Sunday, April 29, 2007

dizemos tanta coisa

nem me recordo do titulo que dei a este texto, que está lá para trás no blogue. tenho um amigo que é um engraçadinho. é admirador doentio do david lynch, de davidson, de wittgenstein, do rorty. diz que o melhor filme que já viu é um filme intitulado safe - uma estopada sobre a américa que eu nunca suportei. é incapaz de admitir que gosta do camilo e do eça mas escreve sobre eles artigos que aqueles que gostam deles nunca escreveram. tinha-lhe dado o meu texto a ler e ele disse-me que tinha gostado. mas no dia seguinte devolveu-mo e eu não o reconheci imediatamente. percebi porquê: todas as minhas frases tinham sido postas por ordem alfabética. não fiquei confuso porque já sabia há algum tempo que com as palavras e com as frases não se brinca. podemos trocá-las, misturá-las ao acaso, escrevê-las sem querer dizer nada, ser adeptos da escrita automática, mentir com elas: elas não se importam, riem-se de nós e acabam sempre por ter sentido.


dizemos tanta coisa.
- que tinha acontecido alguma coisa.
a complexidade e riqueza das coisas simples ultrapassa de facto a nossa imaginação.
a conclusão a que cheguei - que amá-la e conquistar o amor dela é a melhor solução para as nossas relações e para a minha vida em geral - surgiu depois de eu ter examinado a questão com seriedade?
a conversa deixou-me bem disposto, tranquilo.
a ideia, uma ideia antiga difícil de pôr em prática, era simples: viver a sós comigo mesmo, tentar perceber, antes de me ir de vez da vida, o que é que em mim vive.
a letra não era a da dona do bloco.
a moral deles é vaga.
a novidade do lugar interessou-me vagamente.
a outra: incontinent action always favours the beastly, selfish passion over the call of duty and morality.
a rapariga a quem alugaste a casa esqueceu-se cá do bloco, não há mistério nenhum.
a rede de arame farpado invisível dos receios impedia qualquer aproximação.
a resposta não se escondeu: claro que amar é perigoso, tudo pode acontecer.
acho que a amo.
acho que vivem na selva e atolados no terror.
acho-os inflexíveis como máquinas que foram programadas para executar certas tarefas e nunca serão capaz de executar outras.
acho-os oportunistas, incapazes de distinguir o bem do mal, escravos do código civil.
ainda assim fui apanhado desprevenido e acabei por sofrer.
alguém desenhara na mesma página uns gatafunhos de bonecos como as crianças os desenham.
amar e ser amado tornou-se uma coisa perigosa para mim?
amei, mas com cuidado.
apetece-te esquecer tudo, voltar à piscina e à paz dos teus livros de filosofia.
basta de especulação.
basta de palavreado.
chegado aqui, olhando para mim de fora, emperrei.
comecei a preparar-me para partir.
como não gosto de perder o meu tempo inutilmente, depois de ler davidson pergunto-me: neste preciso momento, quando admito vir a amar uma mulher que conheci há alguns meses, estou a agir tendo reflectido o suficiente?
como pude resistir tanto tempo?
creio que é desse desastre fatal que estou ainda, por hábito, a querer proteger-me.
creio que preparar-se para morrer exige tempo, tranquilidade.
davidson refere que há duas maneiras de olhar para ele.
deduzi que o bloco pertencera a uma mulher activa sexualmente, pelo menos em teoria.
deixando de falar e de ouvir talvez me esquecesse de pensar e começasse apenas a sentir.
deixa-te de tolices, don't be silly.
depois fazes um bom jantar ou vais jantar fora.
depois lês os teus livros de filosofia.
depois vais deitar-te, dormes bem.
depois vem o arrependimento.
depois, bem cedo, comecei a aborrecer-me.
desapareciam as barreiras, as distâncias.
desse vício ou defeito original da lei nasce a tentação permanente da mentira, do salve-se quem puder, do deixa ver que já te digo.
devia devolver-lhe o bloco, provavelmente.
devia haver alternativas mas não as vi.
é a esse destino que aspiro?
e com a viagem a itália?
e com o endereço de londres?
e com tudo o resto?
é daí que derivam a corrupção, a hipocrisia, a mentira.
é dessa maneira que a minha revolta se vingará da pequenez da vida?
e indicação de que convinha inscrever-se num curso de russo para disfarçar e aprender italiano para preparar a viagem a itália.
e o medo, claro.
é por isso que tens medo.
e porque é que é que não há-de tudo correr bem?
é possível, não sabes bem.
é receio de um excesso de emoção.
e silêncio.
ela diz que não.
ela diz: ainda não.
ela telefona-te do hospital mais tarde, entre duas urgências.
ela voltou a rir-se.
em que ponto da sua investigação estará agora?
encontrámo-nos quando lhe dei a chave e quando ela me a devolveu.
encontraste um tipo melhor do que eu?
enviei-lhe uma mensagem: paro no meio da garrafa ou vou até ao fim?
era essa a ideia.
era uma mulher interessante, aparentemente amável e discreta.
eram sete horas, interrompi os meus devaneios.
escapa-nos qualquer coisa.
escolhemos o que nos parece pior sabendo o que estamos a fazer, então?
esqueceste-te de mim?
estas questões interessam-me.
eu já tinha bastante em que pensar.
eu não sabia o quê.
eu sei que neste momento estás cheia de trabalho, mas deixas-me sozinho tempo de mais.
exactamente nesse momento o meu telemóvel tocou.
ficas tranquilo.
fico baralhado por momentos.
fiquei a pensar, a fazer contas, a tentar perceber.
fiquei irritado: por que diabo viera este bloco absurdo intrometer-se de repente na minha vida?
foi por decisão, com lucidez, que me pus a correr riscos?
fosse o que fosse que tinha acontecido, só mais tarde se poderia saber o que era.
fui-me habituando a viver insatisfeito.
hmmmmm.
ia lendo e pensando em casos que eu próprio classificaria como consequência de fraqueza da vontade.
imagine-se, no entanto, que eu me tinha abandonado completamente, que a minha ironia tinha desaparecido, que eu me tinha posto a acreditar a sério no que me estava a acontecer.
imagino que as informações que ela lá deixou perderam toda a utilidade e interesse.
infelizmente aqueles que ditam e fazem respeitar a lei não são de confiança.
já expliquei as minhas dúvidas, os meus temores.
lembro-me do meu amigo compositor que andava a decompor o dó nas suas partículas.
mais misteriosas ainda eram as iniciais em maiúsculas escritas noutra página: GSM, GPRS.
mais tarde pus-me a arrumar papéis que andavam dispersos por aqui, em cima das mesas ou em sacos de papel.
mas como entrar em contacto com elas?
mas como estava para me ir embora, apeteceu-me insistir, tentar aproximar-me.
mas decidi fazer um último esforço, verificar pela última vez que tinha razão, que esta terra não é a minha, que nada tenho a ver com a humanidade desta gente.
mas depois recuperas.
mas em vez de te atormentares com o que já não tem solução pensa no futuro que espera por ti.
mas hoje cheguei a casa e abri uma garrafa de vinho, comecei a beber.
mas não tenho o endereço dela.
mas o amor teria só por si o poder de me destruir, por exemplo, de me fazer percorrer intensamente, apaixonadamente, dolorosamente - em êxtase, sem querer voltar para trás - a distância que me separa da minha morte?
mas o que leste no bloco que alguém deixou em tua casa continua a dar-te que pensar.
mas pela primeira vez pensei: já viveste bastante, já conheceste muitas coisas, arrisca-te a amar pondo em perigo a tua vida.
mas tenho dormido bem, o meu espírito está tranquilo, nenhuma dor me atormenta.
mesmo falando a língua que nós falamos, alguém vindo de outro planeta teria dificuldade em perceber as teias de aranha do sentido sobre as quais repousa a nossa identidade.
mesmo sendo cuidadoso, acabei por me envolver demasiado na relação onde em princípio apenas uma parte de mim estava presente.
muitas vezes, diz o filósofo citando austin, ao desrespeitar o que entendíamos ser a melhor solução nós agimos com calma e sem estar a ceder minimamente a qualquer tentação.
não a ouviste ontem repetir que não se esquece de ti?
não aqui, esta terra não é a minha, não tenho nada a ver com os projectos desta gente.
não conseguia acalmar-me, pus-me a ler um livro de filosofia.
não digo que tanto se me dá que tu fiques ou que te vás embora.
não é medo de falhar sexualmente, nada disso.
não era meu, como veio aqui parar?
não estiveste já metido noutras?
não há razão para preocupações.
não ia sobretudo imaginar ingenuamente que me estava a apaixonar, que ia amar e ser amado.
não me arrependo de nada.
não os entendo.
não quero errar, não quero enganar-me a mim mesmo.
não quero, depois de ter falado, sentir remorsos e renegar o que disse.
não sei ou não quero responder.
não sei, só posso sabê-lo quando chegar o momento de o saber.
não te dás conta de que me fazes falta, disse eu.
não vou recuar, evidentemente.
no meio desta barafunda eu via pessoas que me pareciam inocentes, que punham em causa as minhas conclusões pessimistas.
noutra página havia anotações sobre as datas em que lhe vinha o período, iam de janeiro a julho de não sei que ano.
noutro continente, de onde vim, era aí que pensava em refugiar-me.
numa gaveta encontrei um bloco pequenino com informações enigmáticas.
numa página onde também estava escrito com letra infantil a hug lia-se o endereço de uma casa em rivulet road, em londres.
nunca mais pensei nela.
nunca me embebedo, minha querida.
nunca pensei que se pudesse fazer tal coisa.
o amor, é disso que estou a falar?
o bloco devia ter sido deixado cá em casa por uma pessoa a quem eu a alugara por três meses, durante o verão, havia dois ou tês anos.
o desastre teria sido fatal.
o encontro assusta-te.
o problema é complexo.
o que acabaste de descobrir tem muito sentido e tu sabes isso.
o que é que me aconteceu que não posso imaginar o amor sem estremecer?
o que é que me aconteceu que perdi a capacidade de falar?
o que é que me aconteceu que tornou o silêncio indecifrável?
o que é que tu tens a ver com o GSM e com o GPRS?
o que eu percebi, porém, já não vinha a propósito de nada.
o que queremos e o que não queremos.
o que significa que só pode acreditar entender-nos quem joga o mesmo jogo que nós.
o respeito e o medo da lei é que os educa, lhes molda a personalidade.
obrigam-me a reflectir e a descortinar por detrás da aparente simplicidade do nosso comportamento potencialidades imprevistas, sentidos desconhecidos.
ou lamentamos não ter ido mais longe, depende.
ou pelo menos atingiria um estado em que pensar e sentir se confundiriam.
paciência.
para disfarçar o quê?
para me esquecer de ti vou nadar todas as noites.
pensando no meu retiro, imaginando a minha solidão, não tinha ilusões sobre as alegrias ou prazeres que a vida pudesse ainda dar-me.
pensei bastante, hesitei, admiti recuar.
pensei nessa possibilidade, mas recusei-a imediatamente.
perguntou-me: estás com os copos?
permanentemente.
pode ser.
pois, nada te diz respeito, já disseste isso, não é necessário repetir-te.
pois.
pois.
porque diabo me veio à cabeça uma vez mais o risco, a ideia do risco, o medo do risco?
porque sou fraco?
porquê?
quando antevês o momento em que pela primeira vez te vais deitar na mesma cama com ela entras em pânico.
quando aqui cheguei não conhecia ninguém.
quando nos encontrámos para falar, senti - ou quis sentir?
quando olhei para ti com atenção e interesse dei-me logo conta da rede de arame farpado que te protegia da invasão vinda do exterior.
que dizer sobre ti?
que encontraria no fundo de mim mesmo, na zona da maior obscuridade, lugar de que não sei nada?
queixando-me, mas não fazendo nada para melhorar a situação.
queixei-me.
quem sou eu ou o que é esse ser, isso, não sei o quê, de cuja existência me apercebo, que sempre se confundiu com aquilo a que me refiro quando digo eu?
queria esconder-me em qualquer lado.
respondi: eu?
ri-se.
se achares que ela o merece, ama-a.
se acreditares que ela te ama, abandona-te à paixão.
se alguma coisa correr mal, não há-de ser por falta de coragem da minha parte.
se as coisas simplesmente acontecessem, já tivessem acontecido, não seria tudo mais natural, mais simples?
se ela deixar de te amar ou tu descobrires que te enganaste, não te oponhas à dor.
se queria viver, tinha de correr alguns riscos.
sempre me protegi do perigo das paixões.
só a lei os intimida.
só sabes que a intimidade com essa mulher te assusta.
sou uma pessoa solitária.
talvez.
também havia, escrita à mão, uma receita para fazer um bolo.
também já disse claramente que não estou preocupado.
tenho adiado o momento em que começarei a construir o teu retrato porque nunca me senti tão inseguro.
tenho medo de começar.
tenho muito em que pensar.
tenho suportado tudo porque sempre tive um alto sentido do dever.
tentei tantas vezes, nunca consegui.
tratou-me bem.
tu não tens, mas sabes quem tem.
um artigo sobre a fraqueza da vontade.
uma: desire distracts us from the good, or forces us to the bad.
vá, não inventes histórias, não mintas a ti próprio.
vai nadar, disciplina-te, disse-me em voz alta.
venceu o desejo de persistir na tentativa.
via-se que pertencera a uma pessoa hipocondríaca e obsessiva, estava cheio de notas sobre sintomas de doenças graves.
voltei a pôr o bloco na gaveta onde o encontrara.
vou aguardando, sabendo que não é impossível estar a aguardar qualquer coisa que nunca acontecerá.

a cabeça

1
pode viver-se sem um braço, sem uma perna. mas sem cabeça ninguém vive. a cabeça é uma parte do corpo preciosa. sem braços não podia escrever o que estou a escrever. mas sem cabeça eu nem existia nem existia nada.

2
de que é que adianta a alguém o que estou a dizer? nada. qualquer pessoa com braços e que saiba escrever pode escrever o que eu escrevi. nada de inteligente. uma banalidade. mas sem cabeça? sem cabeça não há interlocutores. pode haver dois corpos mas se não têm cabeça estão mortos não podem falar.

3
um pelotão de ciclistas pedala na estrada. à cabeça do pelotão vai louison bobet. mas se o louison bobet não for à cabeça do pelotão isso não significa que o pelotão fique sem cabeça e morra. porque o louison bobet não é a cabeça do pelotão. ninguém pode ser a cabeça do pelotão. qualquer ciclista pode estar à cabeça do pelotão e se não houver cabeça de pelotão isso significa simplesmente que não há pelotão. porque um pelotão tem forçosamente de ter cabeça.

mudo de passeio

bom não quero generalizar mas quando vou na rua e vejo vir ao longe um professor mudo logo de passeio não tenho paciência essa gente professores advogados escritores actores artistas jornalistas especialistas tem um ego do tamanho da torre eifell estão habituados a ser ouvidos a falar sozinhos e depois decobrem coisas novas todos os dias ou então estão deprimidos porque não descobriram nada têm ideias teorias perspectivas pontos de vista com uma regularidade enfadonha já não estou para os aturar já percebi que uma coisa é a sabedoria a ciência necessária para viver a gente vai aprendendo à custa própria e com os outros evidentemente com os livros e com as pessoas reais que temos a sorte de conhecer e outra coisa é toda essa avalanche de teorias académicas produzidas por gente de inteligência mediana que não tem a capacidade de estar calada por isso mudo logo de passeio e também não leio os jornais dou uma vista de olhos e é tudo enfim às vezes leio uma coisa ou outra no meio de tanta confusão ainda há pessoas que sabem distinguir o que interessa do que é pura verborreia e mania do espectáculo e não digo que tenho razão nem que estou a ser justo nem que têm de pensar como eu cada um que pense como quiser eu é que já não tenho energia nem tempo para mais por isso escolho recuso hesito prefiro refugiar-me numa certa solidão os livros são boa companhia há muito a aprender felizmente que é assim mas se a gente não escolhe se a gente não vai encontrando o seu caminho e separando o trigo do joio a vida transforma-se numa espécie de comédia ou tragédia meio literária e de segunda ou quinta ordem é a isso que quero fugir não sei se consigo mas pelo menos faço alguma coisa por isso

Monday, April 23, 2007

anastásia

que engraçado chama-se diz ela anastásia e
escreve-me mensagens a dizer que apesar das
diferenças culturais que nos separam devíamos

acreditar no amor visto que a atracção inicial
que nos projectou um para o outro não foi puro
acaso ultimamente no entanto parece ter deixado

de exercer-se com a mesma convicção o magnetismo
diminuiu mas a relação a nossa merece certamente
que a tenhamos em consideração e a melhoremos

eu fico perplexo como pode esta rapariga ter uma
percepção tão acertada das nossas relações na
verdade eu nem sei quem ela é não a conheço

de lado nenhum creio que me escreve de um país
do leste onde certamente sufoca e se aborrece
e tem dificuldade em imaginar o futuro por isso

quer fugir para sempre a fim de integrar-se na
sociedade liberal capitalista onde todos os prazeres
imagina ela com uma fé religiosa estão ao alcance do

nosso espírito do nosso corpo da nossa carteira do
nosso desejo diz ela que não devíamos nós os dois
renunciar apesar das dificuldades do aparente ou real

enfraquecimento momentâneo dos sentimentos
que nos aproximaram e nos ligam não devíamos
diz ela renunciar a acreditar temos obrigação de

fazer um esforço de construir o nosso destino é
espantoso ela é espantosa é loira tem tranças e
olhos azuis não é nada feia antes pelo contrário

e não lhe faz diferença pelos vistos ter uns quinze
centímetros a mais do que eu nem muito menos
anos em cima dos ombros são pormenores sem

grande importância evidentemente o amor não
pode depender desses detalhes insignificantes
o que conta é a comunicação espiritual dos corpos

ela tem vinte anos e para ser sincero não me
desperta interesse nenhum em particular as
cartas calorosas que ela me escreve devem ser

enviadas ao mesmo tempo a cinco mil anónimos
através da internet e apesar destas circunstâncias
da confusão dos discursos sem sujeito e na verdade

sem destinatário verdadeiro que seja uma pessoa real
identificada individualizada apesar dos sentimentos que
ninguém em particular sente ainda haverá quem me

critique por eu não dar às vezes muitas vezes grande
valor às palavras e por duvidar do amor eu nem às
mensagens das pessoas que me conhecem respondo já

a maior parte das vezes embora algumas me sejam enviadas
por amigos verdadeiros que não estão a solicitar a minha
admiração nem a minha atenção amigos que são puros

desinteressados na amizade pobre bela anastásia
que estás a perder o tempo comigo inutilmente eu na
verdade sinto-me tão só como tu se é que tu te sentes

só não sei aliás nem foste tu quem escreveu a carta bem
escrita quase íntima tão sincera tão convincente como se
me tivesse sido enviada por uma mulher que de facto me

conhecesse me amasse a sério e estivesse disposta a lutar
pelo meu amor e estivesse preocupada com o esfriamento
dos nossos sentimentos anastásia a tua voz é como a voz

consoladora e misteriosa de deus que nos
chega
de lado nenhum ou do deserto do nada do vazio

e no entanto suscita em nós a vontade de acreditar

ah a esperança o delírio optimista eu devia responder-te
pôr-te em contacto com algumas raparigas que imaginaram
que podiam amar-me e depois se desenganaram talvez

então tirasses de vez o meu endereço de email da tua lista
em todo o caso e admitindo a possibilidade de estares
atenta aos meus gestos palavras ao meu destino quero

que saibas que entendo a tua juvenil vontade de transformar
a tua existência e a minha espero que alguém te responda
que não envelheças nem morras sem ter visto o teu sonho

realizar-se e oxalá te seja poupado também o desengano
a desilusão que sucede à realização de todos os projectos
oxalá nunca descubras que por detrás de tudo não há nada

Saturday, April 21, 2007

out of reach

quando eu falava contigo pensando ou nem
pensando que estava a falar com ela com a outra
aquela de que não sei ainda às vezes que fazer

mas não fazia diferença os rostos a personalidade
os corpos confundiam-se as mulheres que eu
amara ocupavam sempre o mesmo lugar os

gestos as expressões os olhos confundiam-se
no meu espírito confusões de identidade muito
curiosas vinha a dar no mesmo quer fosse uma

ou a outra o que contava era a minha obsessão
a minha vida ultimamente se eu não estivesse
tão interessado em aprofundar se não tivesse

a mania que sou inteligente a minha existência
dizia eu seria mais modesta aparentemente mas
muito mais tranquila para além das máscaras porém

esconde-se a aparência da verdade e a mim só a
verdade me interessava sempre foi assim uma
obsessão desfeito o equívoco esclarecidas as

dúvidas eu podia finalmente começar a amar
ou a torturar-me com a impossibilidade do amor
ou com a imperfeição dos sentimentos ou com

não sei o quê é o meu destino se eu fosse cego
não via se eu fosse mudo não falava se eu fosse
surdo não ouvia mas além disso a minha cabeça

não pára de funcionar nunca pára de trabalhar
a mentira raramente me escapa mas antes de a
poder denunciar eu sentia-a com uma nitidez

surpreendente terá sido a minha boa educação
ou a cautela o respeito excessivo mal usado
a impedir-me de gritar imediatamente o meu

descontentamento a minha náusea e agora
anos depois nem sei quantos é que me revolto
por não me ter zangado e ido embora enquanto

era tempo tudo se paga e depois fica mais caro
qualquer puta encontrada num bar de lisboa ficaria
muito mais barata e pelo menos não havia equivoco

nos sentimentos uma vez que em princípio estariam
ausentes o que não deve ser bem verdade mas enfim
isto não é um poema filosófico não compliquemos as

coisas lembro-me do sorriso com que entraste em casa
para me fazeres acreditar que eras excessivamente fiel
e sobe-me do peito ou desce-me da cabeça uma amarga

raiva tu nem imaginas tu nem tens ideia qualquer puta
faria o que tu fazias me atraiçoaria com o mesmo sangue
frio só que tu não eras uma puta exactamente e por isso

foste destruindo tu também com autorização minha
a ideia do amor que me fazia andar de um lado para o
outro os sentimentos terão alguma justificação algum

sentido alguma importância que se foda perdi tempo
com parvoíces distraí-me daquilo que imagino
ingenuamente que é a vida propriamente dita fui

vítima das minhas paixões exacerbadas imbecil
pobre de espírito meu deus e neste preciso momento
estou pesaroso hesito não sei o que fazer ela aquela

de quem mal posso falar disse tira-me daqui eu sozinha
não consigo corrigir o meu destino já não consigo talvez
tu possas tirar-me desta prisão e disse não sei se quero

realmente ou se posso mas talvez seja possível tu olhas
para mim eu vejo o teu olhar e acredito que tu poderias
com as tuas mãos puxar-me tirar-me deste inferno deste

rio que me arrasta na sua corrente eu estou pesaroso não
sei que fazer será que eu podia realmente terei tanto poder
sem o saber a questão é complicada as pessoas são arcas

cheias de segredos do passado recordações feridas na
alma que nunca cicatrizam e talvez não tenham cura se
ela confiasse em mim me contasse a verdade que lhe for

possível sobre si própria talvez eu lhe perdoasse mesmo

os pecados mais graves isto no caso de os haver de ela os
ter cometido mas ela tem medo já percebi está aterrorizada

nem sei se tem amigos ou apenas quem a faça sofrer quem
a escravize quem a explore só desconfiei disso recentemente
agora nem sei onde ela está nem sei se ela alguma vez me

me mentiu ou se decidiu apenas calar-se insegura receosa
sem saber como é que eu reagiria os sentimentos meu deus
que sabemos nós dos sentimentos dos outros se nem dos

nossos não posso saber nunca saberei provavelmente mas
eu não lhe disse que podia contar comigo incondicionalmente
claro que disse pelos vistos não bastou as minhas noites de

novo são aborrecidas não tenho imaginação nenhuma para as
transformar o tempo vai passando e eu ainda por cima estou
indeciso um pouco magoado também pela incompreensão

cheguei a pensar que ela poderia vir a ser o grande o último
amor da minha vida o mais difícil aquele que exigiria
mais
de mim agora que finalmente entendi e estou preparado


para ser amado e amar eu sei bem sei estou farto de pensar
sem consequências para mim nem para ninguém seria melhor
calar-me
aguardar esperar logo se vê de qualquer modo o

carrossel dos dias desfila a uma velocidade estonteante eu
devia descer em andamento sentar-me à beira de um rio à
sombra de uns salgueiros a ouvir cantar os rouxinóis mas

imaginá-lo não basta é preciso agir mexer as pernas ficar
fora do alcance de todos os desejos longe infinitamente
das mãos que poderiam estender-se para me tocarem eu

talvez aprendesse a vida de uma perspectiva diferente
talvez a lentidão fosse benéfica para o meu espírito e
para o meu corpo mas a existência terá remédio não sei

Friday, April 20, 2007

Great Value

WE were having coffee that afternoon when she told me that I was “great value”. It was supposed to be a compliment. Here is what I felt after hearing her refer to me as “great value”:

1. I am a car
2. or maybe a watch
3. or maybe a necklace
4. or maybe a two weeks vacation in Hawaii
5. or maybe a house in santa barbara downtown
6. or maybe a cow
7. or maybe a boat
8. or maybe a specialist in weapons capable of destroying everything everywhere

Was she aware, when she refered to me as "great value", that at her eyes I was just some kind of merchandise that could be soon or later put on sale? I'm sure she was. But why did it take me so long to understand it?

Thursday, April 19, 2007

Lyn Hejinian: From Slowly

I frequently slowly wish for more of the sudden experience
But it might be that I'll be surprised at myself by myself,
i.e., abruptly dismayed
An impulse is something of a summation
An impulse is not a sudden nor an arbitrary act
I can't help but choose
In my jealousy I may take hold of the world through you
and that doesn't bring me any conveniences
But it brings together a large but not infinite
accumulation of temporary panoramas
Shown light I could swing around a camera and never
hide an "original choice"


Subjectivity even if not of the curling sky is my
duration
All day subjectivity is an endurance awating objects
for a minute digressing
And it hopes for objects eager and unbaffled in spaces
somewhere near eye level to greet it with comprehension
during its waking hours
Everyone knows that in the dream called "Will My Sprit
Live On When I'm Dead" as in the dream called "Will I
Be Fired" and the dream called "Do You Only Pretend To
Love Me" there are no objects
In the dream called "One Who Is Poor Passes By Inch By
Inch" there is no object
Subjectivity at night must last hours with nothing to
judge but itself
The walls of the hemispheres face and this produces life
to closed admiring eyes


We regularly anticipate this moment at around this hour
underway gradually
Images are emitted which through fear I might gradually
miss wincing and blinking piecemeal bit by bit
Yet I know that now the day is running well and
paralleling yesterday inch by inch
But we'll never get to tomorrow this way
It is under other terms
The fists at the end of the hands strike already
Slowly there are bends in the bank to what happens
Between the two shores down comes a sound track
We get music which is time moving loudly


Lyn Hejinian, from Slowly

A dor

As pessoas morrem e nunca mais voltam. Perdemo-las de vista. Custa a habituar-se. De vez em quando revemos numa fotografia aquela ou aquele que morreu. A maior parte das vezes basta-nos a memória. A ausência daqueles que morreram dói-nos. Para essa dor não há palavras, nem gemidos, nem gritos que consolem. Não há choro nem soluços que tragam de volta os desaparecidos. Eles estão ainda sentados no banco da avenida, à janela ou à porta da casa, à mesa, riem-se para nós. Nós vemo-los, mas eles não estão lá, é tudo imaginação, é apenas a magia da memória a torná-los presentes.

Um homem está sentado em casa, pensativo, com um álbum de fotografias na frente, em cima da mesa. Acende um cigarro, vai passando as páginas do álbum. Há uma mulher, sempre a mesma, em todas as fotografias. Às vezes há outras pessoas e os lugares variam. A única coisa que não muda nunca é a presença da mulher. O homem amou-a. Amou-a muito. E nunca mais se consolou de a ter perdido. E chora ainda quando a recorda, quando revê nas fotografias o seu rosto, o seu corpo. O homem tem os olhos vermelhos de tanto chorar, tem olheiras, tem a pele por baixo dos olhos cheias de sulcos abertos pela água das lágrimas.

Às vezes o homem ilude-se, convence-se de que ela está viva em qualquer lado. Ele não sabe onde, mas ela está viva. E ele sacrifica-se, não a procura para não destruir o milagre da sua existência inacreditável. Um dia ela desapareceu da sua vida, foi-se embora, nunca mais voltou. No seu delírio, para se proteger de uma dor maior, o homem imagina que ela apanhou um autocarro e seguiu viagem para um destino desconhecido. Chega a dizer que foi ele que a levou ao autocarro ao fim da tarde. Chega a dizer que ela ia triste mas que infelizmente não havia nada a fazer: a hora da partida, a hora da separação chegara. Era injusto, não tinha sentido, mas era assim, estava decidido, era o destino. Ele lembra-se desse dia negro, nunca mais pôde esquecê-lo. E quando o recorda em pormenor chora, deita a cabeça em cima da mesa e soluça desesperadamente. Mas a desaparecida não volta. E ele, quando se cansa de soluçar e levanta a cabeça da mesa, só reencontra a sua solidão. Para quê viver? Ele sabe que nunca mais há-de amar ninguém. Ela morreu ou vive longe, num lugar desconhecido. Mas não tem importância porque é ela, só ela, que ele ama. Ele sabe que será sempre assim. Ninguém terá o poder de fazer renascer no seu coração o amor, um amor novo. Nunca há-de amar outra mulher. Não poderia, mesmo que quisesse, já percebeu. A paixão antiga é sempre nova e ocupa inteiramente o lugar do amor. O amor velho renasce todos os dias mais novo, rejuvenesce com a passagem dos dias e das noites, afirma-se de maneira inabalável com a sucessão das estações.

O homem, porém, não sabe que confunde tudo. Não sabe que perdeu a mulher que amava muito antes desse episódio trágico em que imagina que se separou definitivamente dela à porta do autocarro. No momento da despedida nem ela nem ele falaram, ele recorda-se disso. Já não havia nada a dizer, pensa ele, porque nada podia ser modificado, a separação estava decretada, era inevitável. Se um deles ou os dois falassem, pensa ele, ameaçava-os uma dor insuportável, ameaçava-os uma terrível tempestade, uma desordem para a qual não havia nesse momento solução. Nenhum deles tinha nesse momento força para sobreviver no meio da tempestade, no meio da apocalíptica desordem. É possível. Mas se a memória dele não o traísse, se a memória dele não estivesse a protegê-lo de recordações mais dolorosas do que a da partida dela no autocarro, ele contaria a história da separação de outra maneira, com outros detalhes e de uma perspectiva diferente, referindo-se a acontecimentos que se lhe varreram totalmente da consciência. As fotografias que vão contando ao longo dos anos a história desse grande amor deviam fazer-lhe entrever essa parte escondida - na verdade omitida pela sua própria censura inconsciente - da sua existência. Mas ele por ora não está em condições de aceitar o que aconteceu. Vê, olha as fotografias, recorda-se, mas não percebe.

O grande amor tinha durado apenas dois anos. Ela era inocente, curiosa, alegre. E afectuosa. Ele era distraído e parecia não levar o amor muito a sério. Um dia foram passear de carro, atravessaram pontes, parques cheios de árvores. Ele parou o carro num dos parque, o maior, e sentaram-se na margem de um lago onde nadavam uns patos. Ela tirava fotografias às árvores do parque, aos patos, tirava-lhe fotografias a ele. Ele acendeu um cigarro. E bruscamente, sem explicação, uma árvore enorme caiu, o tronco da árvore esmagou-a. Ele não percebeu. Durante muito tempo não percebeu nada. E as pessoas sabiam que não lhe podiam explicar que ela morrera porque ele não entenderia. Ele continuava a falar com ela, ia com ela visitar os amigos, saía com ela de carro a passear nos domingos. Os amigos recebiam-no, visitavam-no - e não tinham coragem de destruir a ilusão, de obrigá-lo a voltar à realidade. Seria um abuso de confiança, seria ferir inutilmente um inocente. Ele não podia viver sem ela. Se não a tivesse ao seu lado a vida deixava de ser vida, transformava-se num caos insuportável. Tão grande era o amor, tão cego.

Ele vê as fotografias mas não percebe. O tempo passou e ele já não sabe bem se ela morreu ou se ainda está viva em lugar incerto. Depende dos dias. Há dias em que chora a sua morte: dias que não terminam nunca, dias negros, de uma dor inconsolável. Há dias em que, imaginando-a viva, se lhe alegra o coração: e então é feliz, aceita o sacrifício de não a procurar para não quebrar o encanto, não quer interromper a felicidade em que ela vive. O que é a dor? Pode contar-se, a dor, pode explicar-se? Pode consolar-se, a dor, pode diminuir? Pode esquecer-se? Não. A dor não se pode contar. A dor não dá descanso. A dor não tem remédio. Se o tivesse não era dor a sério, não era uma dor verdadeira, não era dor. A dor cura-se quando se desagregarem as diferentes partes do corpo de que ela se apossou, que ela invadiu, de que começou a fazer parte; quando se extinguir a consciência em que a sua marca de fogo se gravou para sempre.

Wednesday, April 11, 2007

Excessos e desastres

De onde nasce a conclusão errada, a alucinação? A mente, que não deve gostar da ausência de sentido, quando não o descobre em acontecimentos isolados ou numa determinada série de acontecimentos, vai-se concentrando em cada um deles - os escolhidos apenas - e começa a estabelecer relações. Uma boa parte do processo deve ser inconsciente, desenrolar-se sem nós nos apercebermos disso. Depois, um dia, segura de si, a mente, tendo estabelecido inúmeras relações entre factos isolados mas unidos na mesma série, chegou finalmente a uma conclusão. E nós, sem reflectir mais, agimos, confiando no seu bom senso, na sua inteligência. É assim que às vezes se chega coerentemente ao desastre: loucura mansa. Num romance tal intriga podia revelar-se brilhante, dar excelentes resultados. Na vida real errou-se por excesso de actividade mental consciente e inconsciente.

Há erros cujas consequências não se podem corrigir. Mas zangar-me com a parte de mim que pensa (que faz a gestão do sentido) não me resolve esse problema nem outros.

Este tipo de alucinação (pelo menos este) não é irracional. Antes pelo contrário: o seu defeito é ter sido excessivamente racional. O que é que falhou, então? A obsessão escolheu os elementos que haviam de fazer parte da história, agindo, ao escolhê-los, com intenções ainda obscuras (mais tarde podem tornar-se transparentes). Depois ligou entre si esses elementos escolhidos de modo a chegar a uma conclusão. Só que 1) a escolha dos elementos que fariam parte do sistema cujo sentido se queria descobrir não foi neutra nem inocente, 2) as relações entre os diversos elementos podem ter sido mal interpretadas ou mal estabelecidas, 3) a atribuição de sentido a algum ou alguns dos elementos do sistema criado pode ter sido errada. Assim se chega, com toda a lógica, inteligentemente, à conclusão alucinatória.

P.S. Há conclusões tão difíceis de aceitar que era preferível termos tido uma alucinação. Quando se torna evidente que não foi uma alucinação, sentir-se inteligente não nos consola de nos sentirmos infelizes.

You

(I know you: you're the one who's bent so low.
You hold me - I'm the riddled one - in bondage.
What word could burn as witness for us two?
You're my reality. I'm your mirage.)

Paul Celan

Friday, April 06, 2007

pergunta e resposta

A. L. - Tenho lido o teu "Nada Niente" cada vez que há um novo post...o que é quase todos os dias...o que é que daquilo é verdade?
O narrador - Nada do que eu escrevo e publico no blogue é totalmente verdade nem totalmente mentira. Quanto a distinguir o que não é totalmente verdade do que não é totalmente mentira... hmmmm... mudemos de assunto.... Eu não tenho biografia, eu só escrevo ficção...