Thursday, September 27, 2007

Quem nos inventou

Ninguém, se tu falares, te ouvirá. Passou
o tempo, apodreceram as palavras? O que
são as palavras? Pedras no regato. Pões
os pés para atravessar, do outro lado vem ao
teu encontro o rosto indecifrável, o corpo
inalcançável. Brumas. Parecem simples
no sorriso, na alegria dos rostos juvenis,
a vida e o amor. A rapariga é um mistério,
ela caminha na praça deserta do centro da
cidade e não se sabe o que ela pensa, aonde
vai. Se lhe perguntarem, ela não responde.
Se respondesse, ninguém compreenderia
o que ela queria dizer. As palavras são a
moeda do sonho, barcos que o vento empurra
para o desconhecido. E surge diante do
olhar daquele que as pronuncia um mundo
cheio de sentido. Ilusão. Consola-te com
o que tu próprio inventaste e nunca existiu.
Os poderes da imaginação. O mecanismo, a
máquina, rodas dentadas que se acariciam e
agridem mutuamente. Existe o movimento.
Diz-me, porém, o que viste no movimento,
identifica o que aconteceu em vez de não
ter acontecido nada, diz-me aonde vamos,
aonde fomos, para que serve deixarmos
o lugar onde morríamos de tédio. Que nos
chamou? Que nos convenceu de que o sentido
habita, oculto, as formas? Relações? Estendemos

o pé, pousamo-lo na pedra do regato, atravessamos
para o outro lado. De onde viemos? Aonde vamos?
Que aconteceu enquanto no espírito as nossas pernas
metafísicas avançavam na direcção do fim em vista?
Às vezes acredito na imortalidade. Os dias e as noites
repetindo-se sem fim, nada a recear, a morte não
existe, ninguém envelhece nem perde a capacidade
de amar, de sorrir. Mas a memória dos mortos
faz-me duvidar da exactidão do pressentimento.
Entendo então que morrer é um episódio sem
grande interesse: adormecemos, voltamos ao nada
infinito de onde nos trouxeram inesperadamente.
E a vida continua. As pedras duram, os rios duram,
os mares agitam-se. A mudança existe, mas a
dissolução é lenta. Se pelo menos houvesse,
depois da morte, o reino de Deus: vastas
planícies, lagos e florestas, ar frio e puro, amor
sem condições e sem limites. É com isso que
sonhamos. É nessa felicidade eterna que
começamos a pensar quando passa por nós
uma rapariga com a novidade do seu rosto,
com os seus olhos tímidos e ávidos, com as
suas pernas nervosas, tão seguras a pisar a
terra da realidade e do sonho. Onde estão
os limites? O que é que é matéria e o que é
que é espírito? Quem nos inventou conhecia
as regras da gramática, era exímio em ver as
relações entre as palavras e as frases, sabia o
que fazia. Quem nos inventou escrevia versos
à noite antes de adormecer. Ou novelas. Ou
relatórios rigorosos. A ideia da coerência não
lhe era inacessível. E pouco lhe importou, a
esse criador, que pudéssemos pôr em causa o
sentido profundo, a verdade dos seus discursos,
essas construções perfeitas. Se existes, ó
criador de tantos mundos, faz com que me
veja a rapariga que acaba de sentar-se no café
à minha frente. Faz com que ela seja capaz de
distinguir o amor da indiferença, dá-lhe um
espírito profundo. E não lhe tires para
compensar tanta perfeição os cabelos que
lhe caem nos ombros nus, nem os braços
bronzeados, nem o resto do corpo. Porque
tudo será necessário para suscitar e preservar
o meu amor. Na tarde de Verão que vai terminando
desviaram-me do tédio os pensamentos vãos. Não
resisti ao instinto de sobrevivência?
O silêncio,
o nada, aterrorizam como o monstro
inexistente
das noites infantis? Quem pergunta não

sabe responder. Quem poderia tranquilizá-lo?

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