Tuesday, May 29, 2007

O amor: digressões

O amor. Canseiras. Tretas. Suor. Não durmas.
Esforça-te. Esperam por ti. As mãos, pés, os lábios
e os olhos, a pele do ventre liso. O que é sentir?
Não sentir é como o sono da morte? Circulavam
na cidade. Sorriam na televisão. Desapareciam nos
cafés. Amontoavam-se nos aviões, nos hotéis.
Atropelavam-se nos funerais. A rotina triturava
as tardes e os desígnios. Cada dia matava o anterior.
Sem piedade. Eliminado de vez. Restos? Por favor.
Não, ainda não comi nada hoje. Tenha lá dó e
paciência, senhor. Alma inútil. De pedinte sem fé.
Cruzamo-nos na rua. Vemos? Vesgos. Cabisbaixos.
Cegos. Amantes. Fugitivos. Clandestinos. Às vezes
o desejo. Tantas vezes o desejo. A luz ao fundo do túnel.
As pernas pesadas do desajuste com a escravidão. Vamos
indo. Imagino. Vamos para lá. Nunca chegaremos. O sangue
já derramado, pensamos nisso? Tu de novo. Sempre. Nunca
soubeste odiar-me. E perdeu-se tudo. Lixo. Nada. Nervos.
Leite em pó. As tuas maminhas secas. Agora é cedo de mais
para recomeçar. Tu, tu. Tarde. E impossível. Mas se eu.
Não. Eu não. De maneira nenhuma. O teu rosto debruçado
sobre o meu no leito da morte. Sim, acabei de morrer,
terminou a minha vez. Acabou-se o espectáculo. Queria
saber o que sentes antes de ires à tua vida sem mim enfim.
Sem sentimentos. Nunca. Ou nem foste lá? Ver-me.
Observar. Assegurar-te. Não? A intensidade da indiferença.
Cuidado. Por uma fresta dos olhos talvez eu te esteja a ver.
Vigio os teus passos. Os teus braços. Os teus olhos. A tua
boca. Tudo o que tu desperdiçaste. Gastou-se o corpo sem
proveito nem. Foges. Apressada. Cabeça no ar. Foges de
quem? De mim ou de ti, da tua mãe zangada. Só pode
ser isso. E aonde pensas que vais? Tonta. Eternamente
tola. Em casa respondes aos anúncios do jornal.
Metodicamente. Compras-te. Vendes-te. Trocas-te.
Cores. Tecidos. Tintas. Papéis pintados. Anuncias-te.
Tu. Oh, tu. Na mesma cama, lembras-te? No mesmo sono.
Na mesma vida e na mesma morte. Porque saltaste o
muro? Era o que todos pensavam, sem ligar importância.
Que eu te maltratava. E eu então. Eu também. Saber é um
logro quotidiano. Sobrevives a todas as inatenções.
Atendes o telefone. Está lá? Quem fala? Sim, sou eu
mesma. Venceste. Que horas serão, meu amor? Que
se passa? Beicinho caído. Olhar esconso. Bibe sujo.
Estás aos saltinhos. Os teus dedos de sonsa arrefecem.
O teu coração acelera. O teu peito vai rebentar pelas
costuras do vestido. Todas as dores, ó Virgem Maria.
Tem pena da menina. Eu amo-a. Rezo por ela. Que
negaste, ó insensata. Que quiseste esconder. De ti
e de mim. Ela disse que não tinha seios pequenos.
Eu: who cares, eu falei por falar. Estava distraído.
Não sou fetichista realmente. Juro. Sou normal,
monótono, no meu inconsciente o significado ainda
não se divorciou da roupa por detrás da qual esconde o
corpo. Se tal corpo existe antes de o imaginarmos. Sei
não. Não sou ugly, juro, disse ela. Hmmm. Como estar
seguro? Só vendo. Estava a brincar com o fogo. Imbecil.
Vem de saia ou de jeans, como tu quiseres. Não deve
fazer diferença. E não cortes ainda os teus longos cabelos.
Hoje, disse ela há dias, estou de calças azuis e com uma
camisola de lã vermelha. Mas tu não sabes. Eu posso estar
a mentir. Ela fala comigo como se soubesse o que eu quero
ouvir. É esperta. Não, disse eu, tu nunca vais mentir. Não,
disse ela, eu nunca vou mentir. Não era preciso. O telefone
colado ao ouvido horas e horas. Que talento. Que cegueira.
Excessos. Que tolice. Temos medo, agora temos medo?
O mal é esse, eu nunca tenho medo. Avanço, recuo,
encontro sempre uma maneira de sair do beco sem saída.
Ela: telefono-te mais tarde. Está bem. Horas depois,
no café, eu ouvia o estudante judeu que é meu
conhecido dizer: vamos impregnar um charuto de
absinto logo à noite, eu e os meus amigos, e depois
fumamos, é uma experiência. Deve ser divertido,
comentei eu. Estava distraído, a pensar noutra coisa.
Ideias como cerejas. De mais. De menos. À porta do
supermercado uma banda impertinente estragava
o silêncio. Merda. Porra. Não se pode viver em paz.
A rapariga chegou, sentou-se numa cadeira, ficou
logo com o rabo de fora. Duas meias luas, bochechas.
Depois foi-se embora. Leu, leu, passou páginas, depois
foi-se à vida. Deve ter ido para casa. Ou meter-se na
cama do rapaz que a ama. Anónima. Secreta. Nunca
mais a verei, está claro. É-me indiferente neste caso.
É assim, o destino é esse. Não era muito bonita. À
juventude, porém, tudo se perdoa. Hoje é dia de
saldos. É sempre dia de saldos neste putain de pays,
de qualquer modo. Traições. Remorsos. Os mortos
da guerra voltam em caixões invisíveis. Heróis de
palha, humilhados. Parvos da pátria absurda. Milho
dos pardais que nos comem. Vermes. Dinheiro a
rodos. Filhos da puta. Na sombra as palavras
organizam-se como um exército que vai partir
para o combate. Nuno Álvares Pereira. Ala dos
namorados. N'importe quoi. Aljubarrota. Espanholada,
fora daqui. Tudo a postos. Armário dos ódios. Hospital
dos falidos. Depósito de armas. Saltam para o vazio os
heróis ao som das fanfarras pornográficas. A trafulhice.
A noção de pátria em saldo. Fodam-se, seus cabrões.
Eu tenho estado silencioso. Impotente. Por dentro
irreverente. É. A internacional capitalista. Observo-vos,
porém, e tudo me escapa. A minha vida anterior e interior
ocupa-me inteiramente. Não quero ser citado, recordado,
chamado como testemunha do crime. Para quê? Olhares
amortecidos. Cobiçosos. Carnificinas antecipando. Não
insistam, por favor. Ó dias de sublime insignificância. Oh,
transformar-vos. Nas vossas tripas injectámos o carvão
azul do sonho, as fantasias verdes, a memória negra e
branca dos mortos e de todas as ofensas. Seguros de
nada, nunca. A sintaxe, afinal, suporta todas as
transgressões. Que interessa o estilo? Haveis de morrer,
vermes da terra. A desordem não tem qualquer hipótese
de triunfar. É pena? É. Que não seja evidente nem útil
denunciar a actividade dos criadores invisíveis de absoluto
inexistente, entende-se. À sombra está mais fresco,
intriga-se em boas condições de trabalho. Dêem-me
um poeta português muito pouco lido. Ou mesmo
um romancista, sei lá, um gajo falaciosamente muito
conhecido. E iludido sobre a sua missão terrestre.
Tirem-lhe uma fotografia na biblioteca pessoal com
um rosto que olha para a eternidade. A seguir
puxem-lhe o tapete de debaixo dos pés. A ver
se ele percebe. Que vive mal. Quero recuperar
a ideia da pátria,porém. Não sei. Através dessa literatura
de cordel. Desse transvio. Dessa indiscreta arrogância.
Dessa cangalhada a que chamam a literatura portuguesa
contemporânea. Foda-se! Mestres do estilo e do sentido
da vida. Da minha não. Pedantes. Padrecas. Beatos da
palavrinha bem penteada. Ou do sussurro poetizado.
Coitados dos cidadãos incorruptos. Água suja.
Pus nas valetas. Ouvidos de longe os arautos
assemelham-se a papagaios. Corto-os aos bocadinhos,
com desamor, despejo-os no mar. Que eles cantaram.
Classe peçonhenta, vade retro. Despachá-los para a
lua. Viveremos em silêncio enfim. Serias um
deles sem o saber, por isso não exageres. Eça
não sabia escrever nem construir romances.
Disse o escritor que amamentava a burguesia
empobrecida de proteínas no espírito. Ele
há cada um. Fecha a torneira. Cala-te. O jardim
zoológico está na tua cabeça engripada. És a girafa
do pescoço esticado. Não te esqueças de mim,
queridinha. Fala-me como se eu fosse o teu
namorado preferido dos quinze anos.
Amordaçam-nos. Eu sei que és capaz de
fazer isso por mim. O teu amante preferido. O
último. Cinzas lentamente a revoltar-se no fogo.
Sem terrores. Sem pudor. Como é que tu dormes?
Há uma janela no teu quarto, claro. O teu rosto
de manhã ilumina-se. Mas vais envelhecendo.
Eu não quero saber nada. Quero sonhar que te amo.
Há-de passar-me mais uma vez. Não irei de noite
violar a tua intimidade com a minha ausência. Os
moralistas ignorantes. Fracassos ruidosos. Suicídios
que ninguém viu. Sofrer é bom, abre caminhos. A
dor dissolve-se no tempo sem fazer espuma.
Afunda-se no tanque de águas turvas. É engolida
pelo pântano, as mãos ainda a querer agarrar-se.
Chego cauteloso, escondo-me. Quando
te vir, apago-me. Arrisco? Não posso voltar atrás?
Quando levantares os olhos. Eu sei lá. Estremeço?
Olhas para mim. Dás pela minha presença. Não
te distraias de novo, digo ao meu cérebro. Desta
vez tem de ser a sério desde o incício. Balelas.
Não há mais oportunidades. O rio vai secar.
Pois. Nem barcos nem horários, nem travessias
nunca mais. Eu sei, o amor. Eu sei. A cadela
mordeu-me o calcanhar. Tinhosa. Tu estavas
dentro da caixa fechada da adolescência
a brincar com os ratos e as teias de aranha,
fazias pactos ingratos com as cobras, mordias
o focinho dos ratos tristes. Meu amor pequenino.
O céu azul escurece. Podia separar-me de ti e
nunca mais. Que pena. Não. Eu não queria avançar,
estava preso no lodo. E então puxaram-me. Não
resisti. Delirei de novo. O amor. Uma mulher. A
paixão. A minha vida está em ordem, creio. Só
falta alguém antes de eu morrer ensinar-me a
amar e sobretudo a ser amado sem revolta. Ingrata
lição. Nunca aprendi nada. Eu esforço-me, antecipo
todos os sentimentos. Vou depressa de mais. E
no entanto. Ou será por isso. O tapete que escorrega
debaixo dos meus pés. É a sina. Estou doente. Já
dei muito para a tranquilidade social. Agora quero
pensar em mim e entender. Nunca deixo de amar,
acumulo. Tu e tu e tu e tu. Não me reconheço no
que acontece. Acima das minhas forças.
Inteligência limitada. Desfocadamente.

Saturday, May 26, 2007

Café Mojo

Falar de cães ou da tarde de sol,
o tédio. Aonde ir morrer? Onde
esconder o cadáver da rapariga
de rosto impassível, tão branco
sempre, pureza, restos de pecados?
Confessa-te, ó mortal idílio da
juventude, ó. Não. Sonhos de
glória. Aplausos. Parvos. Se.
Bullshit. You motherfucker. Petit
con. Fantasma. Tanta dedicação.
Leave me alone. E a ópera, as
árias. Insistentes. Tu lembras-te?
De mim? E daquele pedaço de
paisagem com arbustos, ao sol?
Travagem brusca. Sem emoção.
Uma adolescente curiosa. Hi.
Blow job? Às oito. Nas escadas.
Traz o manual de filosofia. Sim?
Paixões. Úteis. Cem dólares. Uma
noite de hotel. Tinhas música e
havia champanhe. E os caracóis?
Do púbis nojento.You bastards
you are destroying the planet.
Lágrimas, crocodilos, a rata,
a serpente do paraíso. Corria
o rio nas minhas veias inchadas.
O herói do filme, o foragido do

crucifixo perseguia. Quem? E
tu silencioso. Morto. Imbecil.
O destino, rodas de borracha
silenciosas nos corredores do
hospital. As minhas pobres
entranhas. Deixaste-me lá, foste
à tua vida. Tão longe já. Veloz.
E a bruma, o deserto, o quadro
do pintor desconhecido. Azul
e vermelho. Primária, pecadora.
O único livro que eu podia ler.
E tu, tu queimaste-me no fogo
do meu delírio ardente. Eu deixei.
O amor, o amor, foda-se. Sorri
para a máquina fotográfica, anjo.
Nesse colchão de penas tão
usado, encardido. Nunca saí
de onde estou. Tu não virás e
eu. Quero lá saber. Fuck. Eu
não, eu juro. Eu em Espanha.
Inalterável sempre por dentro.
Perseguir o destino. De costas
viradas para o Inverno. A única
maçã verde. Morder nela. A minha
fome, a sede. Laranja caída da
árvore. Podridão. Fedor. Tentei,
não consegui. Bolor. Não a pude
abrir, onde estava a chave? Dá-
-me a tua mão fria. Os teus dedos
inesquecíveis. Intactos ainda.
Cidades tão desertas, túmulos
de paixões por terminar. Acabar
comigo e com os ideais de uma
existência luxuosa à beira-mar.
Infanticídios. Sangue inocente.
And you don't even remember
what happened. Poor you. You.
Tontinha das borbulhas. Do ódio,
sim, da incompreensão. Nada sei.
Nada direi. Nada confessaremos.
Luzes nas esquinas, reflexos,
nevoeiro,
calçadas húmidas.
Gritos. Silêncio
negro. Poço
sem fundo do aguilhão da dor.
Promessas. Masturba-te, é
o que.
Incitam-te. Convidam. Abanava ao

vento. Naquela romaria de aldeia
cantavam, dançavam. As sombras.
E tu onde estavas, esquecida de mim,
a delirar de novo? Tu sabes que sem
mim. Não, não consegues. Tenta.
A amante infiel em casa bordava.

Tonta. Clara linda como o sol. Ó
mãe,
infância incompreendida.
Na sombra, cantavas. Dócil. Sem
saberes a importância, o alcance.
Um dia. Mas não. Basta-te
a ti
mesmo. Não contes. Ninguém.

As cores, ar, sussurros, beira-mar.
A medida, o metro, a regra, a lei.
O rosto rubro do terror. Sujo. E.
Algazarra popular. Embarcaste,
depois arrependeste-te. Rio acima,
rio abaixo. Ventre pútrido, infamado.
Inflamações. As bocas sorriam. Vi os
dentes brancos. De joelhos nus, tu ias.
Eu excitava-me com as minhas pernas
arrumadas no caixão, dentro das calças
para sempre mal vincadas. E tu nunca,
tu nunca confessarias que me tinhas
conhecido, traído.Tiveste vergonha
das minhas mãos, tu, pútrida donzela.
Do meu rosto. Do meu corpo. Tu. A que.
Meditaste? Ranho verde. Vendida. E eu.

Olhava. Chuva. O oceano, ondas
murmurando ao longe, nas estrelas.
Ou nas estradas. Ou nos comboios da
ordem falsamente restabelecida. Tudo é
ensaio, simulação, divulgação do erro.
And here we go again. Passar-te, ó puta,
a
ferro. Embalsamar-te, que te amassem
no futuro, pernas bem abertas no colchão,
todas as. Todas as. Pagarias assim. Mas não.

Vidros partidos. Marcas? Que resíduos dos
meus dedos na tua pele se infectaram?
Tantos rostos. Se elas. Se eu. Sorri. Se
tu. Don’t flatter me, please. Your legs,
your beautiful legs esmigalhando-se
again contra o lençol das cortinas que
para atenuar a mancha nós. Oh. Sem
remorso.
Sem. Sem recordação. Que
fizeste? V
em comigo. Estás talvez não
sei se
perdoada por engano. Imagino.
Anda. Mexe-te. Abana-te. As
pérolas
dos colares na varanda de madeira

do teu pescoço. Eu: não sei cantar.
Não sei
ouvir. E o dia esplendoroso
ria-se
da minha pena, da ausência
intrigante
dos meus pensamentos.
Se não me odiassem. Se tu. Ninguém
regressa, nunca. O cão entre as mesas
do café abanava o rabo. Ser sem alma.
Amamos nas auto-estradas, assassinamos
a todas as horas de expediente normal.
A oposição nunca cairá. Infortúnios.
O alcance dos sonhos. Salva-me. E o
cão. Minúsculo, ridículo. Ela dava-lhe
beijinhos no focinho, chamava-lhe filho.
E eu tão só, nós tão sós. Milagres da
natureza morta. Uma história que se
possa resumir, recontar, recolher ou
queimar na vela do barco que pelas
ilhas ia ao sabor do vento. Correntes
de prata ligavam-nos ao fundo do mar.
Acenar. Olá. E a perdição e as vogais
poluídas pela tua garganta de cadela.
Não, eu não tenho pecados a confessar.
Não, nem remorsos, nem projécteis, nem
vapores de água arrefecidos na bruma
secreta das noites de vício, irrecuperáveis.
Quero emendá-las. Quero renegá-las. Eu
sei lá. O que quero. O que sinto. A dor.

Friday, May 25, 2007

folhas

a carne firme do tronco. cresciam
as paredes da casa. abandonar as
palavras erradas. como se faz um
livro? a ver as folhas dos plátanos
esvoaçar. castigo desconhecido.
cheio de remorsos. ninguém deu
por nada. nem pela tua vez. nem
sequer as mãos cegas irresponsáveis.
ao serviço do dizer. depois fui para
casa. alguém que não chegou ainda.
não sabes viver só. os dias como
folhas soltas. caem da árvore
ao encontro do destino. o amor.
escolha? nem tentavas responder.
dias perdidos. riscados no calendário.
à solta da intenção. tu sentado no café.
sofrias. existe a dor. póstuma? nem
ódio. não vinha a propósito. falei-te.
construir. aquilo a que se chama.
eu vi-te de passagem. mais nada.
que sentido? erro? prolonga-se o
malentendido. por arrepender-me.
meu amor onde estás? não me serviu
de nada. dormi mal. existência discreta.
ao fundo do café. está ao nosso alcance e
às vezes escapa-nos. o sentido obscurecido
da linguagem. como folhas soltas que
voam da árvore. estava só sentado
ao fundo da esplanada. vieste parar
aqui e tentar. isso ou. as palavras que
para mim. ou o rosto de alguém
que não se deixava adivinhar.
inquieta. que te atormentava?
o amor também te importa ? domingo.
mistérios. o tempo. arrefece vai chover.
deram por quê? sempre tiveste saudades
dos lábios e da caneta. eu na verdade.
os dias não se juntam. sem destino acabam
por perder-se. sentada no café falavas.
com quem? a desordem da ausência. sabia.
não devia. os olhos que nos folheiam. mãos
dos plátanos. terão para ti algum sentido
em particular. os livros. como folhas que
esvoaçam. fixavam descobriam em nós
sentimentos. não. nunca entendi. quando
falei deve ter sido com o sentido das
palavras entrevisto nos sinais em que ele
partiu. não sabia. quantas vezes me escapou
nas lajes do cours mirabeau. o futuro. so
sorry. fatalidade? éramos teus. podem ter-se
dado conta sem tu veres sem eu saber de nada.

Thursday, May 24, 2007

23 de maio

a minha vida fabulosa. what the hell am i doing?
apenas indo. e depois regressaria. conhecia
as montanhas recortando-se contra o céu.
estarei mais perto porém da suprema sabedoria?
a mulher que provavelmente comecei a amar.
de espírito. achado estilístico! é de morrer a rir.
estrada adiante. não ia a lugar
nenhum. ia. as
pessoas ainda. falam. pedem. quero lá saber

o caminho dos vossos estados de espírito.

e às vezes evidentemente chego a conclusões.
há pouco tempo ó noite de inverno tive saudades
de alguns poemas que falavam do amor. quando
eu a fumar um cigarro na esplanada deserta de
um café. a minha cabeça nas mulheres que
amei mas não soube amar. não me aborreçam.
morrer quem? here? gastei anos a aprender
sem ter realmente ninguém. agora limito-me.
ia sozinho no carro pela pátria em que penso.
na pouca luz do fim do dia. lições que não
serão úteis nem a mim nem ao fim da tarde. hoje
pela auto-estrada. em vez das vossas opiniões
do vosso estilo insuportável. infantis com as
palavras. que tédio. rilke sim celan ninguém.
quando morrer bem nada a dizer. tenho mais
que fazer. eu sei também passei por lá. quem tem
alguma coisa noutro continente até à saída onde
está a ponte não pára de pensar de recordar de
avaliar. para se engasgar perpetuamente em pedantices
literárias. saudades de ti. serve? tenho horror à poesia
acho-a obscena. importante. a poesia por exemplo.
sim. o pacífico à esquerda metálico rugoso.
esperança de ser amado até à loucura para
sempre. para que desterro as vossas brincadeiras?
ó música de rock no café. literatura da nossa.
de amar. escrevi. ignorantes. pessoas distantes.
sobre a auto-estrada. a dizer. que o diga. em vez de
se interessar pelo que eu sentia. ó desolação.
vidas sem paixões. eu. querem lá saber das palavras.
das quê? e as frases pagam-se caro. as pessoas
têm a sua vida para viver. não é gratuita. às vezes.

Wednesday, May 23, 2007

Diz-me a quem sorris e...

Ela sorria em quase todas as fotografias, parecia estupidamente feliz, estava exuberantemente excitada. Eu nem a reconhecia. Como não tinha sido eu a tirar-lhe as fotografias, cada sorriso dela era uma provocação, uma prova de falta de carácter, uma injúria. Poor thing. Fiz uma montagem de todos os sorrisos no Photoshop e adoptei a fotografia como wall paper do meu computador. Ao fim de uma semana, cansado de contemplar a tolice leviana, voltei à natureza morta a preto e branco que usava antes. E nunca mais tive saudades dela.

Tuesday, May 22, 2007

amar

amar-te é como amar a deus. vais jantar comigo e depois abandonas-me à minha solidão não te vejo não me respondes. pensarás em mim? o que é que tu queres afinal? queres ir comigo para onde eu for. mas continuas a ter medo do amor e ainda não sabes se podes confiar em mim. é isso que tu dizes. eu respondo: e se não nos entendemos, como é, o que vai acontecer? tu dizes logo: não nos entendemos? por que razão é que não nos havíamos de entender? as tuas contradições são inúmeras. tenho de ter isso em conta. tu és um little bird com as asas feridas e usas o bico para compensar a incapacidade de voar. queres e não queres. complicas tudo mas depois simplificas tudo não sei que pensar. só sei que é sexta-feira à noite que tu vais trabalhar até tarde que provavelmente não te vou ver durante três ou quatro dias. não te queixes de mim, eu sou paciente.

Monday, May 21, 2007

Exigente (2)

a minha capacidade de amar é inesgotável, excessiva.
a solidão pesa-me. às vezes ela não me entende, acha
que eu fui mau com ela; eu fui apenas tímido e desastrado.
beijo-a no pescoço, no cabelo, ela enternece-me. cheguei
a casa, meti o peito do frango no forno e o arroz a cozer.
creio que estou mal habituado, que não percebi ainda.
ela é frágil, insegura, sensível, secreta. depois falámos.
ela responde: acho que sim, mas não me faças mais
perguntas, neste momento não te posso responder.
enchi um copo de vinho e comecei a beber.
estás sempre insatisfeito, diz ela, não é fácil para
mim lidar com a tua insatisfação. sou uma besta,
digo eu. nem sempre. às vezes. se começo
a acariciar-lhe o rosto ela fecha os olhos, fica
perturbada e foge das minhas mãos. sei
que vou esperar. não é isso que ela quer, ela
só me pede paciência, que não acelere as coisas.
não entendo. não estou habituado a esperar
pacientemente pelo amor, por exemplo.
não faço nada bem feito. não me pressiones,
neste momento estou deprimida e tu sabes isso.
é a voz dela, faz eco nos meus ouvidos. não
me resta mais nada. não acredito em mais nada.
não mereço tanto. não paro de pensar nela, mas
ela está exausta. ninguém me compreende e ela está
exausta. os lábios dela são quentes e macios, gosto
de a beijar. é ela que aproxima os lábios e me beija.
pela primeira vez fui a casa dela. encostado à cómoda,
pergunto-lhe: que lugar é que me vês ocupar na tua
vida, achas que me podes amar? às vezes apetece-me
fugir-lhe. quando cheguei ela encostou a cabeça no
meu peito, gostei muito, mesmo muito. que posso fazer?
uns segundos. não mais. a cozinha era à esquerda, meio
separada da sala onde ela tinha a cama, a mesa de trabalho
e um sofá. quem é que me pode aturar? sei, digo eu, mas
tu excluis-me dos teus problemas, não recorres a
mim nos momentos difíceis. sou um idiota. sim.
talvez depois de comer fique mais optimista.
t
u és demasiado exigente, diz ela. sou sou.

Sunday, May 20, 2007

uma tarde

a abanar a mão enquanto a porta se ia fechando.
claro que sim, claro que sim. falar só por falar?
como era possível enredar-me em ficções
que faziam sofrer? disposta a abrir-me a alma.
despropositada: nunca me fizeste mal. deve
haver o quê? que queremos que haja? engano,
nós nem nos conhecíamos. ela falou para ficar
de consciência tranquila. do we know? do we?
eu ouvi-te. conciliadora. é fácil, depois do crime.
amor? é possível, mas pode duvidar-se. que riso.
encolheste-te na caixa do elevador o mais
que pudeste. estou a vê-la, meses antes, na margem
do rio. falou, deitada em cima da cama do palavreado.
há quem fale para convencer. mas foi a última vez.
meti as mão pelas tuas calças a dentro: não faças isso.
sem consideração nenhuma pela pessoa que estava a ouvir.
confusa. escondida, envergonhada. figura branca a
dissolver-se. momentos antes, quando te abracei, o teu
corpo quase desaparecia. nojo. por detrás de todas as
tuas traições. amor ainda. do we know? do we? obrigado
por tudo. porque falaste tanto dessa vez ao telefone?
portas escancaradas, as janelas da sinceridade abertas.
não saíste a voar pela varanda porque não tinhas asas.
what does it mean to say something? vieste com pés
de lã e um sorriso nos dentes. subitamente. feroz.

exigente

às vezes.
às vezes não me entende, acha que eu fui mau com ela e eu fui apenas tímido ou desastrado.
beijo-a no pescoço, no cabelo, ela enternece-me.
creio que estou mal habituado, que não percebi ainda que ela é frágil, insegura, sensível.
depois falámos.
ela responde: acho, mas não me faças mais perguntas, neste momento não te posso responder.
estás sempre insatisfeito, diz ela, não é fácil para mim lidar com a a tua insatisfação.
mas se começo a acariciar-lhe o rosto ela fecha os olhos, fica perturbada e foge das minhas mãos.
eu sou uma besta.
mas sei que vou esperar.
não acredito em mais nada.
não é isso que ela quer, ela só me pede paciência, que não acelere as coisas.
não entendo.
não estou habituado a esperar pacientemente pelo amor, por exemplo.
não me pressiones, neste momento estou deprimida e tu sabes isso.
não me resta mais nada.
não mereço tanto.
não paro de pensar nela mas ela está deprimida.
nem sempre.
os lábios dela são quentes e macios, gosto de a beijar.
pela primeira vez fui a casa dela.
pergunto-lhe: que lugar é que me vês ocupar na tua vida, achas que me podes amar?
por isso às vezes apetece-me fugir-lhe.
quando cheguei ela encostou a cabeça no meu peito, gostei.
que posso fazer?
sei, digo eu, mas tu excluis-me dos teus problemas, não recorres a mim nos momentos difíceis.
tu és demasiado exigente, diz ela.

pacto

entre as pessoas que se amam estabelece-se sem elas se darem conta disso um pacto secreto. demora, mas nunca falha. são coisas de que não se fala, invisíveis, inclassificáveis. cumplicidades. quem está de fora não entende. é por isso que a traição amorosa é insuportável.

Friday, May 11, 2007

Indecifrável 1 e 2

Indecifrável - 1

Nem tudo foi dito, mas basta,
não são precisas mais palavras.
No silêncio cai sobre nós a
realidade, com todo o seu peso,
o seu mistério; e não o queremos
decifrar, com palavras sobretudo
não o queremos explicar. O que
não foi dito pertence-nos como
o destino inconfessável, como os
ossos dos joelhos, as dores de
cabeça ao fim da tarde quando
sopra o vento rude que vem do
deserto. Todos os destinos são
exemplares e é impossível
amarrá-los. As palavras nascem
do medo ou do tédio, talvez
do horror ao vazio. À toa
queremos entrar no edifício do
sentido, a casa estranha. E
entramos. Mas todos os destinos
são apenas uma versão caseira
da insensatez da existência.
Calar-se não é morrer. Na
sepultura do silêncio esconde-se,

discreta, a dignidade.

Indecifrável - 2

Amarrá-las. As palavras nascem
na cabeça ao fim da tarde, quando
calar-se não é morrer. No silêncio
da insensatez da existência,
decifrar, com frases sobretudo,
o deserto. Todos os destinos são
medo ou abismo, tédio em que
entramos. Todos os destinos
serem exemplares é impossível.
O que não foi dito pertence-nos,
não o queremos explicar. Não
são precisas mais palavras.
Nem tudo foi explicado, mas basta.
No silêncio cai sobre nós o peso
do destino inconfessável com o
seu mistério; e não o queremos.
Os ossos dos joelhos, as facas
nos olhos, o horror ao vazio. À
toa queremos entrar no edifício
da realidade. Vociferando ou
berrando. Ressuscite-se a

letra legívelo
do sentido no
edifício estranho.
Rude, sopra
nas sepulturas o vento
que
vem de longe, negro, gelado.

Saturday, May 05, 2007

ataque

esse ataque traiçoeiro é o único que merece
a solidão daquele que falou daquele que
na tua vida e disseste que eu te interrompia
afastaste-te cheia de nuvens na cabeça sem
sorrir apenas literatura nada de importante
até amanhã obrigado pelo jantar depois
com quantos homens tinhas dormido
era importante eu saber o número como
se ela e o estilo cuidado fossem como viver
no corpo dos outros como convencer quem
nos governa da nossa fé é curioso como a ausência
de resposta daquele que usa as palavras as frases
daqueles que tinhas amado meu deus como
dar antes de abrires a porta do carro e saíres
dela e dele o espírito pode então reencontrar a
pensativa castigada triste sempre infeliz
abandonada na sua solidão disse o que não
devia ter dito quando foi do desentendimento
como se fosse preciso e ela diz noutra ocasião
e vês que ela não sorri está zangada então a
porta do carro abre-se ouves ela diz é sempre
a destruir o amor sempre a destruir-se a
destruir-nos é uma arte difícil a única arte
talvez entrar pela carne invisível do espírito
esqueci-me de dizer que no amor que resiste
está o erro fico perdido quando foi que eu
disse que a nossa ambição desregrada o faz
crescer até limites insuportáveis ah e depois
intrometer-me demasiado na tua vida obscura
a mais sincera vontade de amar e ser amado
meu deus como se fosse necessário ainda de
mim mesmo falar e não mostrava vontade de
conhecer o motivo para te calares ao meu lado
no carro nada para ser levado a sério vício vão
não havia razão para tanta inquietação nem há
razão para tanta ansiedade mas nem sequer
queria ouvir-te falar demasiado nós queríamos
beijar e abraçar o amor os beijos da despedida
aqueles que me devias os olhos no chão como
se fosse necessário e aquele que amamos morre
e enfim livres a paz interrompida de acordo
eu disse isso e perder passos e horas nos desvios
veredas quando tu começavas a falar de ti eu sugeri
que não que não havia razão para isso e o teu
rosto fechou-se deixei de merecer tu aquela que usa
as palavras como se elas não tivessem razão mas
também te expliquei que não queria realmente curioso
como bruscamente se afasta de nós magoada aquela
que não sei porque me perguntaste se eu queria saber
se seria considerado amor verdadeiro mas era seria
também disseste que eu falava sobretudo de nada
telefono-te e tu dizes não me dás um beijo tivessem
as palavras os suspiros o poder de como lâminas
tu complicas tudo e depois eu não sei onde refugiar-me
vergonha de mim porque sabia que tu tinhas aonde ir

p. s. - bom, a. l. , este é para ti

boring

a inclinação para o amor. nas mulheres
a inteligência, evidentemente.
a linguagem não permite verbalizar tudo.
a mim só a cumplicidade me afecta. a
paixão que sentem por nós. mais uma.
aborreço-me, já disse. acaba tudo no lixo,
não é verdade? acumulou-se o tédio e a
pressão. alguma coisa se perdeu no minucioso
processo. alguns filmes tiveram uma profunda
intenção amorosa. não foi enquanto a idolatrava,
juro. batem tão perto um do outro os corações.
dói-me a cabeça. cansa-me ter de telefonar.
como ser assimilado pela linguagem? como
viver sem a literatura? é criminoso. odeio
ter copos e pratos. há cura para os males
que nos afligem? palavreado. em silêncio, sim,
em silêncio. detesto fazer as malas, arrumar livros.
dissimulada, santa, escorraçada. não quero
mudar de casa, já disse. onde fica à espera

de sair o que não encontrou uma porta ou uma
janela? o tédio do passado. lê-se nos olhos das
pessoas. memórias que não me interessam. e no
sofá de coiro preto, lembras-te? é uma questão,
no entanto, de nos sentirmos mais ou menos
antecipadamente abandonados. entre nós
e quem nos ama não há nada a escolher. fica-se
só por acaso. estou farto. não se pode arriscar.
eu sempre escolhi a mulher que devia. forçosamente,
alguma coisa se deteriorou. garfos e facas. oiço
música se me apetecer. gosto de alguma pintura.
gosto de trabalhar. há uma semana que estou
constipado. ilusões, só ilusões. já não sei se
dependo do que me impede de pensar. a percepção
tem influência em mim. amam-nos, não nos veneram.
nunca a desprezei. desse modo, quero dizer.
dependo do futuro? das montanhas e dos rios?
não há solução. não tenho força para me abandonar.
ninguém ama ninguém. ninguém.
o amor é invisível.
o facto de vir a expirar o indizível,
transforma-o? o
peso da censura. o que é que me
fascina mais? o
telefone, ah o telefone, incessantemente.
onde
estaríamos neste momento se? os corações
a
amputar com uma faca. para cortarem a água, a

luz, o gás, sim, é isso. e para quê tanta canseira?
para quê ter
mesas, cadeiras, camas? para onde
vai o remorso?
pode dizer-se que temos saudades
do futuro?
pode quando muito adivinhar-se,
pressentir-se,
inventar-se. podia estar-me nas
tintas para tudo
o que me vai acontecendo. porque
é que me
incomodo a incomodar-me com tantas
perguntas?
porque é que não paro de fumar?
porque estou
sentado diante do computador a
escrever há
horas? porque não temos saudades
do futuro?
preciso de sair de casa. quando me
lembro
disso. há alguma coisa lá fora que se
possa
presenciar? estamos sós. reconstruction.
reconstruir sem parar. os buracos negros da
culpa. recordo algumas pessoas que foram
simpáticas comigo. no rosto pode sofrer-se
tudo isso. e nota-se. talvez. não a adorei sempre.
se eu não estivesse tão constipado. se eu não
fosse tímido, algumas hipóteses transformavam-se
em sucesso ou em fracasso. se eu soubesse, ah
se fosse possível. sei que sou amado. sem
terem, que eu saiba, razão particular para me
odiarem. ser feliz é ter falhado na vida, eu sei.
seria despropositado perceber o que se passa.
sim, sei e não sei tudo isso. só ela me conheceu,
penso eu de vez em quando. só me deixaram o
tédio como solução. a indiferença é enorme,
já se sabe. o que não se pode dizer. tantas
caixas de cartão para encher. tenho uma
pontaria afinada para escolher a mulher
que um dia deixará de me amar. todos os dias
penso no assunto. não é por falta de competência.
um amor inconfessável. e que nós temos de ignorar.
um dia. mas não me leva a desistir. uma catástrofe
abateu-se sobre a minha vida. veementemente,
ignorante ainda, espero pelo único acontecimento: o
amor. uma vez mais, a milésima. maldita gripe que. vou
cansar-me a pôr em ordem o que está desarrumado. whisky
em garrafas meias ou quase cheias. indícios e tanto pó.

Friday, May 04, 2007

bad boys

the boys i mean are not refined
they go with girls who buck and bite
they do not give a fuck for luck
they hump them thirteen times a night

one hangs a hat upon her tit
one carves a cross in her behind
they do not give a shit for wit
the boys i mean are not refined

they come with girls who bite and buck
who cannot read and cannot write
who laugh like they would fall apart
and masturbate with dynamite

the boys i mean are not refined
they cannot chat of that and this
they do not give a fart for art
they kill like you would take a piss

they speak whatever's on their mind
they do whatever's in their pants
the boys i mean are not refined
they shake the mountains when they dance


e. e. cummings

Thursday, May 03, 2007

Roda




A ausência daqueles que morreram dói-nos. Acende um cigarro, vai passando as páginas do álbum. A dor cura-se quando se desagregarem as diferentes partes do corpo de que ela se apossou, que ela invadiu, de que começou a fazer parte.

A maior parte das vezes basta-nos a memória. A paixão antiga é sempre nova, ocupa inteiramente o lugar do amor. A dor não tem remédio.

Acendeu um cigarro. A separação estava decretada, era inevitável. A única coisa que não muda nunca é a presença da mulher. Amou-a muito?

As fotografias que vão contando a história do grande amor deviam fazer-lhe entrever a parte escondida da sua existência. As pessoas morrem e nunca mais regressam. Apenas a magia da memória a torná-las presentes. A desaparecida não voltará.

Às vezes há outras pessoas e os lugares variam. Ela era afectuosa, atenta. Séria. Nunca mentia. O homem ilude-se. Diz que ela ia triste.

As pessoas não lhe podiam explicar que ela morrera. Chora quando a recorda, quando revê nas fotografias o seu rosto, o seu corpo. Diz que foi ele que a levou ao autocarro ao fim da tarde.

Atravessaram pontes, parques cheios de árvores. Bruscamente, sem explicação, uma árvore enorme caiu. De maneira inabalável como a sucessão das estações. Como contar a dor?

Convence-se de que ela está viva em qualquer lado. É ela, só ela, que ele ama.

De vez em quando revemos numa fotografia aquela ou aquele que morreu. Durante muito tempo o homem não percebeu nada. Ela era inocente, curiosa, alegre. Mas ele ignora que perdeu a mulher que amava muito antes desse episódio trágico.

Ela tirava fotografias às árvores do parque, aos patos. Imagina que se separou definitivamente dela à porta do autocarro. É possível. Muito provável.

Ele continuava a falar com ela. Era distraído e parecia não levar o amor muito a sério. Ele contaria a história da separação de outra maneira, com outros detalhes e de uma perspectiva diferente.

Dias que não terminavam nunca, dias negros, de uma dor inconsolável. Os amigos recebiam-no, visitavam-no. O homem, porém, confundia tudo. Ele não sabe se ela morreu ou se ainda está viva em lugar incerto.

Ele sabe que nunca mais há-de amar ninguém. Ele recorda-se disso. Em todas as fotografias.

Era o destino. Ele não entendia. Era injusto, não tinha sentido. Mas era assim, estava decidido. Estão ainda sentados no banco da avenida, à janela ou à porta da casa, à mesa, riem-se para nós. Imaginando-a viva, alegra-se-lhe o coração. Então é feliz, aceita o sacrifício, não a procura. Depende dos dias.

Ferir inutilmente um inocente? Não há choro nem soluços que tragam de volta os desaparecidos. Foi-se embora, nunca mais voltou. Lembra-se desse dia negro, nunca mais pôde esquecê-lo.

Às vezes chora a sua morte. Ele não sabe onde, mas ela está viva. Ia com ela visitar os amigos. Há uma mulher, sempre a mesma. Mas não tem importância. Aquela que morreu ou vive longe, num lugar desconhecido.

Não percebeu. Nenhum deles tinha força para sobreviver no meio da tempestade.

Não se pode contar. Não podia viver sem ela. Até se extinguir a consciência em que a sua marca de fogo se gravou para sempre. No momento da despedida nem ela nem ele falaram. O que é a dor? Não era dor.

Não tinham coragem de destruir a ilusão. De destruir o milagre da sua existência inacreditável. Nunca mais se consolou de a ter perdido. O amor velho renasce todos os dias mais novo.

Ninguém terá o poder de fazer renascer no seu coração o amor. Como obrigá-lo a voltar à realidade? No meio da apocalíptica desordem. O tempo passou. Não quer interromper a felicidade em que ela vive. Não poderia, mesmo que quisesse, já percebeu.

No seu delírio, para se proteger de uma dor maior, o homem imagina que ela apanhou um autocarro. Nós vemo-los, mas eles não estão lá. É tudo imaginação. Nunca há-de amar outra mulher.

O homem amou-a. O grande amor tinha durado apenas dois anos.

Tem os olhos vermelhos de tanto chorar, tem olheiras. O tronco da árvore esmagou-a.
Não há descanso.

Para não quebrar o encanto. Infelizmente não havia nada a fazer: a hora da partida, a hora da separação chegara. Não havia nada a dizer, pensa ele, porque nada podia ser modificado.

Para quê viver? Para a dor não há palavras, nem gemidos, nem gritos que consolem. Perdeu-a de vista. Omitida pela sua própria censura inconsciente.

Parou o carro no parque. Pode explicar-se? Por ora não está em condições de aceitar o que aconteceu. Recorda-se, mas não percebe.

Pode consolar-se, a dor, pode diminuir? Custa a habituar-se. Pode esquecer-se?

Quando se recorda, chora, deita a cabeça em cima da mesa. Rejuvenesce com a passagem dos dias e das noite. Quando se cansa de soluçar e levanta a cabeça da mesa só reencontra a solidão. Tirava-lhe fotografias a ele.

Sabe que será sempre assim. Sacrifica-se, não a procura. Refere-se a acontecimentos que se lhe varreram totalmente da consciência. Saía com ela de carro a passear nos domingos.
Se um deles ou os dois falassem, pensa ele, ameaçava-os uma dor insuportável. Se a memória não o traísse, se a memória dele não estivesse a protegê-lo de recordações mais dolorosas do que a da partida dela no autocarro.

Vê, olha as fotografias. Seguiu viagem para um destino desconhecido. Se não a tivesse ao seu lado a vida deixava de ser vida. Seria um abuso de confiança. Transformava-se num caos insuportável.

Sentaram-se na margem de um lago onde nadavam uns patos. Tão grande era o amor, tão cego. Soluça desesperadamente. Não era dor a sério, não era uma dor verdadeira.

Tem a pele por baixo dos olhos cheias de sulcos abertos pela água das lágrimas.

Um dia ela desapareceu da sua vida. Um homem está sentado em casa, pensativo, com um álbum de fotografias na frente, em cima da mesa.

Um dia foram passear de carro. Uma terrível tempestade, uma desordem para a qual não havia solução. Um amor novo. Vê as fotografias, mas não percebe.



P.S. Obrigado, João Pedro, pela sua mensagem.

Wednesday, May 02, 2007

Fantasia

Qualquer caneta, qualquer papel me serviam para me queixar. Os cometas luminosos que atravessam os céus escuros vão tão velozes pelo ar que nem se sabe se estiveram onde passaram. Assim era a imagem que me apetecia empregar para falar do teu desaparecimento. Mas não me restava ingenuidade literária suficiente para me pôr a falar como um pobre louco no meio da rua às cinco da tarde. Por isso calei-me e não sabia o que fazer. Acendi um cigarro, baixei a música da rádio, fiquei a meditar no meu passado e no meu futuro.

Tu tinhas-me feito companhia durante alguns meses. E nem sequer podia dizer que te conhecia. Uma história curiosa, não é?

Dos que julgamos amar ignoramos às vezes tudo. Mas podemos dizer-lhes as palavras que não se dizem a ninguém, falar do nosso amor como se ele tivesse existência real. Cansado, sonolento, apetecia-me abandonar e ir dormir.

No dia seguinte iniciaria nova etapa da minha existência. Iria à praia, esquecia-me a pouco e pouco do grande amor que tu me tinhas tido e que eu te dissera que sentia por ti.

Olha, sê feliz, na tua casa com vista para a praia ou as montanhas. E esquece-te definitivamente do amigo que te distraiu durante alguns meses, dessa última fantasia da tua adolescência.



Tuesday, May 01, 2007

Carta de amor ridícula

Tu escreveste “meu amor" mas eu não sei se conseguem penetrar no meu coração incrédulo as tuas palavras.

Falamos, é certo. Mas sabemos o que dizemos? Não posso afirmá-lo. Sei que me sento à noite na sala deserta a ouvir a música de Schumann, ela entra por mim serenamente, a sua força assegura-me da nossa necessidade de amor. Transparece a paixão e a meditação dos intervalos da música, da lentidão do ritmo; depois, violenta, manifesta-se como numa revolta. Nada de original: também eu conheço a hesitação, mas esqueço-me de perguntar, oiço e admiro; vou na corrente impetuosa do rio e seria insensato querer resistir-lhe.

O nosso amor e as palavras em que o dizemos são frágeis, parecem fúteis.

Não posso falar-te, nem ouvir-te, nem apertar-te contra mim. De que me serve escrever-te? Pensar em ti de que serve, realmente?

Queimou-nos uma noite, uma manhã, o fogo do amor, inesperadamente. Depois disso nunca mais soube o que sentir, o que pensar.

Casa-te, não hesites. Vai de branco, de vestido comprido à maneira antiga, não te esqueças de beijar o noivo com convicção. Respeita os teus avós, os pais, a tradição.

Esquece-me a mim, o amor é uma ilusão. Se quiseres telefona-me no dia do casamento, logo depois da cerimónia e do almoço, interrompe tudo e vem dizer-me que lamentas, sussurra-me que me amas e és ainda a minha menina querida, para sempre o serás.

Pareço cínico? As minhas sinceras desculpas. Eu na verdade entendo tudo, tudo, tudo.

Quem sabe, no entanto, se um dia deixo de entender?

De momento vou ouvindo a música de Schumann, ela é verdadeira como a morte e a loucura. De ti nada sei, nem onde estás agora. Dormes, imagino. Podes até sonhar comigo, é engraçado ter um amor clandestino a conferir à tua existência um ar de aventura, um calor particular, nascido não sei se da tua solidão e do medo, se da tua vontade de não renunciar ainda aos sonhos da adolescência. Já te disse que te podes casar, vai de vestido branco comprido.

A mim não me faz diferença, acho até piada eu estar a escrever este poema romântico, nos limites da telenovela da noite. Acho mesmo imensa piada eu ser uma das personagens dessa intriga tão pouco original. Mas nada me espanta já, juro-te, tudo me parece normal como os dias que passaram sem a gente dar por isso. Meu amor, ó palavras tolas.

Mas agora calo-me, palavras são palavras.

Beija-te o teu querido K., manda-te saudades.

Junho de 1993

o cruzeiro

meteram-nos num barco uma espécie de titanic monstruoso com andares como as casas e quando estávamos na sala no terceiro dia de viagem o oceano limpo e sereno o horizonte limpo até ao infinito o padreca começou a pregar é o que eles estão a sempre a fazer neste pais de aldrabões a dar lições de moral aos outros insuportável e o padreca nem sequer sabia do que estava a falar mas crê-se mais virtuoso mais sério mais honesto mais competente com obrigações de reformador ou não sei o que é que se crê mas dizia que temos de ser irmãos uns dos outros e fraternais tanto mais que até estamos a viajar no mesmo barco e ao fim de dois minutos de ouvir a lengalenga eu irritei-me e pedi-lhe que fosse mais rigoroso menos vago nas suas exortações à fraternidade eu queria exemplos de mau comportamento a que se pudessem aplicar essas regras com propriedade e proveito. ele irritou-se perdeu o fio à meda e depois perdeu o pio e ficou a cacarejar com a galinha choca que estava sentada ao seu lado entretanto o castelhano pediu a palavra e engasgou-se num discurso piedoso mais lições de moral mais regras mais parvoíces saídas das mentes destes atrasados mentais por fim a reunião acabou e fomos saindo da sacristia alguns dos religiosos a murmurar entre dentes a reunir-se em seguida quase clandestinamente à porta das celas para criticar para politicar país de atrasados mentais estão a ficar piores do que os soviéticos nunca fui à rússia mas lá devia ser assim leis para controlar tudo todos os gestos todas as ideias todos os comportamentos o padreca e o castelhano querem é mama querem é impor a lei deles apossar-se do poder e então começar a chatear os outros a partir da perspectiva que imaginam ter imposto na ordem religiosa na confraria académica comigo estão bem fodidos estou farto de vigarices de parvoíces de patetices e de ter de os ouvir dizer asneiras e de ter de suportar as decisões absurdas que toma gente sem qualquer sentido politico nem académico beatos estragaram-me mais um dia de sol inutilmente mas deixá-los falar sem os criticar está acima das minhas capacidades também tenho direito aos meus defeitos e à palavra como qualquer cidadão ou habitante deste país diabólico que se pretende democrático e detentor da verdade que arrogância países assim grandes de mais dá nisto armas a mais exércitos a mais guerras sempre no horizonte desvalorização da morte e glorificação do sacrifício e da honra e depois trafulhices a torto e a direito tudo feito com ar legal nojo dá nojo coisas opostas inconciliáveis.

eu até estava de boa vontade no cruzeiro tinha vindo esperançado mas ao vê-los ali todos juntos a proferir banalidades e orações antigas num tom piedoso que já não se usa fiquei mal disposto o cheiro do incenso também não ajudava é verdade e o barco às vezes balançava um pouco apesar de não haver grandes ondas no oceano arrependi-me de ter vindo é um facto devia ter ficado em casa a ler a instruir-me a olhar para as árvores do meu jardim a falar com os meus filhos mas agora tenho de gramar a semana inteira aqui fechado com esta gente e não tenho nada a ver com eles com a maior parte deles em todo o caso e não me apetece fazer alianças com ninguém nem criticar ninguém nem perder tempo a sorrir ou a murmurar que me deixem em paz quero lá saber dos problemas e das ambições mesquinhas destes tarados e fui para o meu quarto a minha cabine a minha cela de convento a ler tolstoi fiquei lá até à hora de jantar vieram bater-me à porta e pediram-me que subisse e eu lá fui subi ao encontro do rebanho manhoso da velhada hipócrita e beata.

no terceiro dia a louca caiu à água ou atirou-se lá do cimo foi um sarilho foi preciso mandar logo um barco salva-vidas e o navio o titanic abrandou o que pôde a louca gesticulava gritava lá a conseguiram salvar ela não dizia coisa com coisa os medicamentos que lhe deram deixaram-na ainda mais tonta do que ela já era os colegas tiveram pena da coitada e deram-lhe muitos beijinhos tiraram-lhe o vestido molhado e embrulharam-na em mantinhas quentes ela estava deliciada por ser o centro de todas as atenções e fazia beicinho dizia ingenuidades estudadas uma estopada e eu que é que estava ali a fazer no meio de gente com quem já não tinha nada a ver o organizador do cruzeiro estava furioso nunca mais dizia ele nunca mais me tragam doidas destas para uma viagem tão longa a mulher dá-me cabo dos nervos ao jantar nunca se cala sabe tudo acerca de tudo especializou-se em todas as disciplinas é uma infeliz coitada às vezes dá-me pena mas por outro lado é uma bruxa insuportável e agora ainda por cima atira-se ao mar só para me aborrecer a mim claro despesas suplementares além do mais que chatice nunca mais nunca mais ouviram bem e desandou a vociferar ainda pelo corredor e subiu as escadas que levavam ao salão do andar de cima.

quando o barco fez escala numa ilha perdida de que nem fixei o nome aquela maltinha saiu toda aos saltinhos iam às compras iam visitar tirar fotografias que maravilha cenário novo novas experiências espirituais a congregação aperfeiçoava os seus conhecimentos os seus métodos as suas práticas estarmos juntos todo esse tempo dava esse resultado só que eu não me sentia nada membro da confraria e cada vez menos me interessava o que eles diziam e pensavam e queriam decidir para o futuro eles os futuros mandarins exercitavam-se na maneira de tomar o poder e inventavam todas as artimanhas para fazer crer provavelmente para que eles próprios acreditassem no futuro tal como eles o viam e estavam a querer preparar. o catelhano e o padreca conversavam muito um com ares episcopais o outro de ombros encolhidos quase sem pescoço parecia que estava a recitar ladainhas mas andavam de um lado para o outro com ar de iluminados e lançavam sobre mim e mais dois ou três hereges olhares de desconfiança de incredulidade de raiva de desprezo puta que os pariu. também saí do barco e fui visitar a ilha encontrei uma esplanada à beira do mar e fiquei lá sentado a ouvir o rumor das águas a beber cerveja a fumar a escrever cartas a ler gogol. ninguém me veio aborrecer os outros deviam ter encontrado alguma igreja e estavam lá a rezar fervorosamente para que o futuro se construísse como eles o imaginavam e o queriam. imbecis, idiotas, beatos, hipócritas, pensava eu enquanto ia fumando.

durante o resto da viagem não jantei com eles não falei com eles passei o tempo a ler e a apanhar sol em tronco nu deitado na madeira ao lado da piscina do barco. ignorei-os e eles ignoraram-me embora de vez em quando eu me apercebesse de cochichos de bocas de lado, de mãos a tapar a saída das palavras, de olhares vesgos. e quando chegámos a primeira coisa que fiz foi escrever uma carta ao presidente da confraria livresca a anunciar-lhe que tinha decidido retirar-me, ir-me embora, deixá-los em paz nas suas tarefas minuciosas nas suas meditações religiosas. e quando me apanhei no avião de regresso finalmente a casa tinha rejuvenescido dez anos pelo menos.