
está que quando sabes ele tem-te
em equilíbrio porque o equilíbrio
nunca é nosso
. sabes
o que vivi ontem na floresta
da serra ao cair da tarde?
disse
a mariana ao chegar ao concerto onde
o joão a esperava não havia vento
nenhum vento como se o vento
se tivesse ido embora e a sua ausência
congelasse a copa das árvores
e folhas na beira dos caminhos.
toma, pega neste pedacinho
de noite e passa-o pelo corpo
antes de tocares
. uma mulher
chamam-na bela roda com a mão direita
um manípulo na máquina do café e lança
vapor quente para o vazio
da chávena. pergunta alto: deseja
mais alguma coisa?
no largo do palácio
duas nuvens baixam-se e apanham
uma folha que caiu no chão, dizem-lhe:
não é assim que se anda
de bicicleta, não esqueças o ditado
o equilíbrio nunca é nosso.
o joão ajusta o banco, levanta
a tampa do piano no ar e com a mão
esquerda coloca bem alto o suporte faltam
três horas para o concerto pega na chave
e lá começa a rodar as cravelhas ao piano e
a afinar os sons. no intervalo ainda tem de
verificar se eles não mudaram de
lugar. o pêndulo do relógio, se o visses
apressa-se mais do que costuma
acerta as horas pela telefonia e toca
sete vezes, manel está na hora
diz para dentro a mulher do fisicista.
tem as mãos no peito. o rodrigo
afasta-lhe o cabelo do rosto
ele e a ana têm sete anos
e beijam pela primeira vez.
faltam três dias, diz para dentro
a mariana, quantos? pergunta-lhe ainda
a mãe, três grita, o joão disse-me
que era na quinta.
uma nuvem escurece
segue para as montanhas a norte onde
chegada meditará sobre a existência. o coração
a bater-lhe muito, depois de ter subido
tudo até ao cimo. toma, pega
neste pedaço de noite e passa-o
pelo corpo antes de tocares
. o joão recebe-o
nas mãos beija a mariana e agora chama-se
rodrigo tem sete anos e beija-a
pela primeira vez. sara tem de levantar muito os calcanhares
quando abraça (e abraça-o sempre) o marido depois dos elementos
serem manipulados. ficam assim
uma existência.
o teatro já está iluminado, manuel
nos seus vinte anos ajeita a casaca
e aparece do lado esquerdo do palco. ainda
passa o lenço pelo teclado as nuvens também
suam quando sobem pensa, e toca para
a segunda parte. o joão empurra a porta e ouve-se
um sino. avisa em sinês para dentro
que um novo cliente entrara
na loja velha. (sino pequeno, voz
aguda). joão dirige-se ao balcão
respira como uma nuvem cansada
a existência dentro de si. mariana
adoecera. agora, que acabara de ser
mãe. sara olha o marido.
beijam-se e olham ambos
pedaços de terra. manuel vai para dentro
(velho como a loja) manipular os elementos. o sino
toca. um cliente saíra. abraçam-se agora. ficam assim
uma existência.
beethoven, hammerklavier, manuel coloca
ainda as mãos sobre as coxas, depois
distende os braços ao lado do corpo.
vai entrar, respira, é uma sonata, e ataca
as notas com o futuro lá dentro. uma mãe
dá à luz. beijam-se, ela e o marido, e olham ambos
no céu uma nuvem que escurece. a mulher
chamam-na bela ainda roda o manípulo de vapor
quente para dentro da chávena quando
o homem lhe responde não,
obrigado. nada mais. duas nuvens
brancas baixam-se e apanham
um homem que caíra no chão, ele
chora, e tem um pedaço de noite no bolso.
elas dizem: entende agora: é de tudo isto
que se fazem as bicicletas
.

Era uma sexta-feira...

Quando expôs o quadro a artista escreveu por baixo - ou alguém escreveu por ela, noutra língua- que ele representava "le désarroi" de uma mulher que "having left her home" se sentia perdida na cidade imensa. Eu tive o privilégio de conhecer a artista antes de ela nos deixar e posso assegurar que o que estava escrito por baixo do quadro no momento da exposição não corresponde inteiramente à verdade. Ela própria me deixou em herança algumas páginas do seu diário dessa época e uma cassete que me pediu para só ouvir uma vez (ainda não a ouvi porque ouvi-la significa perdê-la para sempre). No diário ela tinha escrito estas palavras relativamente enigmáticas acerca do acontecimento que lhe inspirara a obra-prima:

Era uma sexta-feira, a noite já caíra em L... quando com uma mala saí de uma casa num bairro sossegado de C. S. Não pensava em nada, apenas ouvia o ruído das rodas da mala no passeio de cimento. Era nesse som que estava concentrada como se a vida não tivesse sentido. Necessidade de esquecer. Era eu que ali ia, toda, com os meus pertences numa cidade estrangeira. A caminhada era curta porque a uns cinquenta metros ele esperava-me com ansiedade. Era curto o trajecto, mas como que se prolongou para o resto da vida. Ouvia os passos e as rodas da mala na rua solitária, numa noite calma sem frio e sem chuva. Ia como quem anda sonâmbula. Quando chegasse ao carro acordaria e esqueceria o som dos passos e do rolar da mala pesada na calçada. Perdera o tino? Andara a brincar às casinhas? Não. Nem sequer podia desculpar-me com tais coisas.

Se entendi bem, estas palavras referem-se a um erro de que a artista se mostra arrependida (e que sente a "necessidade de esquecer"). Erro pelos vistos grave, pois a artista usa a expressão "perdera o tino" para tentar explicar o seu comportamento passado. A expressão "andara a brincar às casinhas" a que se refere? Adivinha-se. Embora o texto escrito para a exposição do quadro refira que "she left HER home", a impressão que se tem é que ela foge o mais depressa que lhe é possível de uma casa alheia para regressar "à SUA casa". Entende-se que a dolorosa viagem de retorno e a fuga da situação intolerável - do erro cometido - lhe parecem intermináveis. Mas "ele" espera-a "com ansiedade" e quando ela o reencontrar, ele ajudá-la-á a esquecer e cessará o tormento. As explicações que os artistas dão sobre as suas obras, como já se sabia e se prova uma vez mais, não devem nunca ser levadas a sério. Às vezes, porém, convém ter em conta que não são eles quem as escreve.

Vago

Confidências. Estados de espírito. Mas
não se movem as montanhas nem no mar
se agitam as ondas, tu podes amar ou odiar,
sentir-te só ou feliz, ninguém se dá conta.
Aquela que ao teu lado dorme não sonha
contigo. Nem na sua imaginação tu és o
abnegado cavaleiro que de aventura em
aventura persegue pelos campos um segredo,
a verdade, a decifração do mistério. Ausenta-te.
Foge de ti mesmo. Abandona todos os amores,
despreza o vício. Nem assim as águas, nem
assim os rios hão-de dar pela tua peregrinação
solitária, nem no futuro alguém sentirá por ti
alguma coisa, entende bem isso. Escreve à noite
nos cafés poemas inúteis em vez de ir jogar
poker ou de num bar te embebedares. Distrai-te
da solidão, gasta-a sem piedade inutilmente. Tu,
aquele que recusou todas as oportunidades de
redimir na santidade ou no crime o pecado da
desilusão, o remorso da perdição. E nem te amam
nem tu amas. Como se fosse apenas uma palavra,
a tábua do amor, destroçada, foi lançada ao rio e
agora vai, ignorada, pelos caminhos, pelas veredas
que ninguém conhece. Tu, ó falso místico, ó
religioso de crenças que nenhum deus se
preocupa em recompensar. Tu. Podes acreditar
que aconteceu alguma coisa. Mas nada aconteceu.
Estados de espírito: nuvens, fumo. Alegria ou
dor: vapor de água invisível. E sentados nos
cafés os jovens, rapazes e raparigas, sorriam-se,
trocavam as palavras do amor. Se eles soubessem.
Noites de ninguém. Não sucumbias. Não desesperavas,
não te sentias pobre ou rico, feliz ou desgraçado.
Tudo no seu lugar, paz do vazio que nenhum
remorso ou necessidade perturbava com o seu
ruído exagerado, com o gume da sua faca assassina.
Ó recordações de outrora, de outras cidades, de
outras paisagens. A Sainte Victoire branca, os
pinheiros na estrada do Tholonet, as papoilas
vermelhas nos campos loiros de trigo a ondular
ao vento. E de tudo ficou apenas a memória,
aqueles que lá estiveram juntos separaram-se.
Podes voltar, é a tua terra. Estão lá as flores, o
verde dos pinhais e o vermelho da terra onde
cresce o romarin é o mesmo. Só faltas tu e
aqueles que tu amaste e amas, jovens ainda,
na infância da vida. Amar de que serve? De
nada. Sofrer de que serve? De nada. Mas
porque haviam de ser mais do que felicidade
ou pena, mais do que ódio ou desejo os
sentimentos, porque haviam de ser mais do
que o que são? Os seios pequeninos da rapariga,
o seu corpo sossegado que a imaginação do
prazer não perturba ainda. A contemplação da
beleza e o tédio. Inventa-te um destino. Um
sacrifício. Uma vocação. Um desespero. Uma
dor de amor profunda. Chora. Não te incomoda
hoje a beleza, nem isso. Elas, as raparigas, podem
ir e vir diante de ti com as suas pernas nuas
bronzeadas, o cabelo desgrenhado na nuca,
a saia de algodão bonita, o fio de oiro no
pescoço. E tu lembras-te daquelas que amaste
um dia. E não lamentas nada realmente. Nem
te incomoda esta noite o que apreendeste sem
querer sobre a maldição. Onde está a pobre
louca que passava os dias e as noites a gemer,
que sonhava com amores que nunca existiram?
Já não dormia nem comia, uma terrível doença
atormentava-lhe o corpo e o espírito. Que tédio
sem fim a vida, afinal. Na mesa ao lado da tua
na esplanada do café as pernas das raparigas
cruzam-se e descruzam-se e as suas mãos
acariciam o nada com ternura. E sem inveja nem
sofrimento tu observas, sorris com bondade.

Oisive jeunesse

Fui a Évora




Tuesday, July 17, 2007

Anna Akhmatova: To the Many



I - am your voice, the warmth of your breath,
I - am the reflection of your face,
The futile trembling of futile wings,
I am with you to the end, in any case.

That's why you so fervently love
Me in my weakness and in my sin;
That's why you impulsively gave
Me the best of your sons;
That's why you never even asked
Me for any word of him
And blackened my forever-deserted home
With fumes of praise.
And they say - it's impossible to fuse more closely,
Impossible to love more abandonedly...

As the shadow from the body wants to part,
As the flesh from the soul wants to separate,
So I want now - to be forgotten.

September 1922


Anna Akhmatova, The Complete Poems, Expanded Edition, Translated
by Judith Hemschemeyer, Zephyr Press (Boston),
Canongate Press (Edinburgh), 1994 (2nd printing)


Escrito à mão

Couplet

To me, praise from others is - ashes.
From you even a reproach is - high praise.

1931


Anna Akhmatova, The Complete Poems, Expanded Edition,
translated by Judith Hemschemeyer, Zephir Press, Canongate
Press, 1994

Sunday, July 15, 2007

O meu cão e tu




Nunca nada me fez só mal, nem só bem. Tudo me tem feito sempre mal e bem. Hoje não sei que dizer, só te envio a fotografia do cão. Por mim não mandava. Mas o cão veio pôr-se ali à entrada da sala, na porta que dá para o jardim, e perguntou-me porque é que eu lhe tinha mentido.

- O que é que estás para aí a contar, disse eu.
- Disseste-me que ela hoje vinha, mas não veio nem vem.
- Como é que sabes?
- Assim que olhei para ti esta manhã percebi logo que ela hoje não vinha.
- Provavelmente ela nunca pensou em vir. Sabes como são as miúdas, um pouco fúteis, não sabem o que dizem.
- Mas tu pensavas que ela vinha.
- Nunca acreditei nisso a sério. Mas era uma possibilidade.
- Ela não é fútil, não inventes.
- Ok, ela não é fútil, nunca foi fútil, antes pelo contrário, tens toda a razão. Retiro o que disse.
- As raparigas não sabem o sentido exacto das palavras que dizem e que ouvem. Põem-se a sonhar com felicidades que ou não existem ou não duram muito. E tu exageras, falas sempre demais.
- Páras de me criticar, se fazes favor? Ou ficas sem o osso do jantar.
- Escusas de me ameaçar, eu não me calo. Tu inquietaste-a.
Aborreceste-a. Fizeste de propósito?
- De propósito o quê? Obriguei-a tomar consciência do sarilho em que se estava a meter. Foi só isso.
- O amor obrigou-te a sacrificar o amor. Contradições. Acredito ou não na tua bondade?
- Ela não tinha força para aguentar as consequências do que estava a fazer.
- Exasperaste-a de propósito, era o que eu queria dizer. A dado momento quiseste que ela se fartasse de ti.
- Se eu te explicasse tu não entendias. O que é que os cães sabem do amor? Os cães e as cadelas só sabem de sexo.
- Tudo na vida dela estava em ordem até tu apareceres. Ela dormia descansada.
- Não sei se dormia descansada antes de me conhecer, acho que não. Mas sei que percebi a tempo que se a deixasse acreditar que me amava a vida dela ia sofrer uma grande reviravolta.
- És tão imaturo. As paixões são sempre nefastas. És meio doido. E não tens emenda.
- Só meio doido? Sou doido de todo. Mas corrigi, está bem? Não aconteceu nada de grave nem vai acontecer.
- Alguma coisa deve ter sobrado para ela. Algum estrago.
- Tudo se resolveu como devia ser. Já te disse que não vai haver drama nenhum. Que chato!
- Vi-te secar umas lágrimas ontem.
- Porque é que te estás a meter onde não és chamado? A história de amor é minha e dela, não é tua.
- Está bem, já cá não está quem falou, peço desculpa.
- Eu e ela assumimos as responsabilidades. O prazer e a dor, a dúvida e o erro. As consequências. Tu não passas de um cão, portanto cala-te.

- Tanta arrogância. Os cães também têm sentimentos.
- Pois.
- Vi-te meio triste. O orgulho não te vai servir de nada.

- Estás enganado. Estou tão feliz como antes. Aliás ficas a saber que continuo a gostar muito dela, não mudou nada.
- Pois. Não mudou nada.
- Nunca me aconteceu uma coisa assim. Não me vou esquecer das palavras que ela me escreveu. Nunca. Ela é corajosa.
- Tudo se esquece um dia, não te iludas.
- O raio do cão. Abelhudo. Se já se viu um descaramento destes.
- Não desconverses.
- Nunca ninguém me disse de maneira tão sincera e tão terna que me amava. E muitas vezes. E ela está longe de ser uma pessoa qualquer.
- Pois, acredito.
- O que ela diz não pára de me supreender, faz-me pensar, toca-me. Uma sinceridade quase infantil.

- Pois, talvez. Mas arriscas-te a ficar sem nada na mesma.
- Que imbecil. Mas para que estou eu a abrir-me contigo. Parece que o parvo sou eu.
- Tiras-me uma fotografia?

- Para mandares à tua namorada? Não me faças rir.
-Grrrrrrrrr....
- As cadelas preferem os cães de carne e osso, uma fotografia não resolve nada.

- Perco a paciência e o respeito e mordo-te. A fotografia é para lhe mandares a ela. Não me digas que ainda não lhe falaste de mim...
- Morde à vontade. Olha, morde aqui na perna. E quem é que pensas que és para eu lhe falar de ti? A gente ouve cada uma...
- Ingrato, pouco educado e cobarde. Não tens coragem de assumir em público que és meu amigo.
- Não comeces com histórias...
- Ela não te sai do pensamento.
- Pois não. É natural.
- Digo o nome dela? Começa por A ou por ...

- Caluda! Proibido dizer o nome.
- Que reprimido. Tanto pudor, tanto segredo. Sofres em silêncio.
- Pensa o que quiseres. Eu não sou nenhum romântico imbecilizado. Mind your own business!
O cão olhou-me com ar interrogativo, não sei se duvidava da minha sinceridade. Eu vim-me embora, sentei-me a ler. Tirei-lhe a fotografia, mando-ta aqui. Um cão que pensa e fala não é coisa corrente. Enquanto te escrevia estava a ouvir os Madredeus. A hora que te espreita é só tua... Coisas pequenas... E a menina... foge... o barquinho... do Porto para Lisboa... foge a menina da beira-mar... Haja o que houver, eu estou aqui... Mas não posso pôr a música muito alta porque, como tu dizes, eu sou “um amor clandestino” e por isso não tenho direito a nada. Posso dizer pela boca da Teresa Salgueiro que “queria mais alegria, isso é que eu queria”, posso deixar essas palavras e a música como mensagem no teu telefone, mas é tudo. É muito ou pouco? É muito e é pouco.

P. S. I shoud write to you in English but I prefer not to, forgive me. If you did not understand what I wrote it doesn't matter anyway. I found this letter and the picture of the dog
today among other old papers in my new house, I couldn't stop thinking of you afterwards. It was longtime ago, do you still remember? Maybe not. I found a picture of you in the internet, you didn't change much. In the picture you smile, you look happy. I really loved to see you again so many years later.

Friday, July 13, 2007

Ceste fillette...

Ceste fillette a qui le tetin point,
Qui est tant gente et a les yeux si vers,
Ne luy soyez ne rude ne parvers,
Mais traictez la doulcement et a point.

Despouillez vous et chemise et pourpoint,
Et la gectez sur un lit à l'envers,
Ceste fillette …

Aprés cela, si vous estes en point,
Accollez la de long et de travers,
Et si elle a les deux genoux ouvers,
Donnés dedens et ne l'espargnez point,
Ceste fillette…

Jean Molinet
(1435-1507)

(citado por Paul Zumthor, Essai de Poétique
Médiévale
, Paris, Seuil, 1972)

Wednesday, July 11, 2007

Separation

You followed me to the train the evening I left,
carried the suitcase for me, took care of everything,
thought of everything - and didn't think at all!
I thought that, and my heart was cold.

Yes, it was cold. But it smarted from pain.
You made plans. - Oh leave me in peace!
I don't want to hear plans,
of your future - a future I'm not in!

The minutes passed. - A whole one, a half
- and now, now the train leaves, in a wink!
Finally you were quiet. Your mouth quivered,
and you forgot to be so careful and clever.

And my heart burst out of its shell of cold.
I leaned out, and we just barely reached
to touch each other for the last time.
And my life flew away from yours.


Halldis Moren Vesaas, Selected Poems, translated
from Norwegian by Wakefield and Thomson, White
Pine Press, 1989

Saturday, July 07, 2007

O que é gostar?

What are expressions of liking something? Is it only what we say or interjections we use or faces we make? Obviously not. It is, often, how often I read something or how often I wear a suit. Perhaps I wont even say: "It's fine", but wear it often and look at it.

Wittgenstein

Thursday, July 05, 2007

A cómoda inglesa

Aquela cómoda inglesa
que era a minha paixão,
um dia pensei vendê-la,
livrar-me da escravidão.

Nela eu guardava sonhos,
rascunhos, fotografias,
uns poemas enfadonhos,
restos de melancolias.

Rangiam como nos barcos
os mastros na tempestade
as suas gavetas velhas,
inchadas de má vontade.

Se eu tivesse adivinhado
que envelhecias assim,
nunca te tinha comprado,
trazido pró pé de mim.

Cómoda inglesa tão bera,
sem classe, sem qualidades.
E pediu-me que a pusesse
no museu de antiguidades.

Àquela cómoda inglesa
que não tinha qualidades
não faltavam arrogância,
santa ignorância, vaidades.

Se fosse jovem, bonita,
a gente compreendia.
Mas era velha, esquisita,
e além disso gemia.

Era um móvel de direita?
Talvez homossexual?
Fizeram-lhe uma desfeita?
Ninguém lhe queria mal.

Ó ambição desmedida
de móvel utilitário.
Provavelmente querias
ser madeira de sacrário.

Contenta-te com o que és,
não queiras ser admirada.
Tens o destino traçado:
um dia serás queimada.

Aquela cómoda inglesa
que eu tratara com desvelo,
ingrata, tornou-se um dia
no meu maior pesadelo.

Amarga, no canto da sala,
onde eu a tinha deixado,
se me acontecia olhá-la,
insultava-me: falhado!

Ó cómoda sem qualidades,
que eu venerei, protegi,
ignora a minha existência,
faz de conta que morri.

Eu não creio no futuro
nem na imortalidade.
Deixa-me em paz, ó maldita,
ó poço vão da vaidade.

Quadras

Ó menina trapaceira
que nunca diz a verdade.
Hei-de ir vendê-la à feira
sem remorso nem saudade.

Há quem pense que o amor
é coisa pra gente fina.
Eu já amei um estupor
quem é burro nunca atina.

Os beijos que tu me deste
deixaram-me apaixonado.
És mazinha como a peste
mas era esse o meu fado.

Eu beijei-te e abracei-te
com ternura e com paixão.
Mas já há quem não respeite
as regras do coração.

Sozinho não era nada
mas tu sorriste pra mim.
Oh que hora desgraçada
foi o princípio do fim.

Se eu falasse e tu me ouvisses
talvez fôssemos felizes.
Mas tu é só garridices
como as pintas das perdizes.

Às vezes sonho contigo
e que me estás a abraçar.
Quando acordo dou comigo
no travesseiro a chorar.

Saudades das tuas mãos
saudades do teu olhar.
Elas e eles irmãos
unidos pra me enganar.

Os beijos que tu me davas
eu logo tos devolvia.
Como saber se te amava
se dava o que recebia?

Porque andas tão calada
e esqueces que já me amaste?
É paixão assolapada
por alguém que encontraste?

Não respondes se eu te falo
e já não vens se te chamo.
Sou como a rã no seu ralo
como o pássaro no ramo.

Wednesday, July 04, 2007

The way

Everything you do is a way
of getting closer to the project.
You go North or South. You
stop thinking. You change
your mind and return home.
You are always following the
path and the path is the way.
On the sides of the road the
drained faces of women and
men are escorting you. They
smile or they cry, you are
aware of their companionship.
But you are focused on the
way. You don’t listen, you
don’t stop. Maybe you go
nowhere. Maybe you walk
ignoring where the path is
leading you. Everything you
do or do not do is a step into
the way. You are the way.

Sunday, July 01, 2007

Dilema

Era um homem sem presente nem futuro. Só tinha passado. Mas viam-no no presente a cumprir todas as obrigações e sujeito a todas as necessidades, como as outras pessoas. O processo que o levara a semelhante evolução seria difícil de descrever e de explicar. Ele próprio a única coisa que sabia dizer era que odiava a situação em que se encontrava. Gostaria de libertar-se dela enfim, de aceder ao presente, de poder sonhar com o futuro. Não podia, por enquanto. No futuro só via a morte: ele e a morte, daqui a dez ou quinze ou vinte anos. Um acontecimento imprevisto, uma surpresa de que nem sequer teria tido tempo de dar-se conta. Porque num segundo morre-se, no meio da consciência que começava a ter-se do que ia acontecer. No presente só via sombras, silhuetas, inconsistência, nada. Nada em que pudesse deter o olhar ou pôr a mão sem que o passado se intrometesse na percepção, na sensação, tornando impossível qualquer emoção original, desconhecida. O conhecimento da actualidade do corpo, da consciência, do mundo estava-lhe vedado.

Como foi que as coisas aconteceram? Ele vive de obsessões, a querer resolver o que não se resolveu, a tentar compreender o que não foi compreendido. Se morresse agora, morria no passado, numa zona imprecisa do passado que tenta decifrar. O que é que há para compreender, para explicar? Ele cala-se, não responde. Se insistimos, diz: não sei. Não se pode interrogar de maneira tão directa uma pessoa sem a embaraçar, sem a confundir. Não se deve. Uma vez ele perguntou a uma rapariga com quem saía às vezes: o que é que tu queres, afinal? Ela respondeu: não sejas indelicado, perguntas dessas não se fazem. É o que ele pensa também acerca da obsessão com o passado: não há explicação, não se pode explicar; ele, a parte dele que pensa e sente, ficou lá para trás. O espírito fixou-se em certos detalhes de episódios que aconteceram e nunca mais ficou disponível para se ocupar do presente nem do futuro.

O espírito não está disponível para se ocupar do presente nem para se preocupar com o futuro. É uma maneira interessante de apresentar o problema. Não explica grande coisa, mas permite ficar com uma ideia do que se passa. O que é que ele não conseguiu entender e agora passa o tempo a tentar entender? Ele não sabe dizer. Admite que o acontecimento que está na origem de tudo, que amarrou a si o espírito, a consciência, a inteligência, pode ter a ver com o amor ou a ilusão do amor. Mas que também pode ter a ver, de maneira mais geral, com a questão da verdade. Sem se dar conta, sem o ter desejado, sem estar minimamente preparado para isso, transformou-se num filósofo perturbado por questões insolúveis. Pelo menos enquanto não encontrar a solução, enquanto não puder dar uma resposta satisfatória à pergunta fundamental, que na verdade se tem de desdobrar em duas perguntas: o que é a verdade? o que é que distingue a verdade da mentira?

A questão da verdade. Que lhe ensinaram em casa e na escola, que aprendeu na rua ou no cinema? O que é a verdade? O que é a mentira? Por que razão tem importância distinguir a verdade da mentira? Que significa dizer a verdade, identificar a verdade, reconhecer a verdade, encontrar a verdade? Exemplos: o olhar pode mentir? o rosto da mãe, do pai, da pessoa que se ama podem mentir? as palavras que aparentemente estão a dizer a verdade podem estar a mentir? o amor pode ser mentira? Não há resposta, diz ele, que permita resolver cientificamente, definitivamente, o problema. A regra, a definição que permitiriam ultrapassar o problema não só não existem como não serão nunca descobertas. Temos de viver com a dúvida. Temos de aceitar que não está ao nosso alcance chegar a uma conclusão. Às vezes ele diz: nós queremos encontrar a resposta para uma pergunta à qual não é possível responder. O rosto da verdade e o rosto da mentira são idênticos. Nada os distingue. Ora se eles são idênticos, como é que nós podemos distingui-los? O que distingue a verdade da mentira não é o rosto, é o que está por detrás do rosto. Mas não há ciência que permita ver o que está por detrás do rosto. Por detrás do rosto ora pensamos que vemos a verdade, ora pensamos que estamos a contemplar a mentira. E nós não sabemos explicar convincentemente a nossa mudança de opinião, a indecisão, a dúvida.