Thursday, November 29, 2007

Razões e necessidades

What is the description of feeling at all?
What is the description of pain?

Wittgenstein, LC, IV.7

Leva o que quiseres e deixa
os restos. Alguém os aproveitará.
Noutras mãos, vistos por outros
olhos, os objectos usados
resplandecem. Gastam-se
os sentimentos nos lábios,
nas mãos, nos corpos solitários.
E nada fica. Memórias imprecisas,
espinhos, fel ou mel, cinzas. Quem
amará as jovens raparigas
sentadas no café a conversar
como elas esperam ser amadas?
Imprevisível. A alegria, a energia,
a sabedoria bastam para merecer
o amor? Eu ouvia-as, uma delas dizia:
“fiquei mesmo magoada, fiquei mesmo
triste”. Falavam de rapazes, creio,
não sei bem. A tarde ia-se apagando,
a noite caíra e eu, distraído de mim
mesmo, ia assistindo ao teatro do
quotidiano. Rapariga sensata,
além de bela e segura de si, sem
dúvida. Continuava a falar: “ele
é sensível para as coisas dele, mas
para as minhas, nada; e trata-me
mal, apesar de eu ser a pessoa
mais importante na sua vida”.
E pouco depois: “adoro estar
sozinha em casa, ele não.”
A que horas fecharia o café?
As empregadas atarefavam-se,
iam e vinham, faladoras. “O que
me custa é arranjar razões para
desistir de uma pessoa”, disse
ainda a rapariga que eu não
conseguia
deixar de ouvir.
Impressionou-me
a sua lucidez,
tanta bondade. Ela
e os rostos
juvenis das amigas
resgatavam
da insignificância o meu
fim de
tarde sem história. Conheci

meninas assim na minha
juventude?
Conheço, ainda,
quem fale assim? Não sei.


De que razão e necessidades se

faz o destino de uma pessoa?
Escolhas? Acasos? Fatalidade?
Uma vocação para a sinceridade?
Não faças nada, deixa correr.
Encontrei a ordem do universo
na desordem dos acontecimentos.
Pelo menos acreditei que sim.
Abre a boca se tiveres muita
sede ou fome. Estende os
braços se precisares de te
esconder no segredo de outro
corpo. Caminha, se o desejo
te levar a querer o que ainda
não possuis. A desordem é
apenas aparente, versão
superficial daquilo que vai
acontecendo. O nosso
destino é isso, nada mais
do que isso. Não há literatura,
nem estilo, nem rimas que
modifiquem a situação. No
fim do amor ficamos sós
de novo, despojados da
intimidade, espoliados de
tudo o que deu um sentido
profundo à nossa existência.

Foram-se embora as três

meninas que ao fim da tarde
chilreavam no café. Sem o
saber, reconciliaram-me
com a vida, com o meu futuro.

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