Tuesday, January 30, 2007

nada.niente

não podes falar e as palavras saem-te da boca
não há nada a dizer tu não tens nada a dizer se

parece que dizes alguma coisa é apenas porque
as palavras não escapam nunca ao sentido nem

sequer quando aquele que as diz ignora o que faz
não sabe o que diz não tem nada a dizer não quer

sobretudo dizer nada preferia que não o ouvissem
porque os sons que ele pronuncia são ruídos são

queixas são uma forma de perplexidade ou de dor de
impotência ou de desespero mas não há nada a dizer

sempre se ausentam aquelas que nós amamos como se
escapam das palavras os sentido que lhes inventaram

ele fala sozinho na casa deserta imita por não saber
consolar-se de outra maneira as frases que aprendeu

confuso refugia-se no corpo quente e vazio da
linguagem e lá dentro no seu simulado ventre de

mãe ele morre as palavras falam por ele ainda como
se houvesse alguma coisa a dizer como se ele pudesse

ainda dizer alguma coisa como se dizer alguma coisa
fosse útil ou tivesse sentido nos salvasse da perdição

nos fizesse regressar a alguma ilha ou terra ainda firme

It's a tree

"I am sitting with a philosopher in the garden; he says again and again 'I know that that's a tree', pointing to a tree that is near us. Someone else arrrives and observes this, and I tell him: 'This fellow is not insane. We are only doing philosophy'."


Wittgenstein, On Certainty

Sunday, January 28, 2007

Índices de realidade

Eu não minto, mas sei como se mente. Tive a sorte de ter uma professora que era uma sumidade na matéria, ela ensinou-me como dar aparência indiscutível de verdade à mentira mais escandalosa, mais desnecessária, mais inacreditável. Mentir, de facto, é uma arte que não está ao alcance de toda a gente. É preciso muito talento, sangue-frio, alguma memória, imaginação, agilidade mental, teimosia, persistência - e falta de escrúpulos. Além da imaginação e da sabedoria adequada, é necessário ter ainda a capacidade de dissimulação de um actor profissional. Se me pedissem que isolasse, entre tudo o que aprendi, uma técnica eficaz, susceptível de ajudar a mentir melhor aqueles ou aquelas que não são particularmente dotados/as para tal arte, sublinharia que é fundamental a mentira principal estar integrada numa série, que não precisa de ser longa, de outras mentiras menores sem muita importância em si mesmas (uma ou duas devem bastar) . Por exemplo, se foste a Coimbra encontrar-te com o teu amante ou a tua amante mas disseste em casa que ias ao Instituto Camões em Lisboa tratar de assuntos profissionais, introduz na tua mentira vários elementos (“índices de realidade”, como lhe chamou Barthes, se não erro, cuja função é reforçar a verosimilhança da narrativa) que tenham a ver com Lisboa. Viste lá uma pessoa num restaurante, o Figo, por exemplo, o que te surpreendeu, pois ele joga em Itália, não esperavas vê-lo ali; ficaste no hotel Tivoli, como é costume, mas desta vez não gostaste do quarto, o ar condicionado não funcionava; estiveste para ir ver um filme que está no cinema X ou Y mas à última hora, já em frente do cinema, sentiste-te tão cansado/a que desististe, meteste-te num táxi – um Lexus, imaginem, nunca tinhas visto um táxi Lexus! - e foste dormir; queixa-te do trânsito em Lisboa, no Marquês então está pior do que nunca, o túnel não resolveu nada; viste o Eusébio num café a conversar com o Oceano, nem sabias que eles se davam, ficaste surpreendido/a; tomaste um café na esplanada do Centro Cultural de Belém, viste lá o Jorge Silva Melo a beber uma água das pedras e ele pediu-te o isqueiro para acender o cigarro. Quem é que teria coragem, depois de tantos detalhes absolutamente inúteis, de duvidar de que estás a dizer a verdade? Só mesmo um céptico absoluto ou uma pessoa de muito má fé. Ou alguém que te viu em Coimbra, evidentemente.

P.S. Para ser sincero: mentir é a coisa mais fácil que há. E é um vício. Deve dar prazeres espantosos. Mas eu tinha de dizer que é difícil para valorizar a minha espantosa professora.

Tuesday, January 23, 2007

a santa

cada um de nós tem o seu destino um volume
encadernado em coiro com o nosso nome
em letras doiradas na capa e na lombada

a minha ambição é modesta quero amar
uma santa um rosto puro mãos brancas
onde se desenha tenuemente o azul das

veias olhos limpos a ternura emanando
da auréola sagrada do seu corpo nunca
tocado pelas mãos de outro homem e que

ela me ame como os cordeiros amam os
prados em que vão pastar o sonho nunca
se concretizará mas a minha vida seria árida

se não a dignificasse a aspiração a um
sublime amor não tenho remorsos não me
condeno por pensar o que penso estou ainda

sentado em casa uma vez mais sentado em casa
o tempo vai passando a noite igual a tantas outras
monotonia estou cansado disto tudo sei coisas de

mais a minha ignorância cresce à medida que vou
aprendendo se fosse possível parar deter-se no
lugar do percurso da vida em que nos sentimos

bem mas quem quer saber dos nossos desejos
há sempre alguém à nossa espera mas nós não
vamos ficamos à janela a ver se chega aquela

que nunca chegará quando nos falta a paciência
sentamo-nos a ler um livro e adormecemos ela
a amada visita-nos no sonho que nos levou por

paisagens desconhecidas ao despertar estamos
sós porém e a escuridão da noite cresceu sobre
si mesma ventre insaciável trevas da paz da dor

a santa paciente espera por mim no seu altar
o rosto branco inspira respeito e devoção eu
timidamente ponho-me de joelhos e inclino

a cabeça fecho os olhos fico à espera de que
com a sua voz ela me desperte da morte em
vida da inconsolável monotonia do tédio de

uma existência sem amor à medida do meu
coração a santa ouvirá a minha prece a santa
compreenderá o que eu penso a santa estará

disposta a prestar-me uma atenção sincera
pergunto-me eu os automóveis passam na
auto-estrada fazem ruídos profanam a minha

meditação a minha oração hoje não chegará aos
ouvidos da santa já percebi é melhor ir deitar-me
dormir esperar pela boa ocasião o destino não se

decide quando nós queremos é sempre assim
será castigo divino a severa justiça suprema
que deus nos acuda agora e à hora da morte

Monday, January 22, 2007

oliveiras

copo de água

Inês Amado

I have organised and curated three BreadMatters projects involving 60 artists. Each BreadMatters event is a unique showcase of contemporary art designed to challenge the gallery visitor conceptually and ideologically. It is a guiding principle of BreadMatters that the location should serve as a catalyst in developing the strands of ideology that identify each event as singular; ultimately it is the community’s reception of BreadMatters that is of paramount importance.

BreadMatters is a platform for exchange and collaboration, a medium for bringing together professionals from various disciplines, communities and cultural backgrounds to question, debate, and explore the social, cultural, historical, philosophical, political, and theological issues around bread. The double significance of “matters” in the English language is informative and crucial in the context of the event meaning both ’concerned with bread’ and ’the importance of bread.’

Sunday, January 21, 2007

o amor?

entre as coisas que não me aconteceram conto
o facto de nunca ter estado casado com harriet
bosse por conseguinte nunca imaginei que
depois de nos termos separado ela tinha o
poder de me provocar eroticamente de longe
não nunca me passaria pela cabeça uma coisa
semelhante também é verdade que tenho uma
desculpa para isso não me chamo nunca me
chamei august strindberg nunca andei pelas
ruas de paris atormentado pelo amor a pensar
em transformar o carvão em oiro tenho essa
desculpa e deve bastar ou não basta mas nada
posso fazer para tornar a situação mais aceitável
em meu favor posso afirmar no entanto que fui
eu quem em paris andou pelas ruas à noite
com
uma rapariga americana há muitos anos
era no
meu pescoço que ela se pendurava
quando a mãe
ia comprar cigarros tinham
acabado de chegar de
itália não nos víamos há
quase uma semana
à noite o desejo a paixão ficavam ao rubro
ela
subiu ao quarto de hotel para ver
se a mãe e
a irmã ainda não tinham chegado veio
à janela
fez-me sinal chatice tarde de mais
paciência
por que razão não me lembrei de ir dormir
com
ela noutro hotel ainda não entendi que
parvoíce mas
foi assim não frutificou como
podia o amor que nos tornava
nessa noite
irreais encontrámo-nos dias depois em aix
e a paixão
mostrou-me no quarto daquele
hotel barato perto
do cours mirabeau o
rosto que nunca mais quis
mostrar-me
em lugar nenhum eu ia para casa
a pé ao
fim da tarde ou de madrugada drogado
de
amor alguns dias depois finalmente
despedimo-nos no
aeroporto de marselha
nunca nunca
mais nos vimos a primeira
carta que ela me
escreveu não falava de
amor mas não
me lembro de nenhuma
outra carta de amor
como me lembro dessa
rasguei-a para não
aborrecer outra mulher
não era necessário cometemos muitos

erros fazemos asneiras umas a seguir às
outras
devia ter-me casado com ela que
me amou como ninguém
voltou a amar-me
tarde de
mais para pensar nisso erro irreparável
agora além do mais podes
queixar-te também
de nunca teres estado casado com harriet bosse

confessa
imbecil admite que nada sabes acerca
do amor
que nunca soubeste nada isso pelo menos
já deves ter entendido vem de
longe a ignorância de
outro modo não deixavas seguir
sozinha a sua vida
aquela que te disse
as palavras que ninguém nunca
mais soube dizer
não eram iguais a nada a ninguém
os lábios que as
deixavam cair os olhos o cabelo a pele
o sorriso não sabes decrever o amor nem o seu poder
mas
não te esqueceste não me esqueci nas noites de
inverno às
vezes acordo sobressaltado no sofá a música
demasiado alta as cordas de shostakovich esganiçadas
a gemer a atormentarem o descanso dos mortos
se abro
os olhos a falta de sentido de tudo é evidente tão clara

Saturday, January 20, 2007

o amor

no que respeita ao amor é melhor considerar
cada relação como uma etapa da volta ao mundo
em oitenta dias. disciplinadas as surpresas e as
expectativas talvez se possa atenuar o fervor
do entusiasmo e limitar os erros da cegueira inicial.
convém apanhar um táxi ou o autocarro e desaparecer
antes de se ter manifestado o rancor que sucede
à frustração final. quem sabe amar? bla bla bla.
qualquer ilusão de eternidade está excluída.
ficam as cervejas as águas minerais com gás
as laranjadas frescas a nostalgia das tardes
passadas à sombra debaixo das árvores.
nalguns casos a excitação da clandestinidade
fez passar por amor a boçalidade do vício.
noutros casos a traição mútua dos amantes
já era notória à mesa do restaurante.
pode
ir-se de barco de automóvel de balão de

mão dada ou de avião. eu prefiro a bicicleta.
o mais importante em questões de amor não
é certamente o volume de líquidos produzido.
nem o número de setas que atingiram o alvo
e fizeram sangrar com tanta pena nossa quem
nós amávamos ternamente. o que conta é nuns
casos o que aconteceu e noutros o que não
aconteceu. cada relação é uma história com o seu
dna específico impossível de identificar. o ódio e
a paixão não se podem avaliar pelas aparências.
eu nunca amei de gôndola embora tenha estado
em veneza. porquê? não calhou não era o meu
estilo. ainda estou a tempo eu sei esperam
por mim as mãos que necessitam de acariciar
os lábios que nunca chegaram a confessar o
grande segredo o rosto que nunca se revelou
na sua nudez sem arte. e só eu saberei decifrar
a dor e o exagero do êxtase inexistente soprar
com assobios escapando-se por entre os meus
dentes os orgasmos simulados ou alcançados à
custa de cansativo trabalho manual de árdua
prática de carpintaria corporal. o corpo é um
motor dividido em peças algumas acessíveis e
outras nem sequer visíveis e por vezes a ferrugem
ameaça e os parafusos soltam-se e as latas batem
com ruídos roufenhos assustadores. os meus dedos
porém são puros não aprenderam a fazer cócegas
preferem secar as lágrimas que os fantasmas do
sonho me deixaram em herança e que escorrem
das paredes brancas em noite de chuva e vendaval.
ao crepúsculo os meus olhos debruçam-se da varanda
e na rua deserta e húmida revivem memórias da infância.
o sol entretanto vai desaparecendo mais um dia morto
assassinado e ninguém o chora ninguém o lamenta. ser
condenado a viver quem não sabe amar que tortura. eu
todos os dias faço um pequeno esforço para entender
a situação e anoto num caderno os sorrisos que recebi
os olhares que encontraram o meu a maneira como me
falaram avalio atribuo pontos classifico não
me esqueço
nunca da menina que não me deixa pagar o
café que é
boazinha comigo sem eu saber porquê queria
que ela
fosse a minha companheira de infância companheira
de todas as brincadeiras
todas as tardes queria ir com
ela de mãos dadas comprar rebuçados à mercearia e ir

pelo campo subir às montanhas a dedicação dela
havia de salvar a minha vida do desastre limpá-la de
detritos ela seria amiga sem deixar de ser amante
do seu corpo irradiaria a ternura como uma água
um bálsamo uma celestial consolação
estou atento
e disposto enfim a assumir
o desejo falta-me aprender
tanta coisa eu vivia adormecido
anestesiado no vício
de passar o tempo lengalenga tédio
como curar-se
de tanta distracção c
omo eliminar a recordação dos
anos de oiro e marfim nos braços da
bruxa de farrapos
que à porta do castelo assustava
os pássaros e nós
tomámos a sombra do espantalho pela figura ideal da
amada fiel sublime
divina e pura. amar muito e
privadamente
ver de perto recolhido em silêncio
religioso os rostos
as mãos as pernas os peitos
que respiram suavemente
sentir o perfume natural
do corpo
concentrar-se em pormenor na amada
não se distrair
da densidade do ser nela não se
desencorajar com os
obstáculos com a falta de
luz com os ruídos com as vozes que da rua
tentam
corromper-nos fazer de nós bonecos de carrossel.

Strindberg






Friday, January 19, 2007

amanhã

pois disse ela para justificarmos a vontade de dormir uns com os outros romantizamos os desejos as relações o que me aborrece é que a cena se repete eternamente e de cada vez acreditamos que o desejo que temos do corpo e da intimidade com outra pessoa é desejo de uma relação séria antes de irmos para a cama antes da nudez fazemos projectos passar muito tempo juntos viajar juntos ir ao cinema juntos ir ao restaurante e depois o que é que acontece muitas vezes não acontece nada como estava previsto e depois de termos ido para a cama duas ou três vezes ou até uma vez com a pessoa que já estávamos a integrar no nosso futuro deixa de nos apetecer passar tanto tempo com ela viajar com ela ir ao restaurante com ela descobrir coisas novas com ela conhecê-la melhor o sexo e o amor são coisas diferentes embora por conveniência nós tentemos misturá-las confundi-las por isso eu não acredito no amor e cada vez acredito menos os nossos desejos não merecem ser embrulhados em tanto lirismo em tanta delicadeza em tanta espiritualidade a decepção a solidão ressurgem depressa a outra pessoa aborrece-nos cedo perdeu interesse às vezes é preciso tacto para se livrar dela sem a magoar eu por mim estou cansada acho que somos escravos dos nossos apetites sexuais de uma maneira que não nos dignifica acho que por causa deles fazemos asneiras incríveis que por causa deles nos degradamos há certos momentos em que não tenho qualquer consideração por mim mesma não chego a ter nojo de mim mas sinto-me ridícula uma porcaria uma impostura o problema da solidão afinal não se resolve na cama sim de acordo temporariamente por instantes podemos ter essa impressão mas em breve começamos a entender que andamos à roda dentro de um círculo que não tem saída comportamo-nos cegamente exactamente como os ratinhos das experiências

eu não tenho pressa disse ele eu sei isso tudo não quer dizer que não me apeteça dormir consigo só quero dizer que a minha experiência é semelhante à sua por isso estamos aqui a jantar e eu admiro a sua beleza o decote do seu vestido que me deixa ver o princípio dos seus seios os seus olhos são expressivos além disso sei que você não é uma pessoa qualquer a sua inteligência as suas qualidades aumentam o meu prazer de estar aqui consigo e sinto-me bem com a sua mão na minha é verdade que não sei ainda muito bem onde é que você está onde situá-la conhecemo-nos há pouco tempo há qualquer coisa provavelmente muita coisa que me escapa talvez a sua timidez o seu receio sejam a razão não sei mas não estou apressado gosto de saborear o que acontece lentamente à medida que vai acontecendo não tenho ilusões provavelmente estou também com receio de chegar eu próprio uma vez mais à mesma conclusão isto é para dizer as coisas claramente tenho medo de a perder antes mesmo de me ter apoderado de si se posso exprimir-me assim desta maneira incorrecta sim tenho receio de a destruir ou de a ver destruir-se inexplicavelmente por qualquer razão mesquinha ridícula inconsciente sem nada poder fazer para salvá-la medo de perdê-la de repente e de ficar desprovido sem nada sem esta esperança que por enquanto me anima esperança que fez de mim uma pessoa mais alegre mais optimista e me levou hoje a telefonar-lhe a apressar as coisas sem eu o ter decidido de antemão que me levou a marcar uma mesa no restaurante a trazê-la aqui sim estou sensibilizado com a prova de estima que recebi com a confiança que depositou em mim mas já percebi estamos os dois com medo de nos perdermos um ao outro definitivamente antes mesmo de termos iniciado a nossa relação e depois embora você pareça feliz e esteja a gostar do restaurante um dos melhores que eu conheço devo dizer a minha escolha dos pratos foi um desastre estes americanos não têm o mínimo talento culinário carne ou peixe tem tudo o mesmo sabor e os legumes parece que saíram directamente de uma máquina que cumpre o seu dever sem saber o que está a fazer legumes que não sabem a nada a civilização a cultura não se aprendem não se adquirem de um dia para o outro é um facto e estes americanos são excelentes programadores de muita coisa mas péssimos executantes de quase tudo claro haverá excepções mas é um facto que se a carne e os legumes têm o ar de ser excelentes isso basta-lhes cumpriram o dever deles acham que merecem ser pagos mas esta porcaria de jantar deixou-me desiludido é um roubo o que me aborrece é que este restaurante antes não era assim não sei se mudou de proprietário não vejo cá os italianos do costume nem aquele rapaz que sempre me sugere um vinho excelente e nada caro mas você é amável acha que o lugar é esplêndido e está-me reconhecida por eu ter praticamente pegado em si e tê-la trazido comigo de modo que é melhor eu não dizer o que penso você amanhã trabalha

não disse ela amanhã não trabalho de manhã só à tarde mas o fim-de-semana vai ser duro é o costume por isso não sei quando é que nos podemos ver

eu estou disponível disse ele passo a maior parte do tempo em casa basta você telefonar-me se quiser aparecer até pode ficar lá dentro a ler um livro se eu estiver a trabalhar faz-me companhia e eu a si somos dois solitários é o que parece pelo menos você tem um ar triste não sei se é impressão minha eu não tenho medo não estou preocupado com o futuro das nossas relações eu necessitava de encontrar alguém que me prestasse alguma atenção e agora que fiz um esforço e a conheci a si e estamos aqui e iniciámos qualquer coisa que ainda nem sabemos o que é pergunto-me se a minha solidão prolongada não tem sido consequência da preguiça ou da timidez realmente não sei ou de um apego excessivo aos livros e à escrita mas sei que quando me decidi a fazer um esforço e me concentrei em si alguma coisa aconteceu encontrámo-nos falámos eu corri o risco de ser rejeitado se eu fizesse isso mais vezes lembra-se daquela rapariga de que lhe falei a beatriz ela tinha-me dado o telefone dela e quando eu lhe telefonei uma noite foi simpática comigo mas quando lhe perguntei se estava só e ela me disse que estava com o namorado eu comportei-me como um adolescente sem experiência pedi desculpa não quis incomodar e desliguei se fosse agora tinha continuado a conversa porque de qualquer modo ela tinha-me dado o telefone portanto algum interesse tinha em mim e eu fui um imbecil não sei se me comporto assim para fugir às responsabilidades e ao peso dos sentimentos não adianta falar nisso e se menciono este episódio é mais para lhe fazer compreender como me tem sido difícil comunicar com as pessoas neste país mas sei lá talvez me tenha comportado assim noutros países onde vivi antes se não sempre pelo menos muitas vezes comportei-me assim pode ser uma fragilidade do meu carácter esse tal medo de ser rejeitado ou então não quero aturar pessoas que não merecem tanta atenção não sei tudo isto são hipóteses também já pensei pode acontecer que a maior parte das pessoas que conheço das raparigas das mulheres que conheço não me interessem o suficiente embora a beleza me faça inicialmente acreditar que sim mas também há outra coisa é que às vezes é difícil decidir-se porquê esta e não a outra porquê você porquê eu por exemplo em vez de outra pessoa


ela ouvia-o falar e olhava para ele com dedicação timidez ternura ele não estava habituado por onde é que eu andei todos estes anos onde é que eu estive perguntou-se ele não prestei atenção vivi embrenhado nas sombras de uma floresta confusa de que finalmente pareço ter saído sim eu sei já pensei nisso a merda do prozac tornou-me passivo tolerante desinteressado fez de mim uma pessoa excessivamente artificialmente tranquila e eu não me dei conta disso foram anos e anos a tomar essa porcaria e agora é que me dou conta esta noite mesmo estou a dar-me conta do mal que o prozac me fez eu pensava que tinha de me libertar da dependência dos tranquilizantes que aliás só raramente tomava e caí numa dependência maior ainda que imbecil que idiota que eu fui mais uma consequência da minha passagem por este país onde a ideologia consiste em acreditar que tudo se pode resolver e modificar mecanicamente sindroma frankenstein agora é que percebo por que razão me contentei quando não devia contentar-me por que razão suportei quando não devia suportar

ela perguntou-lhe em que é que você está a pensar de vez em quando você ausenta-se desaparece

não é nada disse ele nada de importante mas estou-lhe grato pela sua atenção

ela disse você fica de cabeça baixa a andar à roda com o copo da água mineral pensativo não me é difícil imaginá-lo num bar sozinho com o seu copo de whisky

ele riu-se eu não gosto muito de ir a bares porque não gosto muito de beber mas é verdade que recentemente escrevi uma história em que alguém parecido comigo está num bar a beber whisky e a fumar um charuto e há uma mulher que está sentada noutra mesa a observá-lo que não o conhece mas vai tentando adivinhar que tipo de pessoa é que ele é

ela perguntou você fuma charutos

ele respondeu às vezes sim

eu também gosto de fumar charutos disse ela

ele sorriu ela perguntou que marca de charutos é que você prefere

ele disse monte cristo não é nada mau mas romeu e julieta é mais barato e também não é mau

oh disse ela eu gosto dos monte cristo e dos romeu e julieta cubanos claro

um dia temos de fumar um charuto juntos disse ele

ela riu-se e disse já me está a pôr no seu futuro e não é uma acusação eu tenho estado fazer a mesma coisa acho que somos pessoas sólidas fortes apesar de sensíveis e que somos lúcidos sabemos que tudo pode falhar que entre nós pode nem vir a acontecer nada realmente e no entanto estamos aqui a comportarmo-nos como se fôssemos ignorantes pouco experientes inocentes ingénuos

eu também acho que é uma qualidade que temos os dois disse ele agirmos assim desprevenidamente como se não soubéssemos o que sabemos como se não tivéssemos conhecido decepções sérias

o empregado trouxe a conta eram horas de ir para casa e eles saíram ele fumou um cigarro antes de entrarem para o carro receou que ela estivesse a ficar com frio e mandou-a para dentro do carro mas ela não foi só foi quando ele próprio abriu as portas e se sentou foram pelos caminhos escuros tranquilos onde havia residências luxuosas escondidas por detrás das árvores e dos muros e enquanto ele conduzia ela pegou-lhe na mão ele conduzia só com a mão esquerda não estava embevecido nem convencido de ter dado nessa noite um grande passo em frente nas relações que há pouco tempo tinha começado com ela nem na direcção da felicidade mas a maneira como ela o tratava agradava-lhe sabia que não ia dormir com ela ainda sabia-o e não estava preocupado durante o jantar tinha-lhe dito que não estava maduro para ir para a cama com ela e tinha acrescentado logo a seguir eu sei que não é o tipo de frase que costuma sair da boca de um homem nestas circunstâncias mas é o que eu sinto e por isso digo-o sem qualquer problema ela tinha olhado para ele com malícia e comentara pois vamos ver daqui a bocado o que é que acontece quero ver se não muda de opinião se não insiste para eu ir dormir na sua cama e ele rira-se mas a verdade é que não tinha mudado de opinião a companhia a atenção a misteriosa ternura a estima dela neste momento bastavam-lhe ela que ele conhecia mal e que às vezes parecia um passarinho ferido sim era já muito o que estava a acontecer e ele sentia prazer em deixar amadurecer o seu desejo em deixar a imaginação espontaneamente acabar por inquietá-lo quando fosse o momento ela própria tinha dito as coisas que acontecem depressa de mais desvalorizam-se perdem importância não era tempo de colher e nós pensámos que sim e depois ficámos sem nada nas mãos ele estava tão seguro de que em breve acabaria por dormir com ela que não ia preocupado foi conduzindo calmamente levou-a a casa quando parou o carro na larga avenida em frente do jardim ela beijou-o na boca pela primeira vez em seguida ele arrancou e foi para casa

já em casa distraído diante do computador ouviu o telemóvel tocar era ela queria saber o nome de um pianista de jazz de que tinham falado que tinham vindo a ouvir no carro ela tinha enviado uma mensagem a perguntar ele ficou surpreendido imaginava-a a dormir procurou na internet o nome do pianista respondeu à mensagem e acrescentou mas sou eu que estou aqui a sentir a tua falta neste momento e era verdade o desejo tinha irrompido de não se sabia onde exactamente violento incómodo inesperado e então ele pegou no telefone ela atendeu ele murmurou vem ter comigo vem cá dormir ela riu-se disse não sejas tonto vai-te deitar falamos amanhã

Wednesday, January 17, 2007

to be

love is a guess


















1

histórias

o que se escreve, mesmo se parece que estamos a reconstituir acontecimentos que tiveram lugar, mesmo quando estamos a tentar reconstituir acontecimentos que tiveram lugar, nunca é fiel à realidade – porque acontecem muitas coisas ao mesmo tempo e nós, por limitação natural e por interesse, só vimos e só estivemos concentrados num ou em alguns aspectos daquilo que acontecia. também não acredito nas história dos historiadores nem na sociologia dos sociólogos nem na psicologia dos psicólogos. é tudo ficção, visão pessoal, parcial, incompleta, às vezes pura pose, às vezes – sobretudo quando se pretende possuir a verdade científica ou histórica - publicação vaidosa do que deveria ficar na modéstia dos pensamentos secretos. ninguém poderá nunca relatar seja o que for pretendendo que tem autoridade para afirmar a verdade. e os vendedores de doutrinas e teorias se não tivessem à sua disposição tantos meios de se fazer ler ou ouvir teriam de discutir no café, desprotegidos, em pé de igualdade connosco, a veracidade ou rigor do que dizem ou escrevem.

Monday, January 15, 2007

no big deal

quanto mais os conhecia menos
vontade tinha de os conhecer quanto
mais os ouvia menos acreditava no
que eles diziam e então lembrei-me
de leituras antigas o homem é o que
são as condições de produção todos
saídos do mesmo modelo formados
deformados na escola do sorri-me e
eu sorrio-te enquanto a luta pela puta
da vida continuava e o sangue corria
na sombra de noite enlouqueciam as
ambiciosas as loucas os padrecas as
filhas da puta tudo a mesma cambada
a selva alimentava-os e instruía-os na
arte da rapina nem dó nem piedade e eles
tomavam por ciência as suas manias
as suas paixões a sua ignorância how bad
o amor também não escapou à maldição

aquele que se imaginava rico possuidor
de um tesoiro valioso e nessa ilusão era
feliz descobriu que afinal o amor também
não era big deal o que nós possuímos
só se sabe o que vale depois de o termos
perdido depois de o terem de novo posto
no
mercado de o venderem ao desbarato
na primeira esquina e então vê-se não não
era big deal
apenas carnaval brasileiro
infância ainda farsa fui ao jardim da celeste
giroflé e que foste lá fazer giroflá imagina
fui lá dar uma voltinha no carrossel e agora
cá estou de novo fresca como uma camélia
pronta para outras aventuras na grande cidade
em todas as cidades em todos os continentes

Saturday, January 13, 2007

Não














- Vamos ao cinema?
- Não.
- Vamos jantar fora?
- Não.
- Fala comigo.
- Não.
- Estás zangado?
- Não.
- Estás cansado?
- Não.
- Não tens sede?
- Não.
- Tens fome?
- Não.
- Tens sono?
- Não.
- Dá-me um beijo.
- Não
- Estás irritado?
- Não.
- Estás Indeciso?
- Não
- Estás angustiado?
- Não.
- Estás infeliz?
- Não.
- Já não me amas?
- Não
- Queres que te deixe em paz?
- Não.
- Queres que me cale?
- Não.
- Traíste-me?
- Não.
- Pensas que eu te traí?
- Não.
- Vamos às compras?
- Não.
- Vamo-nos deitar?
- Não.
- Zangamo-nos?
- Não.
- Queres que eu me vá embora?
- Não.
- Fazemos as pazes?
- Não.
- Divorciamo-nos?
- Não.
- Vamos viver para outro sítio?
- Não
- Tu odeias-me?
- Não
- O que é que tu queres?
- Nada. Quero dormir.

Friday, January 12, 2007

a falha


















quando eu morrer você vai perceber que embora o mundo passe bem sem mim alguma coisa desapareceu da sua vida. alguma coisa de que não se pode falar, de que eu não posso falar porque nenhuma das minhas palavras de vivo seria escutada com atenção. as palavras dos mortos têm mais peso, nunca tinha pensado nisso mas é verdade. não, não é minha intenção deixar escritas as minhas memórias. seria pôr uma ordem artificial na desordem da vida. seria limitar o sentido do que aconteceu ao atribuir-lhe causas e efeitos, razões e consequências. seria assumir uma sabedoria que não possuo nem quero possuir. deixe-me então confessar-lhe que a amei sem nunca ter sabido dizê-lo nem deixá-lo transparecer. pode ter sido por falta de coragem ou por pessimismo, excesso de lucidez. mas é verdade, nunca lhe disse como a amei, nunca lhe disse como senti a sua ausência durante tantos, talvez todos os dia da minha vida.


eu via-a passear na cidade quando você era adolescente e admirava-a de longe, com timidez. noutros casos, sobretudo mais tarde, vendo passar outras mulheres, eu hesitava, perguntava-me se o esforço valia a pena, se a pessoa que eu olhava e me seduzia seria tão interessante como me parecia e capaz de não defraudar as minhas expectativas. mas no seu caso o que me retinha era apenas a minha juvenil timidez. pensei muito em si secretamente. não sei se a algum dos meus jovens amigos dessa época terei confessado o amor discreto mas religioso que lhe tinha. uma vez enchi-me de coragem e pensei em entregar-lhe uma carta onde dizia que provavelmente a amava e que gostaria de saber o que é que você pensava. mas a minha coragem, se me ajudou a escrever a carta, abandonou-me quando me dispunha e entregar-lha. de qualquer modo a possibilidade de nos entendermos nesse tempo era inexistente porque falar consigo estava fora das minhas forças e competência, eu não era capaz de ir tão longe. talvez você ainda tenha, guardada na memória, a cena ridícula para si incompreensível. uma tarde na avenida do liceu eu fui ao seu encontro e ao cruzar-me consigo parei, olhei-a nos olhos fixamente, com ardor e medo, hesitei, faltou-me a voz e a serenidade, quase tropecei. depois continuei o meu caminho com a mão no bolso do casaco. você olhou para mim vagamente surpreendida, claro que não entendeu nada do que se tinha passado. eu desaparecei o mais depressa que pude. nessa época da minha vida eu era um cretino e só tinha uma qualidade: não me conformava com a minha solidão nem com a minha nítida e confrangedora incapacidade de estabelecer relações, amorosas ou de outra natureza, com uma mulher.

depois disso muita água correu debaixo das pontes e eu parti para longe, viajei, cresci. amei outras mulheres, fui amado. o amor só existe enquanto nós acreditamos que somos amados e que amamos, não é? e nós sempre acabamos por acreditar que amamos e nos amam durante pelo menos algum tempo. de facto aparece sempre alguém que acaba por preencher o lugar. até ao dia em que descobrimos que nos enganámos ou a outra pessoa descobre que se enganou. não se fala nisso forçosamente. mas mudam os estados de espírito, mudam as palavras, muda o comportamento. nós fazemos que não entendemos o que se passa, embora ao mesmo tempo os nossos protestos indiquem que estamos conscientes de que o processo de degeneração já se iniciou. há amores que duram segundos, outros minutos, outros semanas. outros que duram meses, outros que duram anos. nalguns casos parecerá que vão durar eternamente. mas não duram. não me interprete mal. eu não estou a dizer que fui mal amado ou amei mal. o que eu estou a confessar é apenas que cada amor tem a sua duração própria. o amor que tenho por si, reconheço-o com humildade e orgulho, sobreviveu a todos os outros amores. era uma espécie de rio subterrâneo pouco preocupado, na sua força, com o fluir de outros rios concorrentes. fluía em silêncio. sem se queixar, sem desistir, sem se sentir ameaçado. sem se confessar. eu sentia a sua falta como sentiria a falta de deus se acreditasse na sua existência. quer dizer: você nunca deixou de estar em mim, no meu espírito, na minha memória, secretamente. eu sabia-o quando pensava: se ela estivesse aqui tudo seria diferente. sabia-o quando na minha solidão me apercebia de que ninguém a não ser você poderia tranquilizar a minha ansiedade e dar-lhe algum sentido, quando me dava conta de que ninguém a não ser você poderia compreender o que havia a compreender. na sua ausência, longe da sua influência, a minha própria capacidade de entender era limitada. como pude viver e sobreviver sem si?

apeteceu-me escrever-lhe, muitas vezes. pensei em telefonar-lhe, muitas vezes. planeei meter-me em aviões, em comboios, em autocarros para ir ao seu encontro, para dar-lhe notícia da minha existência insuportável longe de si. e nunca o fiz. fiquei parado na minha vida a tentar solucionar o que não tinha solução. sinto-me incompleto, um falhado. contentei-me e não devia ter-me contentado, devia ter exigido, devia ter-me rebelado, devia ter protestado, insultado, agredido se necessário. mas não, contentei-me, conformei-me, fui-me distraindo. imobilizado no interior do círculo que eu próprio traçara à minha volta, não muito longe dos meus pés. preguiçoso, medíocre, aceitei viver sem si, sem lutar por si.

um dia encontrámo-nos, porém. nada do que eu acabo de pensar e de dizer teria sentido se não nos tivéssemos finalmente encontrado. tê-la encontrado trouxe uma luz nova à minha vida, outra capacidade de entender, de ver, de apreciar, outra maneira de saber e de ignorar. pude então perceber melhor o meu passado, a minha vida até esse momento. e no entanto a nossa relação, vista agora à distância, parece ter sido a demonstração perfeita da minha e da sua total incapacidade de amar. já não sei como foi que as coisas aconteceram, foram acontecendo, mas depressa começámos a não nos suportar, a não precisarmos um do outro. aparentemente? realmente? não sei. mas o amor ia e vinha, parecia lutar pela sobrevivência mas ofuscava-se, desaparecia. e nem eu nem você pudemos nada contra isso. eu nunca entendi o que se passou, não entendi a minha indiferença, não entendi a razão das minhas iras, não entendi a leviandade do meu desinteresse nem a vertigem da minha inesperada mas dolorosa solidão ao seu lado. e você? você calou-se, aceitou sem protestar, conformou-se. como se achasse natural que o amor, tendo começo, teria também de ter fim. como se nada lhe fosse devido, como se o nosso encontro e a nossa relação tivessem sido um acidente dispensável e que não chegou a incomodar, um sopro tépido na tarde abrasadora que não deixava marcas significativas nem recordações que merecesse a pena conservar. engano-me? imagino-a erradamente fria, feliz, completa, aliviada? não sei nada de si, portanto posso pensar o que quiser, pois o que eu penso não passará nunca de pura divagação. separámo-nos, pronto. e meses depois, quando acordei para a realidade da nossa separação, dei por mim a pensar: o que é o amor? terei dado um nome errado à minha relação com ela? porque era inegável que eu precisava, continuava a necessitar de si. era inegável que você continuava a fazer-me companhia na minha solidão. era inegável que se eu aspirava ainda a alguma plenitude, tranquilidade, paz de espírito, era em si que pensava, era a sua ausência que me doía. eu estava seguro de que se nos fosse dada outra oportunidade não a desperdiçaríamos porque tendo constatado a posteriori a imensidão do erro, tendo entendido o milagre que é o amor, saberíamos proteger o nosso afecto da destruição. mas nunca mais soube nada de si. ignoro, consequentemente, a sua opinião. o que é que você entendeu sobre o amor que lhe permitiu manter a serenidade depois de nos termos separado? partimos cada um para seu lado já a pensar noutra coisa, a lamentar a desilusão e o tempo perdido. o que é que você terá entendido que eu não entendi, que continuo a não entender?

decidi recentemente afastar-me dos lugares onde pudesse ser ainda obrigado a falar. não odeio as pessoas, mas também não as amo. se falasse havia de encontrar facilmente quem me consolasse ou maneira de me consolar eu mesmo. mas as conclusões a que cheguei não poderão ser modificadas por nenhuma atitude ou argumento. por isso estar calado e deixar de agir é a única decisão com algum sentido. desde que me separei de si sinto-me distante de tudo, nada do que acontece no mundo, longe ou perto de mim, me interessa. sublinho que não lhe atribuo a si culpas maiores do que a outras pessoas neste processo da minha evolução. só o facto de você ter sido a minha última decepção ou fracasso pode criar essa ambiguidade. já vendi esta casa e vou viver para uma aldeia quase deserta, numa zona montanhosa lá para o norte. parto no próximo sábado, isto é, depois de amanhã. já comprei o bilhete de comboio. não deixarei o endereço a ninguém. a única pessoa que ainda me apeteceria ver, com quem gostaria de estar, que gostaria de olhar, com quem falar teria ainda algum sentido, é provavelmente você. por uma razão sobretudo: as suas respostas a algumas perguntas que não cesso de me fazer poderiam eventualmente ajudar-me a clarificar alguns episódios da minha existência que a minha experiência e inteligência foram incapazes de tirar da obscuridade. mas como já disse nada sei de si e já entendi que você passa bem sem mim. por isso reconheço que foi uma diversão que voluntariamente me concedi no início deste monólogo ter afirmado que quando eu desaparecer você se aperceberá da minha ausência, sentirá a minha falta.

You and I

Thursday, January 11, 2007

Na sombra

Quem sabe o que se passa no espírito do exilado? Viveu em vários países, conheceu a humilhação às vezes. Aprendeu a liberdade e deixou de recear a morte. Tendo visto sob a máscara da amabilidade em tantas ocasiões o ódio, aprendeu a suportar a hipocrisia. Sempre as montanhas, os rios e as árvores lhe serviram de refúgio, reconciliavam-no com a existência. Aquelas que o amaram e as que apenas simularam o amor enriqueceram os seus dias futuros com memórias. Umas dolorosas – não é fácil esquecer o que se perdeu; e tudo se perde – e outras que vertem na parte do seu corpo a que ele chama a alma o bálsamo da compaixão. Ciclicamente foi necessário rever as regras e as leis, adaptar-se ou lutar abertamente contra a prepotência sem escrúpulos. O exilado resistiu, mas sabe que o obrigaram a lutas sem sentido alguns imbecis. Num momento difícil sentou-se num café à tarde, reconfortava-o a presença anónima de outras pessoas à sua volta. Na sombra os inimigos, medíocres, imaginavam estratégias para arruinar a sua força e ele não o ignorava. Protegia-o da hostilidade o seu amor pela insignificância e pelo sublime que caracterizam o ser humano e as suas atitudes. Disse: nunca perdi nenhuma batalha porque o meu desejo sempre coincidiu com a aspiração à perfeição interior, à maturidade. Doíam-lhe em qualquer parte as ofensas. Apesar disso alegrava-o o sol que brilhava na tarde de Outono, suave e fiel às horas nunca anunciadas do encontro.

Santa Barbara, 19 de Novembro de 1994

Tudo é razão

Pega na caneta e escreve. O pó
acumula-se na brancura do papel,
olha a forma delicada das letras
esguias, redondas e desenhadas com
convicção. Olha o teu destino nesse
espelho e sorri: criança que não
deixas de brincar, tudo é motivo
para prolongar a inocência da
infância, esse prazer de sonhar.
Perdes-te de ti mesmo tal como
és, esqueces a realidade, a dura
realidade da vida. E depois ris-te.
Para quem morre, que importa a
inutilidade da graça, o exagero do
sentido de humor, o despropósito
da brincadeira da escrita? Tu sabias
isso e muito mais, mas ainda assim
vieste, com o bloco de papel e a caneta
na mão, tantos meses depois, sentar-te
para escrever, de novo, um poema.

Santa Barbara, 5 de Maio de 2000

Tuesday, January 09, 2007

Frutas coloridas

As cidades do passado brilham ao sol
da manhã de Maio: flores, os jornais
acabados de sair. E vão para o emprego
homens sérios, para a escola rapariguinhas
tímidas. No meu passado havia ruas assim,
purificadas pelo silêncio e pelo frio da noite,
a renascer como uma criança para o dia novo.
Os transeuntes apressados, a dar passos rápidos
no Cours Mirabeau, entre os plátanos. O mercado
com as suas frutas coloridas, as vozes dos vendedores
ambulantes a apregoar a alegria. E na minha memória
repousava a imagem dos filhos queridos, da amada
eterna. Tantas vezes nos enganamos. O futuro é-nos
desconhecido, de facto imprevisível. Ficamos
espantados, de olhos abertos, quando nos damos
conta disso e de que não se compadecem de nós
os deuses. Cidade do dia de Maio que na manhã
de sol era igual à cidade do passado. Para longe,
recordações, afastai-vos, deixai o exilado em paz
a tomar café e a fumar um cigarro. Para que o
atormentais? O seu coração encontrou a paz, já
nada pode surpreendê-lo, ele conhece a sua morte.

Santa Barbara, 17 de Maio de 2000

A surpresa

O real resplandece e a ilusão
de estar no lugar certo, em casa,
visita o corpo como a amada que bate
à porta daquele que não se cansa de
pensar nela. Cessara a esperança, talvez,
ou afastara-se das margens e viajava no rio
largo da fantasia, esquecido, aquele que dá
forma e intensidade à figura da ausente.
Cada dia, porém, é original: um homem
levanta-se, olha o desconhecido diante de si,
não sabe o que o espera. Por isso se apressa
e, distraído, lava-se e veste-se. Quando ele
sai de casa a intuição da novidade, do
momento único, começa a revelar-se
tenuemente. A surpresa surge, inesperada
ainda, apesar da preparação. E o homem
eleva o rosto e o olhar na direcção da luz
divina: o real resplandece. Desejo?
Nostalgia? Conforto? Reconciliou-se
com o destino o exilado da vida? Não
sabe. Não quer saber. Abandona-se
(abandona o corpo e o espírito)
ao desconhecido, deixa-se afundar
lentamente na volúpia de ser.

Santa Barbara, 8 de Dezembro de 1994

Com quem?

Arrefeciam as noites às vezes depois
de um dia quente. Tão distante
o mundo real. E o espírito resistia.
Esperando não se vai a lado nenhum.
Mas bastava ir mantendo viva a ideia
do amor, a recordação dos lugares
onde a alegria e a dor se misturavam
para fazer dos dias um lugar de habitação.
A poesia leva ao reino das sombras,
ao fim do único caminho. Depois
o viajante pára diante da floresta
densa, no sopé da montanha elevada
e lamenta não poder continuar.
Com quem trocar impressões acerca
da impossibilidade de atingir a meta
do desejo? Quem compreenderia
as queixas? A poesia serve de lugar
secreto de refúgio, quem quiser pode vir
ouvir a voz discreta daquele que se sentia
excluído. Quem sabe, porém, como viverão
os nossos descendentes? Serão esquecidas
as palavras, confundir-se-á o seu sentido
e ninguém compreenderá o que nos aconteceu.
Passar o tempo, iludir-se um pouco,
sentar-se à mesa dos cafés a ler e a escrever,
a imaginar ou a recordar o que não existe.
E nenhum amor era possível, mesmo que
nos dirigissem a palavra ficaríamos calados,
duvidando. Para que serve falar?
E ouvir, para que serve? No deserto
da cidade encontrei um homem
estrangeiro na bomba da gasolina.
Era amável, sorria ainda apesar
de ter sido expulso pela guerra da casa
e do país. Falámos um pouco, depois
eu fui-me embora. Pensei nele e em
mim, nos destinos absurdos a que a
História obriga os homens, contra a
a sua vontade. Arrefecia a noite
de Verão. No café chilreavam
rapazes e raparigas. Onde tinha
lugar a existência verdadeira?

Santa Barbara, 2 de Junho de 1994

Monday, January 08, 2007

Variações sobre a cómoda inglesa (2)

Eu tinha uma cómoda inglesa,
objecto de estimação.
Não valia grande coisa,
só que dava-me um jeitão.
Nela guardava segredos,
cartas, charutos, pastilhas;
e alguns retratos teus
em calções, de sapatilhas.
Ó móvel de estimação,
ó cómoda das maravilhas.

Numa das suas gavetas,
enrolados num jornal,
tinha dois sorrisos teus,
minha duquesa real.
Se estava triste, beijava-os,
já não me sentia mal.

Trouxe marcado na alma
o brilho do teu olhar.
Mas não me serviu de nada,
tu tinhas a quem beijar.
Agora se penso em ti
apetece-me chorar.

Os teus olhos, os teus lábios
brilhavam na noite escura
como o casco de um navio,
doido, de um porto à procura.
Eu ia para beijar-te
mas achei que era loucura.

Tu sentaste-te ao meu lado
e eu sentia o teu calor.
Mas como saber se era
curiosidade ou ardor?
Encostei-me à velha cómoda
cheio de medo do amor.
Mas confesso que hesitei.
Agora que já estou longe
é que digo o que sonhei.

Naquela cómoda inglesa
onde guardava o que tinha
guardei também o meu sonho
de um dia chamar-te minha.
Tu não soubeste de nada.
Agora digo: parvinha!

Ó cómoda utilitária,
sempre disposta a aceitar
os meus delírios e as cartas
que só falavam de amar.
Tu talvez fosses banal;
mas eu só sei suspirar.

Tu tinhas um namorado
que te amava com paixão
por isso em vez de beijar-te
calei o meu coração.
Guardei-o na velha cómoda,
tapei-lhe a respiração.

Já cansada de me ouvir
gemer e falar de ti
disse-me a cómoda velha:
ó rapaz, relax e ri.
E eu segui o seu conselho,
pus-me a rir, já não sofri.

Sunday, January 07, 2007

Falamos de mais

O sentido do mundo está
em quem de fora o vê.
A morte é-nos estranha
como acontecimento pessoal;
mas à nossa volta morrem
os animais e as árvores.
Assim pensava eu, enquanto
lia um livro de filosofia.
E na tarde jovem com o sol
a brilhar apetecia-me
ir conversar de amor
com a rapariga que servia
os cafés naquela esplanada.
“Você dormiu cá?”- perguntou-
-lhe um rapaz loiro. Ela
riu-se, mas eu tinha-a
visto a lavar o chão
na véspera à noite,
a pegunta maliciosa
tinha algum sentido.
Poesia, disse eu, falando
para ela como se ela me
ouvisse, já não há, gastou-
-se nas palavras que como
a água das barragens irrompe
de todos os lados, assustado-
ramente, quando lhe abrem
as portas. Falamos de mais,
a grande questão é essa, disse eu,
falamos de mais, não sabemos
calar a boca, viver em silêncio.

Santa Barbara, 4 Fev. 06

Violentamente

Entrei num bar sábado à noite e vi-a logo, encostada ao balcão. Como havia muita gente, fiquei-me por ali, à entrada. Um encontrão deslocou-me para o corredor. Consegui manter-me ao canto do balcão e pedi uma água tónica. O rosto dela seduzia-me violentamente. Não pela sua beleza convencional, como tantas vezes acontece; mas devido à força do seu olhar, a uma espécie de tranquilidade que lhe alisava a pele e a mantinha ali, num ambiente em que dominava a excitação, senhora do seu corpo, do seu espírito. Ela olhou-me quando eu a olhei e por várias vezes quase surgiu um sorriso de cumplicidade na sua boca. Terá surgido? Mais tarde pedi uma cerveja. Entre nós uma loira banal servia de muro, separava-nos. Não tive coragem para arriscar tudo numa jogada única. Ela acabou por ir-se embora e eu fiquei de cerveja na mão (não me apetecia beber) a ver se ainda havia alguém à minha volta que merecesse atenção. Sentia-me bem, seguro de mim. Não tinha vindo à espera de nada exactamente. Por outro lado, pensei a dado momento, não convém precipitar-se. Quem sabe se o meu espírito, ansioso por encontrar onde se amarrar, não estava já a comportar-se estupidamente? Entendi, quando ela se foi embora e disse adeus com a mão ao barman, que vinha ali regularmente. Por um lado não gostei de a saber amiga do tipo que estava ao balcão. Por outro ela comportou-se de maneira tão natural (tão europeia, apeteceu-me dizer) que admiti logo a possibilidade de voltar a encontrá-la de novo. Talvez então seja possível, caso o seu olhar de novo se cruze com o meu, falarmos e eu dizer-lhe: lembro-me de si, daquela noite de sábado, quando você estava aqui com uns amigos e eu tinha vindo sozinho beber um copo; fiquei com uma curiosidade enorme de a conhecer. Quando cheguei a casa ainda não me tinha esquecido do seu rosto, da sua serenidade, do bem-estar que parecia irradiar da sua pessoa. Mas nunca mais voltei àquele bar, nunca mais a vi.

(1995?)

ghosts

What lips my lips have kissed, and where, and why,
I have forgotten, and what arms have lain
Under my head till morning; but the rain
Is full of ghosts tonight, that tap and sigh
Upon the glass and listen for reply,
And in my heart there stirs a quiet pain
For unremembered lads that not again
Will turn to me at midnight with a cry.
Thus in the winter stands the lonely tree,
Nor knows what birds have vanished one by one,
Yet knows its boughs more silent than before:
I cannot say what loves have come and gone,
I only know that summer sang in me
A little while, that in me sings no more.


edna st. vincent millay, Selected Poems, Perennial Classics, 1992

Saturday, January 06, 2007

Thursday, January 04, 2007

Curto

Fui ao barbeiro, sentei-me na cadeira, o jovem aprendiz perguntou-me:
- Como é que quer o cabelo?
- Curto - respondi eu.
Distraí-me a olhar o futebol na televisão. Quando me dei conta tinha o cabelo quase todo rapado:
- Eh pá, não corte mais, pare aí. Eu não vou para a tropa.
Tinha-me esquecido de que "curto" não é uma medida nem um tamanho exacto. Sobre o sentido das palavras só nos (des)entendemos porque, distraídos, não nos damos conta de que não sabemos exactamente o que dizemos nem o que ouvimos dizer.

Tuesday, January 02, 2007

Nothing exists
















Yamaoka Tesshu, as a young student of Zen, visited one master after another. He called upon Dokuon of Shokoku. Desiring to show his attainment, he said: "The mind, Buddha, and sentient beings, after all do not exist. The true nature of phenomena is emptiness. There is no realization, no delusions, no sage, no mediocrity. There is no giving and nothing to be received." Dokuon, who was smoking quietly, said nothing. Suddenly he whacked Yamaoka with his bamboo pipe. This made the youth quite angry. "If nothing exists", inquired Dokuon, "where did this anger come from?"


Zen Flesh, Zen Bones, compiled by Paul Reps and Nyogen Senzaki, Shambhala, 1994