Wednesday, February 28, 2007

flores amarelas

num canteiro de madeira com terra que está abandonado no pátio da minha casa bruscamente arrebitaram-se duas flores amarelas. fiquei surpreendido. era um sorriso, eram dois sorrisos. só que esse sorriso não me deve nada a mim. nem é para mim. talvez as outras plantas que lhe fazem companhia nas noites de solidão - e a árvore das camélias em particular - tenham sorrido também ao ver surgir as florzinhas amarelas. quem sabe.

enchi-me de remorsos, amanhã vou regar tudo. a vizinha de cima disse-me há tempos para eu pôr os vasos de maneira a que a água das plantas dela, ao escorrer para baixo, vá regando também as minhas. fiz-lhe a vontade. confesso que tenho sido um padrasto para estas plantas que alguém me deixou no pátio antes de se ir embora de vez. não é que elas me irritem. mas não me são nada, compreendem? é possível até que saibam coisas que eu não gostaria de saber, que se tenham envolvido em cumplicidades contra mim. receberam certamente de quem as tratou carinhos e confidências que diziam respeito a outras pessoas. comigo nunca houve intimidades. não vamos começar agora, é tarde de mais.


duas ou três flores amarelas. a querer amolecer a minha má vontade contra elas. mas eu não cedo. estiveram as sementes ali sem dar sinal de vida quase um ano e agora ressurgem. porquê? a que propósito? quem as plantou tinha certamente razões muito pessoais para as plantar. sentava-se de manhã numa cadeira ao lado da porta da varanda a ler e a olhar para elas. em silêncio, secretamente, sonhava com o futuro. e eu, fui informado disso, sabia o que se estava a passar? não. não soube de nada. fui mais ignorado do que as queridas plantas. rego-as amanhã por caridade, não com amor. daqui a uns meses deixo esta casa. as plantas que tiverem sobrevivido dou-as aos meus amigos ou aos meus vizinhos. ainda me vão dar trabalho, mas será a última vez. depois esqueço-as.

digo isto e fico com remorsos. coitadas das flores amarelas. nem lhes sei o nome, sou um ignorante. aborrece-me bastante, já percebi, que elas tenham todo o ar de estar ali a sorrir para mim. sem me acusarem de nada ter feito por elas. nunca. ou reguei-as sem me dar conta alguma vez? tem chovido bastante, pode ter sido por isso que ressurgiram. tenho remorsos? tenho pena de me ter transformado numa pessoa insensível? agora até com as plantas embirro?

tenho as minhas razões, já sugeri. mas elas fizeram-me algum mal? fizeram. obrigaram-me a pensar na pessoa que as comprou e as pôs ali. ou pelo menos não me deixaram esquecer totalmente essa pessoa com quem já nada tenho a ver, com quem nunca mais terei nada a ver. o sorriso das flores amarelas é uma intrusão de mau gosto na minha vida privada, uma provocação a posteriori. lembro-me das crianças que nos sorriem na rua com inocência e alegria, vão pela mão do pai ou da mãe e não sabem que não nos damos com eles. o pai ou a mãe puxam-nas pela mão para as tirar do nosso caminho e elas enquanto se afastam continuam a sorrir-nos. estas flores amarelas é nisso que me fazem pensar. querem comover-me ou consolar-me. ou fazer-me companhia. ou terão saudades de quem as plantou? não contem comigo para cumplicidades dessas. a minha solidão não me pesa e eu não quero saber.

é de noite, está a chuviscar. fui lá fora dar uma vista de olhos. afinal não são duas, são quatro. e há caules para mais. mas para mim vem a dar no mesmo. é assunto que não me diz respeito.

Monday, February 26, 2007

razões

fornecemos razões porque não as ter
procurado podia deixar-nos aos gritos
histéricos na beira do caminho poeirento

a vida é curta mas longa o bastante para
nos apercebermos de que sem uma história
para contar não vamos longe o tédio sempre

ameaça de que me servem os meus olhos
abertos se não consigo esquecer-me de
tudo o que não vejo do nada em que me

embrenharei definitivamente um nada
que é mesmo nada vazio coisa nenhuma
apesar do meu pessimismo acredito no

amor espero ainda que me amem faço
projectos receio entusiasmo-me sem
razões sérias sem estabelecer entre o que

acontece relações como poderia suportar
tudo isto a fraternidade do desespero a
inutilidade ofensiva do desamor a corrupção

uma vez mais estou só em casa à noite
aborreço-me tanto se contasse todas as horas
em que me aborreci teria vergonha de mim

mesmo ou de não ter arriscado a minha vida
em aventuras árduas de não me ter dedicado
a uma causa a uma religião a juntar pão para

quem tem fome roupa para quem tem frio
não tenho ilusões nem um ideal de vida ir
andando sem grandes percalços já me basta

tudo o que vier além disso é extraordinário
e portanto merecedor de agradecimentos
excepcionais pendurei um retrato na parede

ficava sentado a olhar para ele horas seguidas
um dia dei-me conta de que a parede branca era
tudo o que contemplava o retrato tinha-se diluído

no ar como o papel se dilui na água fiquei triste
provavelmente a alucinação tinha-me permitido
escapar-me de mim mesmo da minha total e bem

conhecida inexistência há quem se ria e se abrace
outros estão no episódio final a despedir-se da
vida curta e tão longa se penso em ti nela naquela

que poderei amar se não me faltar a coragem fico
por momentos cheio de esperança tenho pena de
ter desperdiçado as oportunidades que me foram

certamente dadas antes de levar a vida a sério nunca
entendi senão o que estava a entender a minha solidão
pode ter nessa característica da minha personalidade

a sua explicação mais aceitável mais convincente não
me deixei influenciar nem convencer pelo que me era
exterior e sobretudo estranho não me arrependo o amor

tal como o sonhei sem o ter procurado não está ainda
completamente posto de lado como possibilidade real
por isso suporto viver no meio de gente que detesto

Sunday, February 25, 2007

Peixe assado

Pode existir uma inflação da literatura dita literatura, que cada vez mais se assemelha a uma cadeira de palha antiga num canto do museu (vai lá sentar-se quem não entende nada de cadeiras, nem de museus, nem de literatura, nem do que se passa no mundo hoje). Talvez as crónicas desse Fradique Mendes dos restaurantes que não sei quem seja nos curem por momentos, na sua declarada ambição gastronómico-cultural, da falta de utilidade das prosas e poesias que sem sentimento de culpa se ensimesmam na inconsequência. Um excerto (discutível, evidentemente):


"Peixe assado é como o sexo. Mesmo quando é mau é bom, quase nunca é muito bom, e quando é muito bom dificilmente nos lembramos de como foi."

An attempt at jealousy

How is your life with the other one,
simpler, isn't it? One stroke of the oar
then a long coastline, and soon
even the memory of me

will be a floating island
(in the sky, not on the waters):
spirits, spirits, you will be
sisters, and never lovers.

How is your life with an ordinary
woman? without godhead?
Now that your sovereign has
been deposed (and you have stepped down).

How is your life? Are you fussing?
flinching? How do you get up?
The tax of deathless vulgarity
can you cope with it, poor man?

'Scenes and hysterics I've had
enough! I'll rent my own house.'
How is your life with the other one
now, you that I chose for my own?

More to your taste, more delicious
is it, your food? Don't moan if you sicken.
How is your life with an image
you, who walked on Sinai?

How is your life with a stranger
from this world? Can you (be frank)
love her? Or do you feel shame
like Zeus' reins on your forehead?

How is your life? Are you
healthy? How do you sing?
How do you deal with the pain
of an undying conscience, poor man?

How is your life with a piece of market
stuff, at a steep price.
After Carrara marble,
how is your life with the dust of

plaster now? (God was hewn from
stone; but he is smashed to bits.)
How do you live with one of a
thousand women after Lilith?

Sated with newness, are you?
Now you are grown cold to magic,
how is your life with an
earthly woman without a sixth

sense? Tell me: are you happy?
Not? In a shallow pit How is
your life, my love? Is it as
hard as mine with another man?

Marina Tsvetaeva
1924

Wednesday, February 21, 2007

coincidências

eu estava sentado na biblioteca a ler um velho manuscrito quando ela veio sentar-se ao meu lado. eu acenei com a cabeça em forma de cumprimento, ela respondeu com um vago sorriso e sentou-se a ver imagens num livro com retratos. era pintura antiga. vi o título do livro: “românticos e revolucionários”. os quadros, lia-se na capa, estavam na national portrait gallery em londres. era sexta-feira à tarde, a pior hora para quem não tem nada que fazer, nem projectos, nem família, nem amigos. se estivesse em casa, preparava-me um whisky com perrier e ia bebericando. um copo em geral basta-me para atenuar algumas recordações que me dilaceram. o manuscrito não tinha grande interesse ou era eu que estava meio ausente a pensar noutras coisas. deitei um olhar indiscreto para o que se passava ao lado. ela continuava a folhear o livro com os retratos e tinha começado a tirar fotografias com uma pequena máquina digital. concentrei-me de novo no manuscrito, tirei umas notas. eu conhecia-a de vista não sabia de onde. talvez da biblioteca. ou da universidade. ou de a ter encontrado nalgum cinema. ela deve ter sentido que eu a observava e levantou a cabeça, ficou a olhar para o ar. depois acabou por olhar para mim e ficou outra vez pensativa. eu sorri meio embaraçado. ela sorriu mais abertamente. interessantes esses retratos aristocráticos? arrisquei eu. artistas, políticos, gente com poder ou dinheiro, respondeu ela. e acrescentou: como eu gosto desta pintura e destes ambientes. e o seu manuscrito, interessante? bastante, respondi eu. hmmmm,fez ela, tenho estado a vê-lo pelo canto do olho e não me pareceu que a sua relação com esse manuscrito fosse uma coisa muito apaixonante. mas é, protestei eu, é um manuscrito renascentista onde provavelmente se vislumbram vestígios do que poderia ser o pensamento filosófico português, essa raridade. só que estas velharias inspiram com frequência mais respeito e curiosidade do que paixão. e mais tédio do que interesse, comentou ela ironicamente. arrumou a máquina fotográfica na pasta, pegou no livro da biblioteca e disse: estou a precisar de um bom café. quer vir?

estivemos no bar duas horas a conversar e a beber martinis. falámos de fotografia, de pintura, de literatura, de pessoas conhecidas, de pessoas desconhecidas, de projectos. fumámos bastante. era sexta-feira ao fim da tarde e não havia ninguém à nossa espera. decidimos ir jantar juntos a um restaurante argentino perto das amoreiras. já não sei quando é que os nossos dedos se encontraram entre os copos, os talheres e os pratos. ela aceitou uma carícia leve, mas retirou a mão logo a seguir. deixou de sorrir, ficou meio ausente. senti-me mal, como uma criança que meteu a mão no pote do mel e foi repreendida. pagámos, levantámo-nos, saímos. ela caminhava ao meu lado, mas percebi que evitava o contacto. que apesar da cordialidade, queria manter a distância. descíamos a pé para o marquês e foi então que me lembrei de onde a conhecia.


eu tinha-a visto pela primeira vez há alguns anos, quatro ou cinco talvez, no início do verão talvez, provavelmente em junho. nesse ano eu estava a tentar escrever um ensaio que nunca terminei sobre a influência do último wittgenstein na filosofia pragmática americana. estranha coincidência: ela estava a jantar com um homem mais velho, que podia perfeitamente ser o marido, no restaurante de onde acabávamos de sair. a beleza dela, meio grega, meio italiana, vagamente mestiça, não passava despercebida. eu estava a jantar com o meu editor e fiquei longos minutos a observá-la de longe, seduzido. o rosto dela fascinava-me. ela e o homem saíram, eu fiquei no restaurante a tagarelar com o paulo.

umas três semanas depois, estava eu de novo a jantar no mesmo restaurante com um colega da faculdade quando a vejo entrar com um tipo de cabeça rapada, mais da idade dela, mais novo do que o homem que eu tomara pelo marido. o criado levou-os a uma mesa perto da entrada, eles sentaram-se. eu, além de fascinado, fiquei perturbado. e estava cheio de curiosidade. cheirou-me a intriga romanesca, a adultério. pus-me a observá-los enquanto ia comendo e conversando com o meu colega. notava-se que o tipo de intimidade que ela tinha com o carequinha era diferente do que mostrara ter com o homem que eu tomara pelo marido. com este parecia haver mais cerimónia, a relação parecia mais formal. via-se que não era uma relação com hábitos nem antiga. percebi depois que o skinhead era inglês. para mim tornara-se evidente, no entanto, que se tratava de uma relação e não apenas de um encontro fortuito. esta mulher, pensei eu, com aquele rosto angélico, com aqueles olhos que pareciam puros, com aquele ar de menina apenas honesta, ou tinha dois amantes ou tinha um marido e um amante. ou seria eu que estava com vontade de inventar romances? o que é certo é que enquanto ia saboreando o bife e o vinho a minha curiosidade e o meu interesse iam aumentando. quando eles saíram de mão dada eu saí pouco depois atrás deles. invoquei não sei que desculpa e deixei o meu colega a acabar a sobremesa sozinho no restaurante. tinha decidido segui-los. a história sentimental, o desplante daquela mulher intrigavam-me. eles desceram a pé até ao marquês. de vez em quando paravam para se beijarem e abraçarem mais longamente. depois cortaram à direita e acabaram por ir dar a um hotel perto da cinemateca. entraram, desapareceram lá dentro. eu fui à minha vida a cismar naquele romance que não me dizia respeito.

há existências que estão destinadas a cruzar-se. uma semana depois, ó deuses do olimpo, voltei a encontrá-los no porto, nos jardins e nas salas do museu de serralves aonde eu fora para tirar uma série de fotografias destinadas a uma revista de arquitectura americana. quase os cumprimentava quando os vi porque, distraído, os tomei por conhecidos meus. entretanto, satisfazendo a minha veia detectivesca, misturei-me a outras pessoas e fui andando atrás deles discretamente, observando ora os quadros em exposição, ora como é que eles se comportavam um com o outro. percebi depressa que o tempo tinha passado. alguma coisa mudara em relação ao que eu vira em lisboa. agora havia uma distância, uma reserva, menos palavras, uma quase frieza bem educada da parte dela, nenhuma intimidade. a cara do carequinha traía resignação e infelicidade. olhava para ela, que lhe escapara mais uma vez, sem perceber. entretanto apercebi-me de que de por duas ou três vezes ela desaparecera das salas de exposição, deixando o skinhead com um casal de amigos que os acompanhavam. ia à casa de banho ou ia até ao jardim tomar ar - e aproveitava para telefonar a alguém. a conversa, que eu observara atentamente de longe, não era uma conversa banal, via-se que alguma coisa a preocupava. a dado momento, caminhando arrojadamente numa das veredas do jardim, aproximei-me mais e ouvi-a dizer de forma determinada “evidentemente que estou sozinha, com quem é que queres que eu esteja?” está a falar com o primeiro, com o outro, com o que tinha ar de ser o marido, pensei eu. a história tornava-se cada vez mais interessante e eu estava em pulgas. havia ali mistério, a intriga merecia investigação. uma madame de bovary contemporânea e nacional? parecia. eu sei que o adultério se tornou banal, mas quem sabe, talvez daquela matéria eu pudesse tirar obra original. para um romance, para um filme, para uma telenovela. trago sempre uma pequena máquina digital no bolso e apeteceu-me tirar-lhe uma fotografia. mas resisti à tentação.

e agora eu vinha a descer com ela, também à noite, a mesma rua que leva ao marquês. ela chamava-se clara e era professora de pintura. vivia há alguns anos em inglaterra. apeteceu-me dizer-lhe que antes de a ter visto na biblioteca já a conhecia, mas preferi calar a boca. era sensato não perturbar com questões que não me diziam respeito a relação agradável que tínhamos estabelecido. perguntei-lhe de onde era, disse-me que quando estava em portugal morava na província, o pai tinha lá uma quinta. mas estava num hotel ali perto do marquês. ainda é cedo para ir dormir, disse eu. ela olhou o relógio, hesitou e decidiu: ver montras é uma paixão para mim, podemos descer um pouco a avenida da liberdade. do lado esquerdo, se não se importa. fomos descendo a avenida a essa hora já mais frequentada por automóveis do que por pessoas. o passeio foi curto. meia hora mais tarde acompanhei-a ao hotel e apanhei um táxi para casa.


no dia seguinte encontrámo-nos de novo na biblioteca, eu a olhar sem grande paixão para o meu velho manuscrito, ela a folhear e a tirar com entusiasmo fotografias noutro livro de retratos. gente ilustre, poetas, condes, políticos, gente poderosa ou endinheirada que os pintores tinham protegido do esquecimento. deviam ser umas dez horas quando eu cheguei. ela já lá estava. às onze fomos tomar um chá à cafetaria da biblioteca. aí eu não resisti. não sei guardar segredos ou pareceu-me uma traição guardar este só para mim. enquanto mexia o açúcar na chávena e a olhava nos olhos castanhos maliciosos confessei-lhe que já a conhecia e que a sua história me intrigava. ela corou, ficou a olhar para mim timidamente e com um vago receio. contei-lhe que a vira há alguns anos a jantar com um homem que parecia ser o marido precisamente no restaurante onde tínhamos jantado na véspera. acrescentei que tendo-a visto uma vez era impossível esquecê-la. ela sorriu, mas eu pressentia que ela ficara surpreendida e meio inquieta, à espera de conhecer o resto da minha história. eu não hesitei e disse que umas semanas depois a vira com outro homem no mesmo restaurante e que também com ele ela parecia manter uma relação que dificilmente se poderia considerar inocente. contei-lhe que quando eles tinham saído do restaurante os seguira até ao hotel, confirmando o que já pressentira ao vê-los jantar, isto é, que eram amantes. ela olhava para mim atónita. admiti que se preparava para negar tudo. talvez se levantasse e se fosse embora, olhando-me com desprezo ou rancor. mas decidi continuar. confessei-lhe que um acaso inacreditável voltara a pô-la a ela e ao amante no meu caminho uma semana depois: encontrara-os no porto e dera-me logo conta de que as relações deles tinham evoluído. ela aborrecia-se, via-se que já tinha a cabeça ou o coração noutro lugar. contei-lhe que nessa tarde a vira duas vezes afastar-se do skinhead para ir ao jardim telefonar a alguém. com esse alguém era visível que havia um problema a resolver. imaginei logo, disse eu, que você estava a falar com o seu marido. acrescentei que na minha interpretação do que presenciara, ela, quando estava no porto, já tinha remorsos do que fizera e estava a preparar o regresso a casa. disse-lhe que ficara, e continuava agora ainda, perplexo e fascinado com as suas contradições, com a sua vida misteriosa. o rosto dela não mostrava qualquer expressão, devia estar banzada. repare, disse eu: esses jantares tiveram lugar no mesmo restaurante a poucas semanas de intervalo; você parece uma mulher séria e certamente que o é. como explicar, então, o seu estranho comportamento? o mistério das complexas relações humanas sempre me fascinou. eu sei, o amor não é tão simples como se diz hipocritamente por aí. mas ainda assim, há limites. pelo menos para mim. ora você não cabia no quadro do retrato em que as suas noites lisboetas a queriam emoldurar.

ela parecia agora meio ansiosa meio irónica. quando eu terminei, comentou sem sorrir e sem me olhar: seguir as pessoas, espiá-las, é uma atitude muito feia. aceitei a acusação e invoquei a minha curiosidade de artista e a minha inquietação de filósofo para me fazer desculpar. ela parecia aborrecida ou atrapalhada, não entendi bem. ora olhava para mim, ora olhava para os lados. a dado momento voltei a recear que se levantasse e se fosse embora, punindo com altivez e desprezo a minha inaceitável ousadia e indiscrição. mas se o pensou, resistiu à tentação. ficou muito tempo calada, de cabeça baixa. se ela quisesse podia ainda negar tudo, dizer que eu estava enganado, que não era ela a pessoa que eu tinha visto antes. mas eu sentia que ela tinha necessidade de se justificar, só que não sabia como. eu também não sabia como continuar a conversa. calado finalmente, tive remorsos: o que é que me deu para me estar a meter tão grosseiramente na vida desta criatura? quem me concedera o direito de a aborrecer com a minha estúpida indiscrição? estive quase a pedir-lhe desculpa e a suplicar-lhe que parássemos ali aquela conversa que eu indelicadamente provocara com a minha leviandade. a frase que lhe saiu da boca a seguir surpreendeu-me: quando me dei conta de que me olhava, pensei que via em mim uma desconhecida interessante com quem eventualmente podia vir a ter uma aventura. descubro agora que se debruçou sobre a minha vida com mais paixão do que a que dedica aos seus manuscritos. é o mistério, são as intrigas que o atraem. disse isto calmamente, segura de si. não me pareceu irritada. pensei: está a ganhar tempo e a preparar uma explicação para o seu comportamento imoral. mas a explicação não veio. ela o que disse foi que era melhor voltarmos às nossas tarefas. não tive coragem de protestar. segui-a, voltei ao odioso manuscrito.

era sábado e nós ali fechados na biblioteca, sem sol, a sufocar de tédio. pelas quatro e tal da tarde estávamos ambos cansados. pelo menos foi a essa hora que um de nós se decidiu a confessá-lo. creio que bocejei e ela riu-se. imaginei que depois da conversa que tínhamos tido enquanto tomávamos chá nem ela nem eu tínhamos ficado com energia suficiente para nos concentrarmos no que estávamos a fazer. entre nós tinha-se desenvolvido inesperadamente uma relação secreta, difícil de definir. agora havia entre nós um segredo, uma cumplicidade, um incómodo que certamente não lhe agradava e que a mim me deixava na expectativa. senti que ela tentaria livrar-se de mim e desse fardo usando de uma estratégia imprevisível. se alguma hipótese tinha existido em algum momento de virmos a estabelecer entre nós uma relação pessoal, susceptível de se prolongar para além dos ocasionais e breves encontros dos dois últimos dias, essa porta, eu adivinhava-o, fechara-se estrondosamente. eu estragara tudo ao intrometer-me desajeitadamente no seu passado, ao mostrar-me a par de um episódio da sua vida que ela preferia, e tinha toda a razão, manter secreto. além disso eu recordara-lhe a existência de dois homens que tinham sido, e provavelmente ainda eram, importantes na sua vida. a minha falta de tacto criara um mal-estar impossível de desfazer.

saímos da biblioteca calados. pensei que nos íamos despedir em breve, uns metros à frente, sem muitas palavras, partindo cada um para seu lado. nunca mais nos veríamos. íamos caminhando na direcção da entrada do metro quando ela murmurou: há assuntos de que é muito difícil falar, sobretudo com estranhos. a partir do que viu, você não teve dúvidas em deduzir que eu enganei um homem com outro. e por isso não deve ter grande consideração por mim. eu respondi que era um dos meus defeitos nunca me permitir julgar o comportamento de uma pessoa a partir das aparências. ela não acreditou. vi-a abanar a cabeça com ar de censura. tomou o que eu acabara de dizer por uma gentileza sem interesse nem credibilidade. continuámos a andar, mas desviámo-nos da entrada do metro. aonde íamos? o que é que ela tinha ainda a dizer? e eu, o que é que tinha a dizer ou o que é que queria saber? voltei a recordar-me de que para ela eu era um estranho e que ter sido testemunha fortuita de um episódio intrigante da sua vida me tinha colocado numa situação embaraçosa. íamos a meio da avenida da república e parámos no passeio. ambos sabíamos que a minha atitude imbecil criara um problema e que o problema não estava resolvido. era preciso falar. ela necessitava de falar. eu necessitava de falar. ambos necessitávamos de ouvir. olhei par ela, fascinou-me o seu perfil tranquilo e grave. admirei a sua coragem e achei-a generosa. então ela disse: a sua curiosidade não será forçosamente recompensada, mas proponho-lhe que vamos jantar ao lawrence’s a sintra. é um restaurante de que guardo boas recordações. a gente às vezes é tão saloia: até lá me tiraram uma fotografia à porta uma noite, depois de lá ter jantado. creio que é um bom sítio para continuarmos a nossa conversa.

fomos no carro dela, um golf branco que ela tinha deixado no parque de estacionamento do hotel ao lado da cinemateca. pelo caminho falámos de pintura e de música, de inglaterra e de portugal, isto é, essencialmente, e como convinha, de tudo e de nada. o rosto dela, mais ossudo quando as sombras o marcavam, perdia por momentos a sua beleza, masculinizava-se. ou era eu que estava a mudar de opinião a seu respeito? pensei, sem razões objectivas, que ela devia ser uma pessoa dura, pouco sensível, calculista. e interroguei-me: qual é a táctica agora? o que é que ela quer? seduzir-me? sobrepor à imagem que ela pensa que eu tenho dela outra, menos severa, mais respeitável? que ela estava incomodada por ter encontrado uma pessoa que presenciara acontecimentos da sua vida que ela preferia manter privados eu não duvidava. que se quisesse justificar também me parecia normal. mas eu não estava muito seguro de que ela o conseguisse.

entrámos em sintra. ela foi descendo pelas ruas a essa hora tranquilas. belas árvores, uma fonte, azulejos, casas velhas. a dado momento passámos por um café ao lado de uma igreja onde eu uma vez, há anos, estivera sentado à tarde com uma mulher de quem gostara muito. percebi que estávamos a chegar ao lawrence’s. ela conhecia bem o lugar. encontrou facilmente onde estacionar. pouco depois estávamos sentados à mesa do restaurante. deram-nos uma mesa encostada à parede, quase no canto da sala. o jantar foi excelente, como se esperava. pouco falámos enquanto comíamos. trocámos banalidades inocentes e de vez em quando eu olhava para ela e voltava a sentir o fascínio antigo. ela não envelhecera realmente. ou antes: envelhecera, mas o seu rosto exibia agora uma maturidade quase trágica, parecia ter sido moldado pela dor ou pela intranquilidade. imaginei-a histérica, depressiva. por momentos cheguei a ter a impressão de que éramos dois antigos amantes que não se viam há muitos anos mas que o acaso ou o destino voltara a unir. estava a delirar, claro, devia ser efeito do vinho.

quando veio o café senti que se aproximava a hora das confidências. eu estava curioso e ao mesmo tempo sentia-me pouco à vontade. não sabia se ela me ia dizer a verdade ou contar uma história qualquer que servisse de conclusão convincente, sem a deixar mal vista, ao que eu presenciara e lhe contara. acendi um cigarro e fiquei à espera. ela olhou-me nos olhos, pousou a chávena do café e disse: eu não tenho explicações a dar a ninguém sobre a minha vida privada. portanto não o trouxe aqui para me confessar nem para me justificar. mas achei-lhe piada, há em si restos de uma adolescência que deve ter sido engraçada. a sua curiosidade infantil começou por me irritar, depois divertiu-me. além disso gosto de comer bem e em boa companhia. eu fiquei um pouco intimidado com o estranho cumprimento, mas ela não me deu tempo de reagir e prosseguiu: o primeiro homem com quem me viu era de facto o meu marido. o segundo era um rapazola que conheci em inglaterra e que me seduziu porque era inglês e eu era provinciana. o primeiro homem dizia que me amava, mas achava-me aborrecida e não se privava de o proclamar nem de me o fazer sentir. fora assim desde o início. agora acredito na sinceridade do seu amor. mas é tarde de mais e o facto de ele me amar não o inocenta, antes pelo contrário, ainda o torna mais responsável pelo fracasso do nosso casamento, pela minha frustração. ele não me ouvia, falava-me pouco, não me fazia companhia, parecia não se interessar pela minha vida nem por nada do que eu fazia. provavelmente julguei-o mal e tinha eu própria alguma culpa na sua impaciência para comigo. o rapazola inglês adorava-me, idolatrava-me, quase poderia dizer que passava a vida surpreendido por eu lhe ter prestado atenção. um dia percebi: este rapaz toma-me ao mesmo tempo por uma rainha e por uma égua. não me peça para explicar, por favor. ele era um chato e ainda por cima de pouca confiança em questões de dinheiro. o que você viu em serralves era o último episódio do malentendido. eu tinha-me enganado mais uma vez. tinha cometido erros grosseiros. tinha-me formalmente separado do meu marido antes das férias porque já tinha planeado passar duas semanas de férias com o rapazola em portugal. estando ainda em inglaterra tinha passado com ele alguns momentos românticos. já não sei o que é que me deu, ele convenceu-me a deixar o meu marido. e foi tão convincente ou eu tão fácil de convencer que cheguei a mudar o meu endereço no banco e na escola onde dava aulas para casa dele. depois das férias íamos viver juntos. e tudo isto pensado e preparado nas costas do meu marido, que desconfiava de tudo, parecia não se incomodar o suficiente e não tinha provas de nada.


afinal as férias com o rapazola inglês desiludiram-me. e desta vez era definitivo, eu de facto não o suportava. era uma coisa física. foi quando cheguei a essa conclusão que comecei a telefonar ao meu marido, tentando remediar o mal já feito e evitar uma catástrofe. no início ele ou não atendia o telefone ou era brusco comigo. acho que estava farto das minhas parvoíces e leviandades. se ele soubesse tudo o que eu tinha feito, tudo o que se estava a passar, nunca mais me olhava para a cara. hoje reconheço que o meu comportamento foi incorrecto, inadmissível. quando ele descobriu que eu me tinha separado dele para ir passar as férias com o rapazola ficou tão furioso que pela primeira vez pôs-me fora de casa. morávamos então em south kensington, no edifício do christie's. fiquei assustada. tive de ir para um hotel. fiquei lá dois dias. ele depois deixou-me voltar, mas de vez em quando recordava esse episódio, acho que nunca me perdoou. dou-lhe razão, eu tinha-me portado mal. os factos são estes mais coisa menos coisa. acha que me devo sentir muito culpada, mais culpada ainda? diga-me que punição é que acha que eu mereço. sendo um estranho para mim, imagino que será justo e não terá piedade. fez uma pausa e acrescentou: a minha vida amorosa parece um folhetim de mau gosto. se fosse uma novela ou um romance eu não os lia ou repugnavam-me. mas apesar da evolução dos costumes, apesar de o amor não ser tão simples como nos ensinam, apesar eu achar que as mulheres têm tanto direito à liberdade sexual como os homens, tenho impressão que por ignorância, distracção ou defeito de carácter desperdicei a oportunidade de ser feliz e passei ao lado do que poderia ter sido um grande amor.

eu não sabia que dizer. estava meio emocionado. por que razão é que ela decidira ser tão sincera, abrir-se tanto comigo, um estranho? é verdade que os católicos vão pata o confessionário e contam a sua vida toda, intimidades incluídas, a uma pessoa que muitas vezes não conhecem e de quem nem sequer vêem a cara, mas enfim. consolei-me: não te critiques, não te arrependas do que fizeste, pois ao reavivar o seu sentimento de culpa ofereceste-lhe uma oportunidade de se redimir. ela parecia aceitar sem discussão e sem falso pudor as suas responsabilidades. depois hesitei: e se tudo isto é teatro, literatura para tornar o serão agradável e romântico? não acreditei nesta última hipótese. mas em vez de dizer alguma coisa que mostrasse admiração ou gratidão, que recompensasse convenientemente a sua sinceridade, ouvi-me dizer: agora fico com curiosidade em saber que rumo tomou a sua vida depois desse episódio infeliz. ela olhou para mim sem sorrir e durante pelo menos um minuto não disse nada. entretanto mandou vir a conta, pagámos, voltámos ao carro. eu sentia-me estúpido, mal educado. cada vez que abria a boca, estava a tornar-se um hábito na minha vida ultimamente, era para arranjar chatices. metemo-nos no carro e fomos andando para lisboa em silêncio. cada quilómetro que fazíamos acrescentava à minha vergonha mais vergonha, ao meu sentimento de culpa mais culpa. e ela não dizia nada, conduzia calada, de olhar fixo na estrada. eu portara-me tão mal. não lhe devia ter tido que já a tinha visto antes, que fora espectador indiscreto da sua traição. não devia, não devia, só um idiota podia agir como eu agira. a minha mania de dizer o que penso, a minha sinceridade e espontaneidade várias vezes me tinham já deixado em maus lençóis. a dado momento, para tornar tudo mais negro, pareceu-me que ela chorava. e de facto pouco depois ela encostou o carro à beira da estrada e limpou os olhos. depois desatou a soluçar. meu deus meu deus. eu não sabia que fazer nem que dizer. acariciei-lhe o cabelo e o rosto timidamente, receando ser mal interpretado. tentei consolá-la. ela acalmou-se um pouco e disse baixinho: obrigado. ficámos um momento em silêncio. ela voltou a pôr o carro a trabalhar e reentrou na estrada. um pouco mais tarde, inesperadamente, ouvi-a dizer: os acontecimentos que você presenciou tiveram lugar há cinco anos. espanta-me que você me tenha reconhecido tanto tempo depois. devo ter-lhe feito grande impressão. eu podia negar, dizer que não era eu, que você estava equivocado. os anos que passaram talvez o levassem a duvidar. mas não quis e não sei por que é que não quis. quando você me viu a primeira vez eu acabava de deixar o meu marido pela segunda vez no espaço de um ano para ir ter com o outro. da primeira vez eu tinha voltado para casa ao fim de dez dias. dessa segunda vez só estive fora de casa três dias, quando voltei a inglaterra e o meu marido, que descobrira tudo, me pôs na rua. há um ano, eu e o meu marido voltámos a separar-nos. queríamos ver-nos livres um do outro. ele não me suportava e eu já não o amava, se é que estas palavras têm algum sentido. mas é assim que a gente explica as coisas, usando as palavras à nossa disposição. quando o meu marido descobriu, pouco tempo depois da nossa separação, que eu tinha restabelecido as minhas relações com o rapazola inglês pela terceira vez – e que pela terceira vez eu tinha feito tudo nas suas costas, escondendo-lhe tudo - ficou furioso comigo. ficou irascível. mandou-me várias mensgens por email a insultar-me. queixou-se: eu estou ainda a tentar entender o que é que aconteceu à nossa relação, ainda não me recompus desse desastre e tu já te tinhas desligado de mim há muito tempo. sem me dizeres nada, como é teu costume, foste de novo meter-te na cama do idiota que já sabes que não amas, que eu sei que desprezas. é para me aborrecer e para me provar que não me perdoas não te ter amado como tu querias? mas eu amei-te, tu é que sempre tiveste ideias infantis e utópicas sobre o que é o amor. ela fez uma pausa e comentou: se nos tínhamos separado, o que é que ele tinha a ver com a minha vida, que lhe importava que eu estivesse com fulano ou com beltrano? objectivamente, onde é que estava a ofensa? a ofensa para ele era eu usar sempre o mesmo homem como alternativa para a minha relação com ele. a ofensa era haver um indivíduo que se metera entre mim e ele e que não me largava. enfim, que dizer? ele sentiu-se humilhado, traído, menosprezado, incompreendido, abandonado. depois de me ter telefonado pela última vez, escreveu-me a dizer que eu era uma cadela sem escrúpulos nem sentido das responsabilidades, acusou-me de nunca ter tido respeito nem consideração pelos seus sentimentos. provavelmente tinha razão. claro que tinha razão. quando recebi a carta dele cheia de impropérios já sabia há dois dias que ele se tinha suicidado. o rapazola inglês deve de facto ter-me servido de protecção contra a solidão ou de vingança contra o meu marido. ainda não entendi bem, provavelmente nunca entenderei, mas é possível. o que se passou ultrapassa a minha compreensão das relações entre as pessoas e em particular das relações amorosas. é verdade que eu também me sentia menosprezada, mal amada. suspeito também que interpretei o que eu considerava o desinteresse dele por mim e pela minha vida como rejeição, como repúdio da pessoa que eu era. um psicanalista disse-me um dia que o meu comportamento com o meu marido devia ter explicação na minha infância. perguntou-me se eu me lembrava de algum incidente ou situação em que me tivesse sentido recusada ou preterida pelo meu pai. eu não me lembro de nada. mas o inglês eu nunca o amei. depois do suicídio do meu marido ele deixou de ter qualquer interesse para mim. não digo que os dois acontecimentos estejam ligados, mas foi assim. deixei-o definitivamente, nunca mais o vi.

chegámos a lisboa em silêncio. ela foi para o hotel mas antes deixou-me em casa na artilharia um. ficámos de nos encontrar no dia seguinte na biblioteca. infelizmente não pude comparecer. a morte de um parente na província obrigou-me a deixar lisboa por uns dias. nunca mais a vi. o meu editor, que esteve em londres recentemente, pretende ter-se cruzado com ela em piccadilly o mês passado. e afirma: alguém que a conhece bem jurou-me que ela nunca deixou de viver com o rapazola, o suicídio do marido ter-lhe-á passado ao lado. não sei se duvide, se acredite. quando falei com ela achei-a sincera, a sentir o que dizia. mas que sabemos
nós acerca da sinceridade das pessoas, acerca do que elas sentem? provavelmente nada.


Tuesday, February 20, 2007

19 de fevereiro

o fim da tarde, hoje, pela auto-estrada.
o pacífico, à esquerda, metálico, rugoso.
as montanhas recortando-se contra o céu
na pouca luz do fim do dia. eu sentia-me
bem, nada a dizer. ia sozinho no carro pela
estrada adiante e não ia a lugar nenhum, ia
apenas indo. e depois regressaria. conhecia
bem o caminho. até à saída onde está a ponte
sobre a auto-estrada. pensei em muita coisa.
nas mulheres que amei mas não soube amar,
na mulher que provavelmente comecei a amar
há pouco tempo. tive saudades de algumas
pessoas distantes, noutro continente. desterro,
a minha vida fabulosa. what the hell am i doing
here? gastei anos a aprender lições que não me
serão úteis a mim nem a ninguém. quando morrer,
porém, estarei mais perto da suprema sabedoria
dos ignorantes. agora limito-me a fumar um cigarro
na esplanada deserta de um café. a minha cabeça
não pára de pensar, de recordar, de avaliar. para
quê? às vezes, evidentemente, chego a conclusões
importantes. a poesia, por exemplo, para que
serve? tenho horror à poesia, acho-a obscena.
quero lá saber dos vossos estados de espírito e
das vossas opiniões, do vosso estilo insuportável
e das vossas brincadeiras infantis com as palavras.
não me aborreçam, tenho mais que fazer. estados
de espírito! achados estilísticos! é de morrer a rir.
que tédio. rilke sim, celan sim, mário-de-sá-carneiro,
pessoa ainda às vezes, cesário verde. a literatura
não é gratuita, as palavras e as frases pagam-se caro.
quem tem alguma coisa a dizer que o diga, em vez de
se engasgar perpetuamente em pedantices literárias.
eu sei, também passei por lá. em vez de amar, escrevi
poemas que falavam do amor. quando eu morrer quem
se interessará pelo que eu cá deixei? ninguém. as
pessoas têm a sua vida para viver, querem lá saber
da nossa. ó pátria em que penso sem ter realmente
saudades de ti. ó noite de inverno, ó desolação das
vidas sem paixões. ó música de rock no café, ó
esperança de ser amado até à loucura, para sempre.

Monday, February 19, 2007

obsessão

a imensidão do mundo. a ordem que o governa e que nos governa. tudo inventado? há organismos perfeitos cujo modo de funcionamento podemos admirar ou descrever mas que não sabemos, nunca poderemos reproduzir. a nossa capacidade de criar é muito limitada. os filhos que temos começam a crescer no corpo da mulher. mas nós que fizemos além de estremecer de prazer ou dor ao depor a poderosa semente? quem a dotou, sendo minúscula, de tanto saber, de tanto querer, de tanto futuro? quem a aperfeiçoou? a renovação da vida deve-nos o quê, deve-me o quê, a mim, que sou ignorante? como se elaboraram máquinas tão rigorosas, os olhos de um peixe, as veias por onde corre a seiva da árvore, o verde e o vermelho, o azul e o branco? nós não inventámos tudo. na verdade não inventámos nada, só falamos.

um dia começamos a entender que todas as aprendizagens tiveram como objectivo proteger-nos do remorso da ignorância, do perigo do caos, da perdição que nasce da ausência de sentido. sorrimos ironicamente. depois há esse momento em que, talvez para criar raízes e escapar à confusão, nos fixamos no rosto da desconhecida. no seu corpo, nos seus olhos. se ela nos viu, nos sorriu, nos ouviu, nos encorajou, habitar o mundo parece aceitável.

deixamos de proteger-nos, a paixão vai crescendo. se surgirem obstáculos, pensam que desistimos? podemos sofrer, mas persistimos. escolhi-te a ti, não foi por caso. comecei a amar-te, não penses que te vais embora, eu não deixo. à obsessão chamamos amor. até ver.

o tempo que passei a falar contigo, a ouvir-te, a olhar para ti, a descobrir-te. as horas que gastei a imaginar-te pensando que estava a conhecer-te. talvez estivesse. mas mais tarde posso descobrir que me enganei, que de ti não sei, nunca soube nada. tudo ilusão. tudo imaginação. criação minha. mas ao erro chamei amor.

pouco sabia de ti. falavas pouco. falavas como se eu te pertencesse, como se estivesse já decidido que me amavas. à mesa do restaurante eu ficava confuso. irrealidade. a mesa era longa de mais, tínhamos de esticar o braço para que as nossas mãos se tocassem. uma sala só para nós e a intimidade era impossível. mais um erro meu. não bastou o requinte. quando partimos não nos sentíamos mais sós? não tenho resposta. talvez esteja a exagerar. pouco sei de ti, do que tu queres, do que te preocupa. e tu de mim o que sabes?

conheces melhor do que eu o malentendido que se esconde no fervor aparente do desejo? conheces melhor do que eu a pouca distância que separa a terra firme do abismo? sabes que mentimos pensando que estamos a dizer a verdade? fico sozinho em casa a reflectir.

sei que em qualquer parte na cidade tu existes. lembro-me da tua cara, das tuas pernas. às vezes sei onde estás, o que tu pensas. a minha vida monótona tornou-se mais interessante. descobri que não sei nada do amor, que nunca soube. lembro-me de muitas vezes ter ficado parado, hesitante, decepcionando quem esperava por mim. não tinha tempo? não acreditava? não estive para me maçar? vivi a minha vida com medo de a destruir?

falas comigo como se eu te pertencesse. se eu digo que é necessário admitir que podemos desencontrar-nos tu ficas preocupada, perguntas-me porquê. se eu te entendesse. não és tu quem está a ensinar-me a ser paciente, a não ir depressa demais para que tu possas acompanhar-me?

não devias preocupar-te. eu não te abandono, não vou desistir. tardei em descobrir-te. ou pelo menos em dar-me conta. mas escolhi-te, não? agora quero saber, quero aprender. deste caminho não saio. deste desejo não saio. pode demorar muito ou pouco. à minha teimosia chama amor ou chama obsessão, o que tu quiseres. eu não tenho medo de nada. estou tranquilo como uma pedra no meio das águas por vezes agitadas do rio.

não me ponho a inventar. para quê? a máquina do corpo trabalha e eu não sou maquinista. a perfeição do que acontece é inexplicável. nós muitas vezes queremos estragar, desregular, destruir. às vezes conseguimos. mas a perfeição minuciosa das máquinas sobrevive a todos os nossos erros, a todas as nossas conspirações. chama-lhe amor. chama-lhe obsessão. o que quiseres.

authority

When a speaker avers that he has a belief, hope, desire or intention, there is a presumption that he is not mistaken, a presumption that does not attach to his ascriptions of similar mental states to others. Why should there be this asymmetry between attributions and attitudes to our present selves and attributions of the same attitudes to other selves? What accounts for the authority accorded first person present tense claims of this sort, and denied second or third person claims? (...) Error is possible; so is doubt. So we do not always have indubitable or certain knowledge of our own attitudes. Nor are our claims about our own attitudes incorrigible. It is possible for the evidence available to others to overthrow self-judgements.

Donald Davidson, "First person authority"

Sunday, February 18, 2007

Apparition

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Ce fut comme une apparition :
Elle était assise, au milieu du banc, toute seule; ou du moins il ne distingua personne, dans l'éblouissement que lui envoyèrent ses yeux. En même temps qu'il passait, elle levait la tête; il fléchit involontairement les épaules; et, quand il se fut mis plus loin, du même côté, il la regarda.
Elle avait un large chapeau de paille, avec des rubans roses qui palpitaient au vent, derrière elle. Ses bandeaux noirs, contournant la pointe de ses grands sourcils, descendaient très bas et semblaient presser amoureusement l'ovale de sa figure. Sa robe de mousseline claire, tachetée de petits pois, se répandait à plis nombreux. Elle était en train de broder quelque chose; et son nez droit, son menton, toute sa personne se découpait sur le fond de l'air bleu.
Comme elle gardait la même attitude, il fit plusieurs tours de droite et de gauche pour dissimuler sa manoeuvre; puis il se planta tout près de son ombrelle, posée contre le banc, et il affectait d'observer une chaloupe sur la rivière.
Jamais il n'avait vu cette splendeur de sa peau brune, la séduction de sa taille, ni cette finesse des doigts que la lumière traversait. Il considérait son panier à ouvrage avec ébahissement, comme une chose extraordinaire. Quels étaient son nom, sa demeure, sa vie, son passé? Il souhaitait connaître les meubles de sa chambre, toutes les robes qu'elle avait portées, les gens qu'elle fréquentait; et le désir de la possession physique même disparaissait sous une envie plus profonde, dans une curiosité douloureuse qui n'avait pas de limites.

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Flaubert, L’ Éducation Sentimentale

Saturday, February 17, 2007

parado

não entender nada mas isso não impede de falar talvez o vício a tentação o projecto o medo do vazio recomeçamos a procura das pedras para construir a casa talvez seja isso não compreender deixa-nos desolados à beira de todas as tristezas e então escrevemos pensamos as frases sucedem-se e as perguntas e as imprecações e os lamentos mas não chegam a ser palavras as dores que mais nos magoam nem frases os remorsos que nos deixam mais sós e entendemos que por haver morte ter perdido a oportunidade de amar por exemplo é imperdoável eu ia subindo as colinas caminhando nas veredas descendo da montanha mas por onde andasse iam comigo às minhas costas no meu peito o sentimento de culpa a pena a responsabilidade de ter desaproveitado o tempo e os sentimentos não havia palavras que pudessem dizer o que sentia não havia quem as ouvisse ou compreendesse não andaste comigo à beira daquele rio não estiveste comigo em mil lugares mesmo quando parecia que estavas não estavas de tudo te ausentaste eu tinha-te levado comigo para estares lá para veres para falares para aprendermos para gostarmos e tu deixaste-me só no meu álbum de recordações completamente só nunca entendeste como é possível como foi possível não respondes porque eu não te pergunto a minha voz não chega a sair da garganta ou as palavras ficam perdidas no sangue congeladas na língua se eu pudesse falar se tu pudesses ouvir sei que a tristeza nunca mais terá fim e não odeio nem amaldiçoo aceito a incompreensão a ingratidão o malentendido que me deixou na berma de todas as estradas como um foragido sem língua em que contar ou queixar-se sem pátria a que poder regressar sem paraíso com que sonhar.

parado no lugar escondido resguardado dos olhos de quem passasse sentei-me numa pedra à sombra de uma árvore vieram-me as lágrimas aos olhos não sabia aonde ir de onde vinha não havia pensamentos para entender o que era estar ali o que ocorria também não me apetecia ir a lugar nenhum podia ter parado noutro sítio e ter ficado lá até que o meu corpo definhasse e começasse a desagregar-se poderia ter ficado em casa a entristecer-me na cama a perguntar-me por que razão esperamos pela morte se já sabemos que do amor e da pena do prazer e da dor não ficarão resíduos nem frutos nem sementes nem a memória o poço do tempo engole tudo para quê adiar então que ganhamos com isso mas a esperança de resolver o enigma de continuar a beber a comer a cheirar a ver não é fácil renunciar ao pouco que nos foi oferecido.

eu lembrava-me como tinha sido fácil passar ao lado das casas sem as ver ao lado dos rios sem os ver e não entendia para que nos servem os olhos onde estava a atenção há quem não saiba ouvir nem ver e provoque a confusão e o desespero no coração de outras pessoas há quem se passeie pela vida como se ela fosse a margem ajardinada do rio como se ela fosse eternamente o recreio do jardim de infância eu sei pode ser o medo a fazer-nos cantar e dançar e sorrir eu sei e não vi mais provavelmente do que ninguém não soube ver melhor.



Friday, February 16, 2007

curioso

curioso como a ausência de resposta
faz crescer até limites insuportáveis
a solidão daquele que falou daquele
que usa as palavras como se elas não
tivessem o poder de como lâminas
entrar pela carne invisível do espírito
daquele que usa as palavras as frases
como se elas e o que elas dizem fossem
apenas literatura nada de importante
nada para ser levado a sério vício vão

realmente curioso como bruscamente
se afasta de nós magoada aquela que
nós queríamos beijar e abraçar o amor
é uma arte difícil a única arte talvez
que merece o sagrado nome de sublime

não havia razão para tanta inquietação
nem há razão para tanta ansiedade mas
como viver no corpo dos outros como
convencer quem nos ama da nossa fé e
mais sincera vontade de amar ser amado

e então a porta do carro abre-se e ela diz
até amanhã obrigado pelo jantar depois
telefono-te e tu dizes não me dás um beijo
e ela diz noutra ocasião e vês que ela se
afasta cheia de nuvens na cabeça sem sorrir
os olhos no chão como se fosse necessário
meu deus como se fosse necessário ainda
perder passos e horas nos desvios veredas
do desentendimento como se fosse preciso

eu sei eu disse que a nossa maior ambição
é sempre destruir o amor destruir aquela
ou aquele que amamos para que enfim livres
dela ou dele o espírito possa reencontrar a
paz interrompida de acordo eu disse isso e
esqueci-me de dizer que o amor que resiste
a esse ataque traiçoeiro é o único que merece
ser considerado amor verdadeiro mas seria
motivo para te calares ao meu lado no carro

também disseste que eu falava sobretudo de
mim mesmo não tinha interesse em conhecer
a tua vida e disseste que eu te interrompia
quando tu começavas a falar de ti e eu senti
vergonha de mim porque sabia que tu tinhas
razão mas também te expliquei que não queria
intrometer-me demasiado na tua vida que tu
podias pensar que eu estava a investigar o teu
passado e já não sei porque me perguntaste se
era importante eu saber com quantos homens
tinhas dormido eu disse que não que era uma
pergunta absurda nem sequer me interessa
disse eu descuidadamente ouvir-te falar
daqueles que amaste no passado meu deus
tu complicas tudo e depois eu não sei onde
está o erro fico perdido quando foi que eu
disse o que não devia ter dito quando foi
que o teu rosto se fechou e deixei de merecer
os beijos da despedida aqueles que me devias
dar antes de abrires a porta do carro e saíres
disparada infeliz pensativa para a tua solidão

Thursday, February 15, 2007

body language

difícil resistir ao interesse que alguém parece ter por nós terem-nos visto quando há tanta gente para ver merece gratidão eu estava sentada no café os óculos escuros pendurados no vértice da camisola preta puxando-a um pouco para baixo o que deixava os seios mais visíveis e se eu mexia um pouco os dois ombros para dentro ao mesmo tempo os seios tocavam-se eu sentia-os encostados ternamente um ao outro tinha-o visto entrar e sentar-se a uma mesa mais à frente mais perto do balcão dos bolos ele olhava para mim com interesse eu estava meio virada para ele quem soubesse alguma coisa de body language podia entender que havia de facto uma abertura da minha parte eu estava curiosa só que seria necessário acontecer qualquer coisa um pretexto convincente para falarmos ele comia um bolo e tinha um copo de café com leite na frente de onde ia bebendo eu sabia que ele me olhava o rosto oa seios as pernas o que ele não sabia era que eu estava ali abandonada a mim própria ao meu tédio evidentemente distraía-me dava-me prazer merecer a atenção dele era um homem mais velho parecia um tipo sério maduro aí dos seus quarenta e tal de barba um pouco esbranquiçada eu observava-o discretamente como ele me observava a mim quantas vezes se repetem nos cafés nos restaurantes nos cinemas cenas semelhantes as pessoas sentem-se atraídas por outras pessoas mas na maior parte dos casos não se falam nunca chegam a conhecer-se entretanto ali no café eu distraía-me de mim mesma no olhar de um desconhecido sem fazer nada para o conhecer porque uma mulher não se põe a falar com um homem que não conhece sem ter razão para isso sem haver ocasionalmente um pretexto para se ter iniciado uma conversa.

que cara bonita que maminhas jovens que sorriso o cabelo atado deixava ver a nuca eu estava a tomar o pequeno-almoço tardiamente ela era encantadora mas como conhecê-la sempre o mesmo problema havia entre nós a distância de três ou quatro mesas eu não podia pôr-me a fazer sinais cá de longe seria ridículo podia sorrir é certo e ver se ela me sorria também podia procurar os seus olhos e ver se não fugiam dos meus mas entretanto não fiz nada fui tomando o café com leite e comendo o bolo de arroz ela parecia-me eu imaginava-a uma mulher interessante séria alguém com quem eventualmente se poderia ter uma relação que fosse além da cama contraditoriamente comecei a despi-la ela nua com as suas formas discretas devia ser muito interessante distraí-me enquanto ia comendo o bolo e bebendo o café com leite a dar-lhe beijos na boca a morder-lhe na orelha a acariciar-lhe os seios e as pernas ela abandonava-se beijava-me atentamente e sofregamente e depois depois bom o melhor era eu concentrar-me no café com leite deixar-me de erotismos mentais.


quando ele saiu passou perto da mesa dela e subitamente parou não sabia o que ia dizer mas tinha de dizer alguma coisa não queria ser ridículo nem aborrecido perguntou-lhe estupidamente se lhe podia oferecer um café ela olhou para ele com ar de o achar ridículo então ele sentou-se e ficou calado a olhar para ela e ela olhava para ele à espera cada um deles desempenhava bem o seu papel ele o invasor sem vergonha ela a invadida a não lhe dar razões para pensar que era assim tão simples estabelecer uma relação com ela então ele falou não sei que dizer estou envergonhado a verdade é que não tenho nada a dizer queria conhecê-la e pronto falar consigo estou cheio de curiosidade a seu respeito se quiser eu vou-me embora já não a aborreço repetir-lhe as banalidades que deve estar farta de ouvir sobre a sua beleza encanto sorriso olhos é que está acima das minhas possibilidades não espere isso de mim não neste momento em que há coisas mais importantes a dizer e que as pessoas desperdiçam com leviandade ela não disse nada olhava apenas para ele depois perguntou-lhe se eu lhe disser que estou à espera do meu marido ou do meu namorado o que é que você acha o que é que me diz ele levantou-se imediatamente para se ir embora mas ela pôs-lhe a mão no braço e disse deixe-se estar temos ainda algum tempo.

não havia marido nem namorado havia apenas uma solidão semelhante à sua. tinham tanto a dizer um ao outro. encontravam-se três vezes por semana no início e ao fim de quinze dias encontravam-se diariamente às vezes iam jantar a um restaurante iam falando mas protegiam-se receavam estar a entregar-se de mais o que estava a acontecer podia ser o princípio de uma paixão de um amor que tinha possibilidades de se prolongar ou podia ser apenas um malentendido e como saber só o tempo a experiência permitiriam avaliar a situação de maneira mais acertada por isso eram prudentes embora fossem afectuosos e atentos sem terem abordado essa questão ambos pareciam seguir os mesmos princípios talvez feridos ou educados cada um deles por experiências anteriores semelhantes.

se era malentendido já se tinha prolongado pois há três meses que se conheciam e agora passavam muito tempo juntos. mas cada um vivia na sua casa nenhum deles tinha ainda ido a casa do outro tinham falado nisso e decidido adiar não ter pressa ela achava por exemplo que ir para a cama com ele não era o mais importante ele às vezes pensava que já deviam ter ido mais longe e dormido juntos mas também não se inquietava a questão do sexo não lhe parecia de facto a mais importante por enquanto. andavam a pé na rua sentavam-se nos cafés iam às livrarias da baixa faziam-se companhia beijavam-se abraçavam-se habituavam-se um ao outro lentamente sem obedecerem a um programa previsto e era como se não tivessem pressa de chegar a lugar nenhum nem entusiasmo o tempo corria tranquilamente.

e então uma noite ela faltou ao encontro telefonou a dizer que lhe doía a cabeça que ficava em casa. ele ficou preocupado e triste mas não duvidou dela. no dia seguinte ela ainda não estava bem. não se viram durante quatro dias ele não sabia que pensar podia acontecer que subitamente ela tivesse percebido que ele não lhe interessava que não iria nunca gostar dele amá-lo. disse-lhe isso mesmo ao telefone falou-lhe da sua inquietação mas ela desviou a conversa disse que ainda estava doente não lhe apetecia entrar em explicações cansativas não havia razão além disso. ele começou a dormir mal. mas depois de quatro dias de ausência ela reapareceu e ele ao vê-la ficou excitado encantado feliz inquieto nervoso achou-a bonita mais bonita do que nunca. ela sorriu de prazer quando ele lhe disse isso e pegou-lhe na mão com ternura. e recomeçaram os dias felizes com encontros à tarde e à noite jantares no restaurante idas ao cinema.

depois ao fim da tarde de uma sexta-feira decidiram ir jantar a cascais e durante o jantar ela perguntou o que é a nossa relação por que razão precisamos de nos ver por que razão ver-me te dá prazer ver-te me dá prazer daqui a não sei quanto tempo morremos em que é que a nossa relação modifica a nossa morte ou antes a nossa vida a caminho da morte se é que estas perguntas têm sentido. ele bebeu vinho branco do copo e depois perguntou-lhe se ela o amava nunca tinham pronunciado essa palavra ele às vezes preocupava-se com isso. ela não respondeu. ele disse eu creio que te amo e baixou a cabeça porque ela não disse nada ficou calada a pensar depois ela murmurou que importa o nome que damos às relações nós conhecemo-nos o suficiente somos suficientemente lúcidos para perceber que não necessitamos de estabelecer fronteiras com rótulos para nos assegurarmos de que estamos dentro do nosso país exclusivo no qual as outras pessoas não podem entrar como nós entramos. chamamos-lhe amor? não sei se é amor ou se o vai ser mais tarde não sei confesso que não sei sinto-me bem contigo é tudo o que eu sei não tenho nenhuma relação com ninguém que se assemelhe de perto ou de longe à nossa os outros estão de certo modo excluídos desta espécie de intimidade que são os nossos encontros as nossas conversas alguma ternura dispersa a materializar-se em beijos e nas mãos que se procuram. pausa breve. pouco depois ela continuou: será aquilo que nós sentimos amor o que eu sinto será amor? ele ouvia-a calado estava cansado não lhe apetecia filosofar ela tinha razão ele estava de acordo com ela mas o jantar tinha sido excelente o vinho branco e o vinho tinto bem escolhidos no mar à direita deles brilhava uma lua simpática para quê complicar as coisas mas a verdade é que ele também entrara na conversa perguntara-lhe se ela o amava e olhava para os lábios dela apetecia-lhe beijá-la devagarinho. ela disse nunca senti pessoalmente a intensidade de uma grande paixão como se vê nos filmes ou nos livros nunca me abracei a ninguém em silêncio sentindo-me protegida abandonando-me completamente escapando-me para um lugar que pressinto que existe onde a alegria uma intensa alegria e uma grande dor ao mesmo tempo tomariam conta de mim só no cinema só a ler é que tenho é que já tive o pressentimento desses momentos excepcionais talvez divinos talvez de loucura momentânea meu deus como deve ser bom eu não me recordo de alguma vez ter perdido a consciência de ter os pés no chão. ele não dizia nada mas tinha parado de comer e olhava atentamente para ela para os olhos dela para os seios dela viam-se os biquinhos na camisola fina de algodão ele estremecia por dentro não sabia se era medo se era decepção se era outro sentimento ou até cansaço o que ela dizia não lhe parecia muito entusiasmante muito optimista as relações deles provavelmente não eram o que ambos tinham esperado nenhum deles conseguira ainda interessar o outro suficientemente na sua própria personalidade na sua pessoa nas suas histórias nos seus problemas coisas sempre tão privadas. ela acabou de falar e voltou às batatas fritas e ao bife. ele sentia-se confuso e ia bebericando o vinho tinto.


quando já iam no café ele disse que ao ouvi-la falar tinha ficado triste e um pouco perplexo mas que depois de pensar um pouco e para ser totalmente honesto também ele seria incapaz de dizer se a relação deles era aquilo a que as pessoas chamam amor aquela emoção intensa prazer e dor ao mesmo tempo que se vê em alguns filmes como ela dizia também ele conhecia o desamparo a solidão o tédio às vezes chegava a casa sentava-se num sofá e a vida parecia-lhe absurda para que patrão é que eu trabalho que garantias é que me deram para ter-me convencido a levantar-me todas os dias a acreditar no que acredito quando eu morrer não sinto nada porque deixei de existir serei como uma árvore que secou e que já só serve para queimar na lareira nas noites de inverno portanto não me vão fazer falta as paixões os prazeres da vida nem me vai fazer falta nada do que existe neste mundo claro imagino ilusoriamente que me ficarão as saudades dos rostos puros das raparigas dos seus corpos graciosos e nervosos suaves e belos frescos como a aurora mas paciência quem não existe não vê não sente não tem desejos nem remorsos nem memórias não lhe falta nada e nesse caso por que razão não morrer já a solidão em que nós vivemos é terrível cada um de nós vive na sua ilha incomunicável as compensações que nos são dadas o amor a paixão a arte a natureza o sexo o sucesso será que bastam. agora era ela que parecia curiosa acendera um cigarro e olhava-o ele sabia-o via a sua camisola branca o seu meio sorriso os seus olhos atentos era para aí que ele enviava as palavras e o olhar apesar de tudo o que acabo de dizer acrescentou ele seria muito infeliz se deixasse de te ver e tenho de confessar que a tristeza a pena a decepção as dificuldades da vida como se diz me são agradáveis pode parecer paradoxal mas o facto de eu sentir de eu pensar de eu duvidar de me interrogar de me enganar de me queixar de sofrer de ter que me impor disciplina são já em si independentemente das recompensas que receber um parte muito importante do prazer que eu tenho em estar vivo talvez viver tenha a ver mais com o sofrimento e as dificuldades do que com os prazeres as vitórias os sucessos.

enquanto ela conduzia de regresso a lisboa pela beira-mar continuaram a conversa. ela dizia por que razão é que ainda não fizemos amor não percebo e ele disse porque tu não quiseste e eu não insisti aparentemente pelo menos são essas as razões mas na realidade se fosse tão importante e ela interrompeu-o e disse deixámos de ser animais transformámo-nos em não sei que monstro a nossa cabeça o nosso sistema nervoso devem ter tomado conta do organismo e vencido começado a controlar o que havia em nós de selvagem de espontâneo de irreflectido e deve ser por isso porque ir para a cama com alguém mesmo quando há a veemência do desejo e tudo corre bem não resolve o problema da nossa solidão a dado momento interrogamo-nos se vale realmente a pena dar-se ao trabalho de iniciar uma relação. e nem falo já continuou ela dos casos em que a gente evita envolver-se sexualmente com uma pessoa só para evitar futuros aborrecimentos chatices problemas às vezes cometem-se erros há gente insuportável. ele não dizia nada as palavras dela eram uma música com a qual ele concordava que lhe dava prazer ouvir mas entretanto pôs a mão esquerda entre as pernas nuas dela e começou a acariciá-la foi indo devagarinho suavemente por aí acima subiu-lhe o vestido para poder ver o que estava a tocar aproximou-se dela beijou-a no pescoço ela estremeceu tinha-se calado ia de olhos fixos na estrada mas ele sabia ele sentia que também nela no corpo dela o desejo finalmente pudera aparecer. ela estacionou o carro à beira-mar perto da praia da torre e então abraçaram-se com uma violência selvagem com uma sofreguidão de famintos com uma ternura de deserdados expulsos do paraíso. fizeram amor pela primeira vez e depois abriram as janelas do carro acenderam um cigarro e ficaram a saborear em silêncio o ar frio que vinha do oceano ela com a cabeça deitada no seu ombro ele recostado no assento do carro com a mão fechada na dela.

Tuesday, February 13, 2007

What word?

(I know you: you're the one who's bent so low.
You hold me - I'm the riddled one - in bondage.
What word could burn as witness for us two?
You're my reality. I'm your mirage.)


Paul Celan

Thursday, February 08, 2007

husband

... he was a husband like any other, and i didn't pay much attention to ho him...

Vladimir Nabokov, The Eye

Tuesday, February 06, 2007

em vez de

eu posso escrever qualquer coisa acerca de qualquer
coisa
em vez de fazer qualquer coisa em vez de
qualquer coisa
e quando deus no fim contabilizar
tudo o que eu produzi
talvez lhe interessem algumas
das coisas que eu disse e
algumas das coisas que eu fiz
talvez deus ponha ao seu
lado esquerdo aquilo que lhe
parece ter valor e ao seu
lado direito o que lhe parece
ter sido pura perda de tempo desvio da vocação erro

inutilidades coisa sem interesse. mas como saber o que
agrada a deus? eu não acredito no diabo evidentemente
para mim deus é um ditador absoluto que não tem de
dar contas a ninguém dos seus actos das suas decisões
dos seus juízos de valor dos seus afectos das suas opiniões
era o que faltava e aqueles que inventaram o diabo estavam
a brincar connosco evidentemente mas os que inventaram
deus
nem por isso estavam menos a brincar connosco temos
de
reconhecer quando a vida é insuportável é bom acreditar
no paraíso quando os esfomeados ou os preguiçosos
ameaçam os que têm todo o conforto e riqueza é bom
que deus funcione como policia e juiz severo. enfim
já se entendeu a lógica do meu raciocínio não vou por
isso cansar-me a explicar melhor nem a tocar
em todos
os aspectos da questão o meu problema
neste momento
era apenas o de saber se valia a pena
realmente escrever
alguma coisa ainda que sem grande
convicção só para
não ficar aqui em silêncio inerte a pensar
em quem está
ausente em quem me apetece ver e não posso
naquela
curiosíssima rapariga que escreve histórias espantosas

a falar de homens que a beijam e me deixa morto de ciúmes

degraus

“When I sat down on this chair, of course I believed it would
bear me. I had no thought of its possibly collapsing.”


Wittgenstein




aparentemente tudo decorre como previsto. eu ponho o pé direito no degrau, depois o esquerdo. e vou subindo os degraus um a um, distraído do que fazem os meus pés e as minhas pernas. quando chego ao cimo vejo-as sentadas num banco de madeira, de pernas cruzadas, a conversar. as minhas pernas param, mas logo a seguir a minha cabeça decide que elas não deviam ter parado e elas movem-se, um pé segue o outro pé. cortei à esquerda mas podia ter cortado à direita. creio que me deixei perturbar pelas pernas nuas da mais jovem, a que estava de saia de veludo cor de laranja. memórias, emoções, não devia surpreender-me. a outra estava de calças pretas de seda e eu não a conhecia. depois de ter dado uns dez passos parei, olhei para o bico dos meus sapatos, cocei a cabeça e voltei para trás. não sei se alguém me olhava, mas eu comportava-me como se estivesse a ser observado. quando voltei a passar diante delas fiz um esforço, passei como se não as tivesse visto, como se elas não despertassem, ali naquele sítio, a atenção de quem passava. fui até ao fundo do hall e parei diante de uma janela. estávamos no quarto andar, lá em baixo havia jardins. não havia nada de particular a descobrir, mas se eu não fizesse de conta que estava ocupado com qualquer coisa ter-me-ia sentido mal. podiam estar a observar-me e a interrogar-se sobre a minha presença no edifício ou até sobre a minha pessoa. também tinha ficado combinado que seria ela a vir ter comigo quando me visse.


fiquei ali uns minutos à janela a olhar para o jardim e então ela aproximou-se e perguntou-me se eu não seria o homem de quem ela estava à espera. eu não a via há uns oito meses e achei que a sua maneira de reatar a conversa era curiosa. achei-a um pouco mais magra, mas gostei de a ver. gostei mesmo muito de a ver e ela deve ter percebido porque logo a seguir pegou-me no braço e sem dizer nada levou-me com ela até ao cimo das escadas. a das calças pretas tinha desaparecido. sempre agarrada ao meu braço e em silêncio ela começou a descer as escadas. porque não vamos de elevador, perguntei eu. ela não me respondeu e continuámos a descer escadas até que chegámos ao rés-do-chão. a seguir saímos do edifício e já na rua ela mandou parar um táxi. aonde é que vamos, perguntei eu. ela não respondeu e eu não me importei com isso. a companhia dela agradava-me, uma mistura de mel com vinagre, de prazer com amargura. eu tinha esperado com ansiedade por este reencontro. o que podia acontecer era imprevisível. logo se via. quando chegámos a covent garden ela mandou parar o táxi, pagou. depois levou-me por ruas estreitas até à pastelaria francesa onde quando eu ainda estava em londres íamos nas quintas-feiras tomar chá. o silêncio dela e o meu começavam a divertir-me. mas confesso que me deu jeito. entrámos, sentámo-nos, ela pediu chá para mim e para ela. depois pôs as mãos cruzadas em cima da mesa e sem sorrir chamou-me patife. desapareceste sem me dizer nada, nunca te dignaste escrever nem telefonar, é inadmissível. agora decidiste ressuscitar. não sei por onde andaste nem o que fizeste. tu também não sabes onde eu estive nem o que eu fiz durante estes oito meses. deve estar bem assim, não há razão para repreensões nem para queixas. eu não sabia que dizer. não me apetecia falar do passado. sem me irritar, disse-lhe: temos tempo mais tarde de falar nisso. peguei-lhe na mão: se eu disser que estou feliz por te ver, emocionado por estar aqui de novo contigo, basta-te? uma das meninas da pastelaria estava a pôr o bule do chá e as chávenas na mesa e eu tive de tirar a minha mão da dela. quando a menina terminou e se afastou eu voltei a pegar-lhe na mão e perguntei-lhe se tinha ouvido o que eu tinha dito. ela disse que tinha ouvido muito bem porque não era surda, mas que as coisas não eram certamente tão simples como eu imaginava. fui tomando o chá. entretanto voltei a sugerir: deixamos as conversas sérias para mais tarde, agora podíamos só olhar um para o outro, se estiveres de acordo. ela não respondeu nem sorriu, deixou apenas de olhar para mim.



ver não é saber nem conhecer. por detrás do rosto que nós reconhecemos esconde-se o mistério. o que é que eu sabia dela? ela própria, o que é que sabia de si? o mesmo poderia ser perguntado a meu respeito exactamente da mesma maneira, o que torna a questão muito interessante. a primeira vez que olhei para ela, há quase três anos, pensei o quê? fiquei a conhecer quem? devo ter pensado que ela merecia atenção. tive curiosidade, dei-lhe atenção. depois, entre duas portas, no hotel onde estávamos os dois, os nossos olhos cruzaram-se. mais tarde, no bar do hotel, reconhecemo-nos. perguntei-lhe se me deixava sentar à mesa dela, ela olhou para mim, hesitou, disse que sim. mas acrescentou: estou à espera do meu namorado. foi a minha vez de hesitar. mas sentei-me. falámos. ela tinha um livro em cima da mesa, pedi-lhe para ver o que era. humilhados e ofendidos, dostoievski. eu disse hmmm. porquê hmm, perguntou ela. por nada, disse eu. nunca li, mas imagino que não será leitura amena. ela olhou-me com ar de quem se estava a perguntar se eu era estúpido ou estava apenas a fazer de conta. eu não disse nada, estava à espera que chegasse o namorado dela. chegou mais tarde. não se espantou por vê-la sentada com outra pessoa. disse olá e sentou-se. conversaram ternamente, beijaram-se discretamente, estavam tranquilos. eram os dois bonitos e estavam bem vestidos. entretanto eu acabei o meu whisky, levantei-me e fui-me embora. claro, disse muito prazer e obrigado antes de me afastar.

no dia seguinte encontrei-a na piscina do hotel. ela estava só e viu-me. fui sentar-me ao seu lado. passámos a manhã a namorar discretamente, com o ar mais inocente deste mundo. as pernas dela fascinavam-me. o olhar dela perturbava-me, excitava-me. além disso a voz dela, um pouco grave mas feminina, entrava por mim a dentro de tal maneira que o meu estômago estremecia. perguntei-lhe pelo namorado ela respondeu-me que ele era engenheiro electrónico e que se tinham conhecido há dois anos. não perguntei mais nada e ela também não acrescentou mais nada. eu já estava há algum tempo, sem me dar conta disso, a imaginá-la nos meus braços e a dar-lhe beijos no pescoço. a pele dela devia ser quente e macia. apostei comigo que dada a maneira como tudo se estava a passar antes de chegar a hora do jantar estaríamos na cama dela ou na minha. não me enganei.

vivemos dois anos juntos. ainda hoje não sei se ela era uma mulher interessante ou se o que nos ligou foi apenas a curiosidade e algumas afinidades de temperamento. ou terão sido as nossas brigas? ou foi um malentendido? eu gostava da sua elegância discreta, da sua doçura, da ternura despropositada e infantil que lhe merecia. mas as nossas relações só foram tranquilas durante três meses. ao fim de três meses ela começou a queixar-se, a exigir, aborrecia-se. achava que eu não lhe prestava atenção, que a tratava como se ela fosse uma boneca de borracha com quem dormia de vez em quando. achei a comparação divertida. uma manhã de sábado, enraivecida, atirou-me com um sapato. eu queria dormir e ela queria ir passear. tinha alguma razão, eu passava muitas horas diante do computador em vez de lhe fazer companhia e de me deitar quando ela se deitava. hoje tenho muitos remorsos da minha superficialidade, de não lhe ter prestado a atenção que ela merecia, de não a ter valorizado como devia. e sobretudo lamento não ter percebido que ela era uma criança meio torturada e meio caprichosa.


os meus remorsos, evidentemente, só abrangem os dois anos das nossas relações. a mulher em que ela se transformou posteriormente deixou de me interessar. esses dois anos não foram fáceis. ela falava de assuntos que me não interessavam e falava de mais. tinha uma obsessãozinha com roupas e sapatos, estava convencida de que ela é que tinha bom gosto em tudo. mas as coisas entre nós não estavam tão mal como ela mais tarde pretendeu, eu gostava dela. sem me prevenir, porém, ofendida por eu lhe dizer que fosse viver uns tempos com uma amiga chinesa ou japonesa que às vezes vinha lá a casa, ela desapareceu um sábado à tarde para ir viver com um tipo que tinha conhecido na national gallery. portou-se muito mal comigo. estávamos juntos há um ano, eu merecia outra forma de tratamento. fiquei furioso e infeliz. mas ela fartou-se depressa do pintor e voltou a casa ao fim de dez dias. não me apetece alongar-me em grandes explicações. os dois anos que duraram as nossas acidentadas relações e o seus múltiplos malentendidos terminaram quando ela, que nesse momento andava comigo pelas salas da national gallery, reencontrou o pintor. eu dei-me logo conta dos modos submissos com que ela lhe falava, da admiração com que o olhava. e não foi necessário grande esforço à minha inteligência para concluir que o meu tempo com ela tinha passado. compreendi isso e entendi que não me apetecia continuar a aborrecer-me em londres, precisava de outras paisagens. fiz as malas, deixei o apartamento que tinha alugado, fui para lisboa. e tentei esquecê-la. houve uma noite ou duas em que me senti tão só, tão triste, que saí de casa à meia-noite e fui a um bar à procura de uma mulher. encontrei logo uma menina brasileira de cabelos longos e sedosos com quem fiquei a conversar e a beber whisky. o vinho que eu já tinha bebido ao jantar e os dois whiskies que acabava de beber não me permitiram corresponder como gostaria ao carinho e à contemplação da beleza da menina. mas ela foi simpática, teve paciência, acabou por levar o barco aos solavancos até ao porto. o barco chegou em condições precárias, sem fanfarras nem foguetes. eu não consegui nunca esquecer-me da outra e imagens do corpo, expressões do rosto dela misturavam-se às minhas carícias esforçadas mas pouco convincentes ao corpo da brasileira, que era perfeito. perfeito, jovem, mas não conseguiu, apesar de bem real,sobrepor-se às minhas recordações. prova de que o amor, como eu já sabia, é de facto coisa mental.

relendo alguns dos meus cadernos no apartamento de lisboa chocou-me a quantidade de páginas que eu tinha dedicado às nossas relações. dúvidas, complicações, suspeitas de mentiras, insatisfação, revolta, queixas do mau feitio dela eram frequentes. várias vezes, nesses dois anos que durara o nosso convívio, eu escrevera de maneira clara nas páginas do meu diário que a minha relação com ela era absurda, um malentendido. ela não sabia o que era amar. várias vezes decidi e escrevi que, para salvaguardar a minha saúde mental ou o que dela me ia restando, tinha de separar-me dela, deixar de a ver. mas depois vinham as páginas em que eu me desdizia, em que admitia que tinha exagerado na severidade das minhas críticas, que a julgara injustamente. e assim foram passando os dois anos, entre o êxtase, a excitação, a irritação, a insatisfação, as suspeitas, o prazer, o tédio, a dúvida e a minha crescente convicção de que apesar de continuarmos muito ligados um ao outro as nossas relações eram um desastre. para as salvar seria preciso fazer qualquer coisa. mas faltou-me a paciência para dar ao assunto a atenção que ele merecia e faltou-me o talento para me entregar a essa reconstrução. sempre achei que a amava, mesmo quando ela me irritava. mas ela cada vez mais me parecia sofrer de bipolaridade, alternava a ternura exagerada com atitudes agressivas de menina mimada. não me tratava com consideração, não me tratava bem. eu não tinha solução para os problemas que a relação com ela constantemente me levantava. o bom senso obrigava-me também a reconhecer, por muito que isso me doesse, que uma mulher que impulsivamente me deixara ao fim de dois meses, sem sequer me avisar, para ir viver com um tipo que encontrara na national gallery, não merecia ser tida em grande consideração. ela voltou pela segunda vez aos braços do seu pintor e eu, como já disse, parti para lisboa furioso e desagradado comigo por tê-la aturado durante tanto tempo.

que vinha agora fazer a londres, então? mudara de ideias, começara a acreditar de novo que a relação com ela era possível? tinha saudades dela e concluíra que afinal nenhum amor é perfeito? apesar das nossas disputas e do seu comportamento incerto, tinha saudades dela, reconheço. apeteceu-me vê-la. telefonei-lhe e vim, sem me preocupar sequer em saber qual era a sua vida actual, se continuava a viver com o aspirante a pintor ou se vivia com outra pessoa. esse primeiro encontro no museu da ciência e da tecnologia levara-nos a covent garden. de covent garden fomos para o meu hotel em belgrave square e fizemos amor. a seguir fomos jantar ao entreprise. não falámos do passado nem do futuro. levei-a à meia-noite aos subúrbios de londres, onde ela morava numa casa com jardim, perto de uma escola secundária que se não erro se chamava st. francis. ficou combinado que nos veríamos no dia seguinte para almoçar. já tinha entendido que ela trabalhava numa galeria de pintura em south kensington e marcámos encontro para o ricardo’s, um restaurante italiano onde antes íamos jantar com frequência.


ela chegou elegante, sorridente, decotada. e depressa percebi que não mudara nada. a mesma alternância de ternura infantil e de mau humor. mas eu estava encantado. peguei-lhe na mão, ela não a retirou. perguntei-lhe se tinha sentido saudades minhas, disse-me que nunca me tinha esquecido, que eu havia de ser sempre o seu menino preferido. perguntei-lhe se queria jantar comigo, respondeu-me que não podia porque tinha um namorado e não era boa educação deixá-lo duas noites seguidas sozinho. pensei que tinha ouvido mal, mas não lhe pedi para repetir. ela não mudara, definitivamente não mudara. tu tens um namorado, perguntei-lhe. oh, é o mesmo, o pintor. mas não o amas, insisti eu. claro que sim, protestou ela. e riu-se. mas tu fizeste amor comigo ontem, disse eu timidamente. qual é o problema, respondeu ela, não fizemos já amor tantas vezes antes? e acrescentou: sexo é sexo, amor é amor, são coisas distintas, já cheguei a essa conclusão. arrisquei–me a perguntar: e eu para ti, sou sexo ou sou amor? tu? pegou-me na mão e ficou a olhar para o tecto do restaurante. acho que contigo é sexo e amor ao mesmo tempo. mas creio que é sobretudo amor, um amor antigo a que se volta de vez em quando porque se têm saudades. fiquei calado, perplexo. eu: porque te foste embora, então? ela: estava confusa, não sabia então o que sei hoje, tive de aprender. eu: se eu te pedisse para voltares, voltavas? calou-se outra vez, pensativa. disse: acho que não, quais eram as vantagens para ti ou para mim? as nossas relações eram quezilentas. apesar de eu gostar muito de ti, o amor do princípio, aquela paixão que cega, foi-se. o que é o amor para ti, perguntei eu, inquieto. não queres que te explique a ti o que é o amor, era o que faltava, disse ela. perguntei: amas o pintor de aguarelas? acho que sim, disse ela, nem penso nisso. eu: em que é que a relação com ele é diferente da que tinhas comigo? onde está, como se manifesta esse amor que na tua opinião já não existe entre nós? entre nós deixou de haver paixão, já te disse. tu deixaste de me admirar, não me ouvias, não levavas a sério o que eu fazia, eu aborrecia-te. não duvido de que gostasses de mim, mas as minhas conversas e o meu projecto de vida não te interessavam, a minha presença incomodava-te. não te esqueças de que quando nos separámos já não fazíamos amor há mais de três meses. o teu interesse por sexo desde que eu voltei a casa depois de ter estado com o pintor era irregular, nunca mais te mereci inteira confiança nem empenho suficiente na cama. faltava-te a paciência para os longos detalhes. não te ofendas, mas encontrei melhor, um homem mais atento e mais paciente. irritou-me. idiota. eu estava farto de a ouvir dizer parvoíces. calei-me. estava de mau humor, decidi ir-me embora. pagámos e fomos andando a pé até old brompton road. vou apanhar um táxi, disse eu. eu levo-te ao hotel, ofereceu-se ela, fica no meu caminho. não estejas melindrado comigo, tu sabes que eu te adoro, disse ela. não sentiste ontem, quando estivemos juntos e fizemos amor, a ternura que ainda sinto por ti, que ainda existe entre nós? claro, o amor é outra coisa, mas não nos queixemos, tu sobretudo não te queixes. é preferível levar estas coisas com um espírito um pouco desportivo. os corpos vão e vêm, os espíritos não se confundem nem protestam. espero que não voltes a chamar-me puta, como o fizeste antes, infantilmente. não sejas retrógrado. vê se entendes o que sentes. aprende a comportar-te de acordo com o que sentes em vez de seres escravo de ideias aprendidas e de modelos de comportamento absurdos e irracionais. sê objectivo. lê os filósofos pragmáticos americanos, talvez te ajude. eu dormi contigo ontem porque gosto de ti. não quero viver contigo sempre porque não gosto de ti o suficiente para partilhar tudo contigo. o homem com quem vivo não me aborrece, adora-me, o que me dá muito jeito. é confortável. além disso não é ciumento, não se mete na minha vida, está-se nas tintas para o que eu faço porque está seguro de que eu o amo. pois, entendo, disse eu em voz baixa, pesaroso, muito confuso, com sentimento de culpa. dei-lhe um beijo, despedi-me dela ao pé do carro vermelho que ela tinha deixado estacionado perto do restaurante.

fui a pé para o hotel. como já disse, sentia-me confuso e triste, nostálgico e pesaroso. eu de certo modo não deixara de a amar. ela é que não podia ou não queria ser amada como eu a queria amar. eu não lhe era necessário. ter voltado a londres para a ver tinha sido um erro, viera remexer em cinzas ainda quentes. as pessoas não mudam. ela não mudara. evoluíra. essa evolução não me favorecia a mim em particular, só era evolução para ela. eu, porém, também continuava a ser o mesmo. e para ser sincero, estava contente por ter voltado a londres. o meu regresso não fora má ideia, não fora inútil nem desagradável. e não só por ter estado com ela, pois andar a pé em londres é um dos meus grandes prazeres. os momentos que tinha passado com ela, por outro lado, tinham sido tão intensos, tão perfeitos como nos melhores dias das nossas relações. em resumo: de que me queixava? de não a poder ter só para mim? quando a tivera só para mim as coisas não tinham corrido bem, eu aborrecera-me, ela desinteressara-me e acabara por procurar uma relação mais intensa com outra pessoa. a evolução dela, uma vez que nos permitira passar uma noite juntos como antigamente sem termos de nos preocupar com nada nem com ninguém, na realidade também me favorecera a mim. ela não me pertencia. mas também não pertencia ao outro. não pertencia a ninguém. não havia portanto ofendidos nesta história, apenas beneficiados. aceitaria eu, se vivesse ainda com ela, semelhante situação? pensei um pouco no assunto e torci o nariz, pareceu-me que não. mas sabe-se lá. cheguei ao hotel e fui logo deitar-me. ficaria em londres pelo menos mais uma semana só para poder ter o prazer de estar com ela mais duas ou três vezes. no caso de lhe apetecer, evidentemente.


p.s. quando acordei na manhã seguinte continuava confuso e tinha mudado de ideias. vieram-me as saudades do sul da frança, onde tinha alguns amigos. decidi partir no comboio da tarde para paris. em paris apanharia o tgv para marselha ou aix.
provavelmente voltaria a sentir saudades dela, mas não me apeteceu vê-la de novo. não a julgava nem a condenava, concluí apenas que não me convinha viver sem princípios nem fronteiras.

Monday, February 05, 2007

Language, time and trouble

Language is an instrument. Its concepts are instruments. Now perhaps one thinks that it can make no great difference which concepts we employ. As, after all, it is possible to do physics in feet and inches as well as in metres and centimetres; the difference is merely one of convenience. But even this is not true if, for instance, calculation in some system of measurement demand more time and trouble than it is possible for us to give them.


Wittgenstein, Philosophical Investigations,
translated by G. E. Anscombe, Blackwell, 1997