Saturday, September 15, 2007

O evidente, o normal, etc.

Na tentativa de reconstituir acontecimentos que não presenciaram as pessoas têm tendência a comparar comportamentos que lhes disseram ter ocorrido a modelos de comportamento que elas mesmas consideram "normais" e a extrair daí conclusões infalíveis, inflexíveis, delirantes. Mas a "normalidade" é pura especulação. Contrariamente ao que se pretende, não existe para cada situação um modelo de comportamento exclusivo, único, adequado, inevitável, e que seria "o comportamento normal" da pessoa "normal". Não há senão na literatura, nos tribunais e na imaturidade da nossa imaginação "actores perfeitos" segundo os códigos que consideramos "normais". Pretender o contrário é criar um "robot" humano inexistente na realidade, que reagiria sempre infalivelmente, mecanicamente, motononamente da mesma maneira em resposta aos mesmos estímulos exteriores ou à mesma circunstância. Não se vê logo que é tolice de uma psicologia ingénua e ultrapassada pensar assim? A educação que recebemos, os modelos de raciocínio que adquirimos vivendo em sociedade fizeram de nós adeptos involuntários, na avaliação do comportamento alheio, dessa temível e primária lógica da "normalidade". Bastaria revermos o nosso próprio comportamento quotidiano em circunstâncias diversas para entender que frequentemente nós mesmos agimos em total contradição com esses pretensos "códigos da normalidade" (com o comportamento do "robot") que de boa fé queremos impor aos outros para nos tranquilizarmos, os julgarmos, os condenarmos. Leia-se ou releia-se Roland Barthes, Mythologies (1957), "Dominici ou le triomphe de la littérature" em particular. Ou Le pullover Rouge, de Gilles Perrault.

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