Friday, November 02, 2007

Atravessar o rio

Li Quando Atravessares o Rio, o romance de Ana Teresa Pereira publicado pela Relógio de Água em 2007. Gostei. É uma leitura tranquila, pacificadora, eu ia lendo antes de apagar a luz e adormecer. Uma mulher que tem uma relação tão saudável com o seu corpo, que fala do amor como de um sonho que se realizou, que se deleita a descrever as insignificâncias aparentes e a intimidade de uma relação amorosa com tanto prazer e sabedoria, numa voz tão suave, sem pretensões de heroísmo, é reconfortante. Fica-se a pensar: afinal o amor existe, há mulheres que sabem o que é o amor, se eu conhecesse uma mulher assim... Mas há outras coisas: a confusão entre a realidade e os devaneios da imaginação trasformam a leitura numa experiência semelhante à que se tinha quando na infância se liam as narrativas de aventuras evocadas pela mulher que nos conta a história. O mistério que envolve a narrativa também evoca a atmosfera e alguns processos dos romances policiais. Fica-me uma dúvida: só é possível amar na perfeição seres de ficção, actores, personagens míticas, inventadas? O mito é a substância do amor? A confusão deliberada entre a realidade e os delírios da imaginação (à David Lynch?) é uma forma de conferir peso de realidade ao sonho; e é um estratagema de consolação face à imperfeição da realidade e da experiência. Esta história de amor, tão perfeita, é como uma aventura em país irreal. Provavelmente tudo o que aconteceu só aconteceu na intimidade do espirito e do corpo da mulher que conta a história. E o que aconteceu de facto, onde é que acontece? Não estamos sempre a criar ficções a partir de outras ficções? Ana Teresa Pereira é exímia na prática desse processo.

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