Monday, October 01, 2007

Sonata nº 27

A sonata nº 27 de Beethoven para piano. Enquanto ouvia foi-se-me enchendo o espírito de energia, de alegria. A espaços, intermitentemente. Mas quando me dei conta disso tomei consciência do que se estava a passar: renascer das cinzas, não se deixar vencer pelas contrariedades ou falta de sentido do que vai acontecendo. Falta de sentido? Expressão infeliz. Tudo tem sentido, o que não tem grande sentido é a existência, a breve existência humana na terra. Mas ia ouvindo a música e o meu coração despertava, alguma coisa escondida se revelava. O dia saltitava de jovialidade e de esperança.

Nesse estado de espírito, quando a sonata deixava de dançar e de se elevar com alegria no piano para se pôr a meditar, a duvidar, a reexaminar a questão, caiu-me nas mãos um desenho a lápis: três laranjas, umas folhas verdes de laranjeira, tudo num papel ou cartão do tamanho de um bilhete postal ilustrado. No verso havia palavras e pus-me a ler, imprudentemente. Se citadas aqui, as palavras fariam sorrir o leitor arrogante e instruído em literatura. Mas cada frase foi um pequeno punhal a cravar-se-me não sei em que parte do corpo. Resumindo, nas minhas palavras involuntariamente literárias, no meu estilo artificial: eu tinha-lhe escrito uma carta de despedida e ela achava que sim, que devíamos separar-nos. Mas alinhava umas frases ofensivas: o que sinto por ti é puro e verdadeiro, nunca mais te vou esquecer, coisas assim. E dizia ainda que nem as palavras nem os sons nem os gestos necessários à expressão do que sentia e da situação em que nos encontrávamos lhe eram acessíveis. Pois, acredito que não. Apeteceu-me perguntar-lhe: experimentaste ladrar? Mas não perguntei, ela nem sequer estava ao pé de mim. Prémios de consolação, pensei eu, esta imbecil pensa que eu necessito de ouvir os lugares comuns da ruptura, aqueles que se dizem quando já se está noutro sítio e a relação que se abandona nos pesa incomodamente. E por essas reflexões me fiquei, afastando a pena que ela adivinhava que eu ainda iria sentir “alguns anos depois”.

A tarde avançou, passei a outra coisa. Claro, o grande tópico da minha existência neste momento, naquele momento, era o abandono. Nada de original, todos os livros de poesia, todos os romances têm páginas sensíveis, eloquentes e consoladoras, ou nem por isso, sobre o assunto. Desde a Antiguidade. Desde que há documentos escritos a dar conta do que sentiram os nossos antepassados.

Eu estava portanto só na casa vazia e se abandonara, também me sentia abandonado, embora não o quisesse reconhecer ou conferir ao que acontecera mais importância e dramatismo do que o aceitável. Diante de mim tinha dois meses de férias ameaçados de recordações penosas, de solidão, de frustração. A sonata de Beethoven, porém, provava-me que les jeux n’étaient pas faits, oh non, pas encore. Muita tinta havia de correr e eu já tinha projectos para o futuro mais imediato. E se fugir à casa vazia, ao tédio, às lembranças amargas e inúteis era o que eu precisava de fazer, eu não hesitaria em meter-me num avião e ir à procura de mim mesmo e da realidade noutro lugar.

Disse um filósofo moderno que nós aprendemos as palavras, isto é, o seu sentido e o seu uso, "em certos contextos". Não é difícil fazer a transição e afirmar que tudo o que sabemos da vida o aprendemos “em certos contextos”. O amor, por exemplo, o que é o amor, o que identificamos, imaginamos, reconhecemos como sendo o amor? É um conceito que chegou até nós e começou a fazer parte de nós “em certos contextos”. E se os contextos não eram os mais adequados para tal aprendizagem? Cada um de nós tem, no que respeita a "contextos", experiências únicas e muito diferentes das experiências de outras pessoas. O conceito de amor, como qualquer outro conceito, é uma ficção da gramática que nos demora tempo a desmascarar. O que é que eu aprendi sobre o amor, com quem é que o aprendi, em que circunstâncias? Há gente a mais metida nesta história, mas parece que não e que as coisas são simples. O amor? Toda a gente sabe o que é. Basta ir ao cinema ou ler romances, poemas, olhar para os professores, os pais, os amigos, ler jornais, sei lá. Está toda a gente sempre a ensinar-nos o que é o amor, a confusão é enorme, o malentendido acaba por passar despercebido.

Onde aprendi a amar senão no desamor, disse-me eu, querendo voltar à realidade bruta e fugir à filosofia.

Fui à cozinha, tirei uma garrafa de vinho branco do frigorífico, abri-a. Enchi um copo e vim sentar-me diante da televisão sem som a ouvir um quarteto para cordas de Beethoven. Ele sabia como resolver os problemas que se criava com as primeiras frases de um sonata, de um quarteto, de uma sinfonia. Se aprendêssemos com ele a arte da concentração, a invenção, a liberdade. Se aprendêssemos com ele a ir integrando os elementos novos que querem entrar na obra, se soubéssemos reconstruir em permanência sem nos assustarmos nem perdermos a cabeça. Talvez aprendamos um dia.

(Do Caderno Azul de Rodrigo Matias)

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