Monday, December 31, 2007

Arte e excesso

Não me impressionam nada as fotografias "artísticas" nem a poesia "artística". Antes pelo contrário. Acho-as frias, ingénuas, arrogantes, infantis, aborrecidas, inúteis, prova de imaturidade. Ou quando muito superficialmente divertidas. A arte, numa fotografia como num poema, não deve surgir como um excesso injustificado que se propõe enquanto tal, à margem ou quase à margem do assunto, à admiração. O assunto é que conta, o assunto é tudo - e não me interpretem mal: o assunto é inseparável da forma sob a qual se revela, com a qual acede à existência, com a qual se apresenta diante de nós. Podia dizer a mesma coisa da beleza de uma rapariga ou de uma mulher? Quando há auto-encenação visível como excesso, porém, suspeito que existe neste caso tolerância da minha parte, é preciso é não haver exagero ou excesso que entre em conflito com os meus valores e critérios (estéticos, morais, seja lá o que for) e que haja, é absolutamente necessário, inocência interessante ou auto-ironia. Será possível perdoar à fotografia e à poesia o excesso se ele estiver encenado de maneira consciente (com ironia, portanto) e não entrar em conflito com os meu gostos (critérios morais, estéticos, etc.)? Creio que sim. Mas é necessária muita inteligência, sabedoria e maturidade. A maturidade não tem nada a ver com a idade: há crianças, meninos e meninas, há adolescentes de uma espantosa maturidade, isto é, dotados de uma ciência profunda, mesmo se não proclamada ou enunciada, sobre si e sobre o mundo.

O "excesso de arte", para não dizer a mania da arte, nasce de uma provavelmente mais do que aceitável necessidade de se superiorizar à existência comum, banal, pragmática, utiltária, que ameaça a nossa concepção elevada do ser humano. Mas essa necessidade de se distinguir dos outros remete-os a eles (só que nós somos sempre o"eles" de gente que se crê melhor do que nós) para uma inferioridade que o nosso olhar "educado" de pessoa culta olha de cima, com desprezo ou menosprezo.

O que é o "excesso de arte"? Todos os moderrnismos foram, na sua ambição entusiasta de transgredir e de dar a conhecer finalmente "a verdadeira arte"
, mais ou menos excessivos (com alguma profundidade e tolice ao mesmo tempo). Chocaram o público porque não lhe deram arte dentro dos limites considerados aceitáveis. Mas que fica dos modernismos, essa doença infantil ou adolescente, quando os modernistas se corrompem por sua vez e envelhecem? De alguns modernismos não ficou nada ou ficou pouco, outros alargaram certamente as concepções aceitáveis da arte.

O "excesso de arte" pode ser o excesso de imitação ou a prática estandartizada daquilo que em determinada época e sociedade se considera ser a arte. Já não tenho paciência para as fotografias "americanas" com cores fortes, casas escavacadas, ruas suspeitas, rostos negros intensos, cenas pitorescas dos subúrbios de Nova Iorque. Grande parte da poesia portuguesa actual publicada em livro, com ambições de elevada espiritualidade e estilo, é bastante enfadonha e já totalmente inútil.

Depressa e facilmente se chega a essa forma de banalidade superficialmente, aparentemente, artística. Um escritor ou um pintor que deixou de descobrir, de experimentar, que se tornou imitador de si próprio enquanto ainda era criativo, que interesse é que tem hoje? Pouco. Lobo Antunes, por exemplo, terá escrito mais do que um ou dois livros que valha a pena ler? E ele pensa que eu ia perder horas a circular no jardim zoológico dos seus romances para admirar o seu talento, pensa que eu não tenho nada de mais interessante a fazer? Anda iludido se pensa que o destino dele e a visão do mundo dele me interessam mais do que a minha vida. Prefiro passar meia hora a falar com uma rapariga intrigante e bonita, prefiro isso a ler histórias pouco interessantes sobre gente que não conheço nem me interessa conhecer através dos olhos "artísticos" de outra pessoa. Claro, Hamsun, Dostoievski, Tolstoi, Gogol, Balzac, Camilo ou Eça, é outra coisa.

E já agora, para terminar isto: não haverá excesso de vida interior na nossa maneira de nos relacionarmos com o mundo e connosco? E não haverá arte de mais ou a mais à procura- obscenamente, superficialmente, arrrogantemente, abusivamente, incomodamente, etc. - de nós? Porque não nos deixam viver em paz e sem ambições artísticas, sem vocação deliberada ou antecipada para consumir "esteticamente" a vida?

Um realizador de cinema alemão conhecido e muito festejado pelos jornalistas intelectuais perdeu a única vez que vi um filme dele, há muitos anos, a minha consideração e interesse para sempre, talvez injustamente, porque se deteve a dar-me um plano de paisagem verde tempo de mais - foram uns segundos a mais, mas comecei a aborrecer-me porque essa duração excessiva não tinha significação nenhuma no filme, era turismo puro, auto-deleite, coisa de cineasta sem nada de seriamente profundo a dizer.

As potencialidades do informe. Pensar nisso. O informe tem forma. Não tem é a forma que algumas pessoas queriam.


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