Tuesday, October 02, 2007

Fingir

Um amigo meu, pessoa culta, pensa que o famoso poema de Fernando Pessoa sobre o poeta que é um fingidor não passa de uma boutade sem grande sentido. Não estou de acordo. Os meus argumentos:

1. "O poeta é um fingidor". Como interpretar esta frase? O mundo a que se refere a literatura é sempre uma construcção, uma ficção, o que na linguagem da literatura se diz não tem nada a ver com o que acontece historicamente, realmente, e portanto o poeta é por natureza alguém que está sempre a "representar" ("je est un autre") no sentido teatral da palavra. O que é um poeta, porém? Pode ser-se poeta sem escrever poemas? Se pensamos que sim, e que a atitude poética se pode encontrar em discursos e comportamentos quotidianos que a História da Literatura nunca registará como poesia, somos obrigados a pensar que na vida considerada real (por oposição à representada na literatura) também há "fingimento", isto é, uma teatralização e ficcionalização semelhante à que encontramos na poesia. Conclusão: je est toujours un autre e a identidade verdadeira, aquela em que não existe "representação" ou "fingimento", é uma utopia. Se eu sou sempre "outro" como se explica, então, que me reconheçam e me atribuam certas qualidades, defeitos, temperamento, ideias, opiniões, etc.? Terei eu, na minha maneira de ser "outro", preservado a minha identidade "oficial", a imagem exterior ou pública que se tem de mim? É o que parece. Eu sou sempre outro embora pretendendo ser sempre eu mesmo. De qualquer modo o que aqui nos interessa agora é apenas que o poeta, o escritor, como o actor, é por natureza, sem poder escapar a isso, "um fingidor". Um fingidor que pode fingir "tão completamente", de maneira tão verosímil, convincente, perfeita, que nós tomamos o que ele nos diz pela verdade, por qualquer coisa que aconteceu, que existiu ou existe independentemente do "momento" criado pelo texto literário.

2. "Finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente". Imagino que é esta a frase polémica e que pode parecer uma "boutade". Para mim não há problema. No processo do "fingimento" poético mesmo aquilo que tem ou teve existência real fora do poema adquire na obra literária o estatuto de "representado", de "fingido". Nada na obra literária escapa às regras da "ilusão de realidade", da "verosimilhança", da "arte", do "fabricado", do "exibido" como ficção, o que torna impossível decidir que alguma parte do que é dito na obra aconteceu na realidade e outra parte é pura invenção. Para fazer distinções desse tipo temos de recorrer, com os riscos que essa decisão implica, a testemunhos exteriores à própria obra (alguém, talvez até o autor, afirma, com provas ou sem elas, que o que na obra literária é objecto de representação é autobiográfico). E qual é o interesse dessa distinção? Essa distinção entre o "autobiográfico" ou o "histórico" (o que "aconteceu de facto") e o "inventado" não é uma distinção importante para a literatura. Mas a frase polémica de Pessoa tem outras implicações: ao exibir como fingimento, como representação, a dor que de facto sentiu, o poeta está a esconder do leitor a sua vida real. Que Pessoa veja nessa atitude - dar como fingido o que de facto aconteceu - uma forma superior do fingimento não tem apenas implicações estéticas, pois o que parece é que para Pessoa o poeta é alguém que ao agir assim revela uma forma de pudor que o engrandece: apaga-se modestamente por detrás do respeito pela "função" poética da linguagem; não se propõe como objecto de piedade ou de admiração, pela sua coragem, ao leitor; nem lhe dá confiança para imaginar que sabe alguma coisa de uma outra vida sua, a "pessoal", a "real". So, if you think that reading my short stories opens the door of my heart or of my mind to you, you are misleading yourself. I love games so much, you know.

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