Thursday, March 29, 2007

There is no why
















Why do I not satisfy myself that I have two feet

when I want to get up from the chair? There is
no why. I simply don’t. That is how I act.
(Wittgenstein, OC, 196)



Tuesday, March 27, 2007

De passagem

Dias perdidos no calendário, à solta
do tempo, como folhas que esvoaçam
dos plátanos e sem destino acabam
por pousar nas lajes do Cours Mirabeau.
Ninguém deu por nada nem pela tua
existência discreta ao fundo do café.
E se dessem, e se deram sem tu veres,
deram por quê? Sempre tiveste saudades
de alguém que não chegou ainda ou já
partiu ao encontro do seu destino.
Não sabes viver só, mas passas os dias
só. O tempo arrefece, vai chover, que
te importa já? Era domingo, estavas
cheio de remorsos. As mãos que
folheiam os livros, que erguem
as paredes da casa, que anunciam
o amor também são mãos que matam:
cegas, irresponsáveis, ao serviço do
castigo desconhecido, nem sequer
entrevisto nos sinais em que ele
se deixava adivinhar. E agora,
meu amor, onde estás? E porque
sofrias, inquieta, que te atormentava
quando, sentada no café, falavas com o
velho amigo? Mistérios. Eu estava
de fora. Eu vi-te de passagem. Mais
tarde, quando falei, disse o que não devia
dizer. Depois fui para casa arrepender-me.
Não me serviu de nada. Dormi mal.
Os dias não se juntam uns aos outros,
como folhas soltas caem da árvore
quando lhes apetece, quando chegou
a sua vez. Como fazer um livro
dessa desordem, dessa ausência
de intenção? E tu, sentado no café,
nem tentavas responder. O amor
existe, esse malentendido? O ódio
existe, essa dor póstuma? Nem tudo
está ao nosso alcance, às vezes escapa-nos
o sentido das palavras e os olhos que nos
fixavam descobriam em nós sentimentos
ou o rosto de alguém que não
sabíamos que éramos. Os teus
olhos. A tua inquietação. De onde
vieste até parar aqui e tentar
construir aquilo a que se chama
uma vida? Eu não sabia. Não sabia
nada. Falei-te, mas deve ter sido com
as palavras erradas. Ou antes: que sentido
terão para ti as palavras que para mim
têm algum sentido em particular? E
quantas vezes me escapa a palavra
dos lábios e da caneta antes de eu me
aperceber do erro, da escolha que
não vinha a propósito. E assim
se prolonga o malentendido. Por
isso ou por fatalidade, estou só,
estava só, sentado ao fundo do café.
A ver as folhas dos plátanos abandonar
a carne firme do tronco em que cresciam
para ir perder-se, ao acaso, na calçada.

Wednesday, March 21, 2007

Bovarysme
















"Avant qu'elle se mariât, elle avait cru avoir de l'amour; mais le bonheur qui aurait dû résulter de cet amour n'étant pas venu, il fallait qu'elle se fût trompée, songeait-elle. Et Emma cherchait à savoir ce que l'on entendait au juste dans la vie par des mots de félicité, de passion et d'ivresse, qui lui avaient paru si beaux dans les livres."

(Flaubert, Madame Bovary)


Ler isto fez-me pensar no que senti depois da primeira comunhão: talvez Deus ou o filho de Deus, ou ambos e a pombinha, estivessem dentro de mim e eu devesse sentir-me muito feliz. O problema é que por mais que me esforçasse eu não sentia nada. Anos mais tarde, como punição, ouvi uma queixa semelhante da boca de uma virgem com quem tinha dormido: alors, ce n'est que ça, faire l'amour?!

Monday, March 19, 2007

Cappelanus about women

I am no misogynist. That’s why I was surprised with the last chapter of Andreas’ Cappelanus book, The Art of Courtly Love, written in the XII century. Look at this paragraph and you will understand what I mean:

“Furthermore, not only is every woman by nature a miser, but she is also envious and a slanderer of other women, greedy, a slave to her belly, inconstant, fickle in her speech, disobedient and impatient of restraint, spotted with the sin of pride and desirous of vainglory, a liar, a drunkard, a babbler, no keeper of secrets, too much given to wantonness, prone to every evil, and never loving any man in her heart.”


(Translated by John Jay Parrry, Columbia University Press, NewYork, 1960)

Sunday, March 18, 2007

Léo Ferré em Catalão

Os cds de Léo Ferré que vendem em iTunes ou não são cantados por ele ou são apenas péssimas gravações. Irreconhecível. Mas procuram-se outras interpretações e descobre-se um extraordinário Xavier Ribalta que canta Léo Ferré em Catalão. Interpretação impressionante!! Gosto muito de Léo Ferré, mas ouvir Amb el temps (Avec le temps), La vida d'artista, És extra... em Catalão fez-me esquecer o original, que não tenho aqui! E as semelhanças do Catalão com o Português deixam-me entender quase tudo imediatamente. Apetece-me aprender a falar Catalão.

Thursday, March 15, 2007

violência

fui a uma livraria do centro à procura de um livro para oferecer. deixei o carro no parque de estacionamento e fui andando. a polícia tinha fechado várias ruas, não se percebia porquê. mais abaixo, na state street e na carrillo, que estavam bloqueadas, dois polícias tiravam fotografias, tiravam medidas. perguntei a um tipo que ou estava chocado ou estava com os copos o que é que tinha acontecido. devem andar à procura de body parts, vou mas é dar a volta por outra rua, não gosto de ver essas coisas. só mais tarde, depois de ter jantado tranquilamente e de ter tomado café, quando voltava ao carro, é que alguém me explicou o que acontecera: assassinaram um rapaz da junior high, dezassete anos, lutas de gangs, o east e o west da cidade. espantei-me: gangs em santa barbara? seis balas no peito, acrescentou ele, os pais é que têm a culpa, não se ocupam dos filhos. protestei: os pais? se na américa não fosse tão fácil comprar armas como comprar amendoins estas coisas não aconteciam todos os dias. ele concordou.

p.s. afinal não foram seis balas, foram seis facadas. logo no mesmo dia e perto do local onde aconteceram as coisas alguém inventou uma história diferente. é por isso que eu acredito pouco em historiadores. quanto ao resto, além das pistolas há as facas. desta vez foi uma faca.

Monday, March 12, 2007

The solution of the riddle



Joseph Kosuth
The solution of the riddle (Z&N), 1987



Friday, March 09, 2007

poema ambicioso

se eu ladrasse gemesse ou uivasse em vez de falar
ninguém me levaria a sério ou levavam-me a sério
de maneira errada e ofensiva por isso deve ser por

isso que por vezes passo muito tempo sem dizer
nada o silêncio é discreto ninguém dá por nós podem
limpar-nos o pó da cara e das pernas porque nos

confundiram com a cómoda no canto do quarto e
não tem importância nós ficamos imobilizados
como uma estátua para não os assustar não vale

a pena perturbar-lhes a rotina e se nesse momento
ladrássemos havia de ser engraçada a reacção não
posso evitar tive de me rir ao imaginar a cena se

eu soubesse cantar ou tocar piano também podia
falar sem usar a garganta a boca a língua mas se
tocasse flauta já seria diferente quando me dou

ao trabalho de pensar um pouco descubro coisas
interessantíssimas acontece-me quando aquilo
que designo por inspiração ou ímpeto criativo

me abandona não será curioso claro que é curioso
contribuir para denegrir aquilo a que alguns
ingénuos ainda designam por poesia e que lhes

dá tanto trabalho e tantas emoções fabricadas
na oficina em que cinzelam sem descanso as
peças de oiro que acabarão no fundo de um

armário antes de serem definitivamente enviadas
para a lixeira municipal mais próxima denegrir a
poesia a literatura nem sequer me diverte na

verdade o projecto é muito antigo o que acontece
é que eu nunca tinha tido coragem de ir tão longe
distante da pátria dos escritores dos legisladores

de meia dúzia de tolos tontos que se tomam por
historiadores da literatura e pensam que alguém
lhes presta atenção a minha liberdade é total o que

eles dizem o que eles pensam nem sequer chega ao
meu conhecimento a maior parte das vezes e quando
chega não me merece grande atenção como dizia

no início se pudesse ladrar uivar gemer e até tocar
piano ou oboé a situação mudava radicalmente
só que embora me importe pouco o que possam

pensar do que eu faço a maior parte das pessoas
não tenho competência suficiente em nenhuma
dessas artes daí o meu silêncio quando se esvai

aquilo a que chamo a inspiração o ímpeto criativo
a minha sintaxe desconjuntada não me leva a lado
nenhum bem sei mas se escrevo provo que existo

não abandono o lugar que é meu a ninguém oh não
se alguém o quer ocupar empurre-me rasteire-me
insulte-me tente assassinar-me daqui não saio