Saturday, October 27, 2007

Spleen

Tédio. E além do tédio o que há? Os bares, as discotecas. E depois volta o tédio. Se é que chegou a desaparecer. Dias de chuva, eu não saía de casa. Decidi sair. Tomei um banho quente, fui jantar a um restaurante do meu bairro, depois fui a pé até ao centro da cidade. Chuviscava. Eu tinha posto uma boina na cabeça, os chuviscos não me incomodavam. Não estava frio. Fui ao bar aonde costumo ir, sentei-me ao balcão, pedi um whisky. E fui bebendo e bocejando. Nem os cigarros tinham sabor. As mesas estavam todas ocupadas, mas a dado momento houve uma que ficou livre e fui-me sentar mais confortavelmente.

Estávamos eu, a Sandra e o Filipe. A Sandra e o Filipe namoram ou pelo menos devem dormir juntos de vez em quando. Eu estava de fora e ia olhando à minha volta. Já a tinha visto, mas não prestara atenção. Um lenço vermelho à volta do pescoço, os jeans apertados. Estava acompanhada. Apeteceu-me vê-la nua, levá-la para casa e despi-la. Não me apetecia tocar-lhe, não era isso. Apetecia-me vê-la nua. Eu também me podia despir. Ficávamos os dois nus, sentados no sofá, a ver um filme na televisão. Talvez entretanto me apetecesse beijá-la, mordiscar-lhe o bico das maminhas duras. E o tédio da minha noite podia diminuir se entretanto começássemos a conversar. Ela deve ter coisas a dizer que ninguém, excepto eu, será capaz de ouvir. Ela não o sabe, evidentemente. E eu próprio não posso adivinhar os segredos dos outros. Mas é inevitável, as pessoas encontram-se, despem-se, inevitavelmente surge a necessidade de falar. Todos nós transportamos no espírito palavras que nunca foram ditas porque nunca ninguém as quis ouvir, nunca ninguém se interessou por nós o bastante para querer ouvi-las. E havemos de morrer com o coração pesado, cheio de confissões por fazer, penas por lamentar, palavras de amor por dizer. Deprimente ter consciência disso, mas que se há-de fazer. Aliás a rapariga foi-se embora, nunca mais a vejo, a história dela acaba aqui.

A minha não. Eu continuo sentado no bar ruidoso ao lado da Sandra e do Filipe, eles falam, eu aborreço-me. Vejo o perfil de uma rapariga loira sentada na mesa a seguir à minha, quais serão os seus segredos, as suas mágoas, as suas razões para sorrir? A vida é uma comédia sem muito interesse, sem grande sentido. Não sou só eu que me aborreço, já percebi, aqui dentro há umas trinta pessoas a aborrecer-se. Vêm para aqui para não estar sós, bebem, fumam, falam. De que lhes serve? Passar o tempo, só isso. Tédio.

Se eu estivesse ligado a um grande projecto humanitário, se eu estivesse a escrever um livro, se eu fosse arquitecto de aeroportos, se eu fosse advogado de um doente mental criminoso. Mas não, nada, sou livre como um passarinho e a vida aborrece-me. Podia ter um temperamento romântico e entreter-me a sofrer com a minhas relações amorosas falhadas, esses desastres sem solução. Mas sou frio como a pele de um réptil, a minha alma não se comove, eu não tenho remorsos de nada nem lamento o que me foi tirado depois de me ter sido prometido. A loira vai-se embora, ninguém aguenta muito tempo nesta monotonia. Com ela vão-se embora duas miúdas bem giras, meninas de lábios carnudos e colares com pedras bonitas no peito descoberto. Como vou resolver o problema da minha solidão, como vou escapar ao tédio que me oprime, me reduz a nada?

Apesar da luz eléctrica, as cidades são lugares tristes, solitários. As pessoas mal se conhecem, detestam-se, ignoram-se. Não sou diferente dos outros, nem melhor nem pior. Quando chegam noites como esta, venho para aqui queixar-me da solidão e do tédio a que não se pode escapar. Em tempos vivi com uma mulher, mas com ela também me aborrecia, eu saía de casa à meia-noite para ir beber uma cerveja a um bar e deixava-a a dormir. Come on, man, de que é que te queixas? A vida é um estopada, tu não tens culpa. O amor distrai-nos da verdade, faz-nos perder a lucidez. Deve ser um truque da biologia, a espécie quer reproduzir-se. Ficamos cegos e tolos, obedecemos. Alguns nunca mais abrem os olhos. Outros não chegam a fechá-los. Sem as miragens criadas pelo amor, a realidade e a vida seriam suportáveis durante quanto tempo? Vivemos na selva, o sangue escorre em silêncio das feridas, o comunismo que fracassou e o capitalismo selvagem triunfante foi tudo o que nos deram e continuam a dar.

Não acabo o whisky, não me apetece beber. A Sandra e o Filipe continuam a conversar, eu vou pensando coisas inconsequentes. O tabaco sabe-me mal e já fumei de mais. À minha volta ninguém que suscite o meu interesse, acabou-se o recreio. Penso em voltar para casa. Em casa tenho o computador, ligo-me à internet, talvez me distraia durante uma hora ou duas das inquietações sem solução.

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