Friday, November 30, 2007

Quando toca o sino

Querias uma jovem mulher
com a sua harpa de sangue
para com ela iluminares a noite.
Só na eternidade existem os anjos
e as santas, nós vemos as sombras
e são elas que seduzem a nossa
imaginação febril. As palavras
que lançaste para o ar aonde
foram ter? Alguém te ouviu,
foste recompensado, amado?
Duvido. E se o foste, já passou,
pois nada dura, gasta-se o desejo
e o amor, o tédio e o ódio, os rios
correm para o mar arrastando
consigo a cinza dos nossos
pecados. E ainda assim amamos
a vida, essa aventura, o imprevisto
e o imprevisível, a dor e a chama
que queima o peito de alegria.
Aprendemos as palavras e os vícios,
acreditamos que existe a verdade e
a mentira, distinguimos as cores
entre si. Levantamo-nos e deitamo-nos,
os dias vão-se sucedendo e viver é
como ir de comboio a atravessar
planícies verdes onde há vacas a
pastar e casas brancas isoladas
na paisagem. Uma única palavra
de amor, sincera, verdadeira, é no
entanto tão difícil suscitá-la como
aceder ao reino dos céus imaginário.
Somos avaros ou pobres? Somos
cruéis ou impotentes? Somos a
ficção dos outros ou a nossa? E
passam os séculos, indiferentes
aos nossos sentimentos e estados
de espírito, ao nosso nascimento,
à nossa morte. Quem inventou isto?
Em vez de ter inventado outra coisa?
Aqueles que perdem o pé, aqueles que
se afogam nos rios caudalosos, aqueles
que nunca amaram nem foram amados,
aqueles que acreditam e os que duvidam.
Todos irmãos, iguais, pó dos caminhos
da montanha ou da aldeia. Contenta-te,
ó céptico, não te interrogues. Também
tu fizeste parte da história e nela
desempenhaste sucessivamente
vários papéis. Afastaste-te da estrada
que leva a uma morte tranquila,
embrenhaste-te pelas veredas da
floresta e agora queixas-te da falta
de companhia. Mas quiseste estar só,
não devias esquecer-te disso. Não
se volta atrás, soprou o vento e
apagou as pegadas do caminhante
no barro dos caminhos. Haver
princípio e fim, atrás e à frente ou
adiante, acima ou abaixo, é apenas
uma questão de fé. País da infância
tantas vezes ressuscitado e nunca
reencontrado, nunca reconhecido.
Entende-se porquê, tarde de mais
talvez, quando ao cair o sol no
horizonte nos pesa uma suave e
irremediável solidão. Mas entender
não nos salva da morte. Quantas
vezes, ao cruzar na rua uma
mulher, não imaginámos uma
felicidade doméstica sublime,
cheia de mãos ternas e sorrisos,
de uma profunda compreensão
de todos os segredos da alma?
E levava consigo o nosso devaneio
vão a desconhecida que nem nos
viu. Não soube, a tempo, apropriar-me
do amor, pensa aquele que foge de
si mesmo. Semeei ventos e colhi
as tempestades. Ou nem isso, pois
o tédio cobre como um manto diáfano
todas as irrupções do vulcão onde
fermentam as paixões e o remorso.
Construir um poema pode ser às vezes
como levar ao calvário a cruz pesada.
E para quê? A clareza dos passos,
dos movimentos, dos pensamentos.
Vamos aprendendo enquanto sofremos
ao longo do percurso que nos leva ao
lugar da purificação da dor. Purifica-se,
a dor? Coração adormecido, na sombra
do peito a mastigar imagens e frases,
a triturar o que foi visto e o que foi dito.
Cabeça pesada de tanta divagação. Braços,
mãos, pés que se agitaram. A máquina do
corpo e os seus poderes sobrenaturais.
Quando toca o sino levantamo-nos,
atravessamos a aldeia a caminho do
cemitério. E esquecemos tudo, só
as pernas nos levam rua abaixo.

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