Thursday, December 20, 2007

Fábrica de Braço de Prata

A OVNI, jovem editora do Entroncamento, vai estar hoje, dia 20, na "Fábrica de Braço de Prata" para apresentar as suas publicações. Devia estar lá em cumplicidade com o Álvaro Góis e o Henrique Fialho, mas a distância não o permite. Eu vivi quando era miúdo em Braço de Prata e tenho recordações importantes desses anos da minha infância. Podia ser divertido.

P.S. Eu estive uma noite a tomar um café na "Fábrica de Braço de Prata", há meses. Fui lá com curiosidade porque quando era miúdo vivi em Braço de Prata e porque um tio meu j
á falecido, militar idealista, inventor apaixonado, foi director da Fábrica durante algum tempo (pouco, creio). Na noite em que estive na "Fábrica" apareceu lá um pianista e pôs-se a tocar. Vinha com um rapaz que se pôs a recitar poemas, devia ser um ensaio para evento posterior. A música era agradável, o recitador recitava poesia bastante bem, mas os poemas eram inúteis, recordo-de de umas "mãos manuscritas" que surgiram a dado momento num verso e que me deram vontade de rir. O que serão "mãos manuscritas"? Havia outras incongruências semelhantes, obrigando-me a interrogar-me sobre "o que é a poesia" e "para que serve a poesia"? As poucas pessoas que estavam nessa sala antes da chegada do pianista e do recitador foram abandonando, mudaram-se para a sala do café do outro lado do corredor. Pelos vistos pouco interessadas. Bom senso compreensível. O que é a poesia, realmente? Uma frase ridícula fora do poema é ridícula no poema. A poesia é na nossa sociedade vista pelo senso comum, que é o mais corrente, como uma espécie de discurso da insensatez - mas com sugestões de sentidos "profundos" na frase insensata (os doidos, afinal, são criaturas diferentes). Essas "profundidades", já se entendeu, são descoberta do espírito inefável dos eleitos, os poetas. Assim se explicam as parvoíces infantis: acreditando que com as suas palavras se elevam a alturas irracionais e admiráveis, os poetas introduzem no meio de discursos que até são muitas vezes excessivamente correctos e relativamente coerentes,as tais frases absurdas, frases que fazem rir quem não se deixe impressionar pelo rótulo "poesia" posto por cima das tontices proferidas sob o efeito da "inspiração" e graças ao talento. Em recitais de poesia o mais difícil é sempre não bocejar ou não adormecer de tédio. Ou não rir às gargalhadas. Não há razão para considerar o que eu ouvi na "Fábrica" nessa noite como mais grave do que a actual situação da economia portuguesa. Os recitais de poesia, se fazem rir, não ofendem. O júri que atribuiu o último grande prémio de poesia em Portugal também não sabe o que é a poesia, não tem a mínima ideia do que ela seja, por isso limitou-se a escolher, entre duas cervejas provavelmente, um pseudo-poeta publicado numa editora conhecida, homem que diz os disparates mais divertidos e insensatos e acredita que eles têm algum sentido e importância para o resto da humanidade. Não têm a não ser como sintoma ou mito do nosso tempo ou da nossa sociedade tresloucada e com veleidades de oferecer à população passiva lazeres culturais. Enfim, é-se poeta em Portugal como se é condutor de eléctricos ou porteiro de hotel ou secretário de qualquer coisa, ou professor ou enfermeiro: é uma função social que convém não deixar extinguir-se porque nós precisamos de poetas para contrariar a realidade, a outra. Sentir que produzimos ou destilamos cultura prova que não somos construtores civis e distingue-nos dos banqueiros. Também nos distingue dos macacos, imagino, embora não acredite nisso.

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