Saturday, December 08, 2007

Silêncio, nada

Habituou-se ao silêncio. Sons sem sentido não o interrompiam, ele ouvia mas não entendia, o caos dominava. O ruído dos corpos, porém. A pele das costas nuas, os braços, a nuca. E os olhos, apesar do silêncio. E os ombros das jovens raparigas. Ser adorado como um deus, é isso o amor. Duração limitada, mas quem pensa nisso? Depois tudo foi esquecido. As recordações de que servem? Se ele deixasse de desejar. Se ele se esquecesse enfim para sempre de tudo o que aconteceu. Ficou escrito na memória a história do malentendido. Era a paixão. Era a ternura, era o amor. Pensava ele. Foi? Talvez. Mas passou o tempo, bateram nas paredes onde se escreveu a história as ondas do mar violento. Regenerar-se. Quando? A morte aproximava-se, diminuía a capacidade de falar e de ouvir, o mundo organizava-se independentemente da sua vontade. Meu amor, disse ele. Qual? Quando? Em quem é que estou a pensar? Imperfeição sem limites, irremissível, sem solução. E naquele silêncio, naquela pobreza, ele repousava. Corpo morto já. Insensível. Sem esperanças. Acabado. As tardes de Verão, quentes. Estações antigas. Quem ia e quem vinha? Sombras, figuras irreais de sonhos alheios. Uns lábios. Um enigma. Mas ele não conseguia deixar de pensar. O movimento da água. Se ele pudesse, de novo, amar. Pensou: falta-me o tempo e a dor. Resgatar-se. Deixar de errar. Voltar ao café onde a rapariga lhe tinha perguntado: você o que faz? E os seus olhos duas vezes. E então. Tão simples, um olhar. Prendeu-o. Queria voltar lá. Mas que dizer-lhe? Ele não sabe falar, já não sabe. As palavras cansam-no, labor exagerado. As coisas deviam acontecer silenciosamente, apenas as mãos, apenas os olhos, apenas as pernas estariam envolvidas. Por isso ele prefere renunciar, de manhã fica em casa a dormir. Pobre de mim, que não acredito, pensa ele. Se fosse lá agora, antes de jantar, tomar uma cerveja? Não, não está preparado para isso ainda. Talvez um dia, quem sabe. Mas porquê escolher em vez de ser escolhido? Ou antes: porquê deixar-se inquietar por um olhar que nos desviou da sonolência em que, conformados, aprendíamos a solidão? Os meus velhos amigos, as jovens meninas a conversar nos cafés, a inocência, a beleza, a paixão, o medo e a alegria, onde se perderam? Já não sabe nada de nada nem de ninguém. E ninguém sabe de mim, nem quer saber, diz ele. Sentado na esplanada de um café observa o que não se passa. E no entanto acontecem na sombra, invisíveis, tantas coisas. Alguém começa a amar, por exemplo, descobre uns olhos, a linha pura de uma sobrancelhas, uma boca. Como dormir, depois? Nada se passava, a tarde ia declinando lenta e monótona, mas alguém vai recordar-se, mais tarde, daquele momento em que parecia que nada estava a acontecer. Renascer? Acreditar ainda? Ele baixa a cabeça, perde-se em pensamentos, não acredita no futuro.

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