Monday, September 24, 2007

A música das línguas

A música da língua. Sem prestar atenção às palavras ou ao seu sentido, sem querer entender as frases como tentativa de expressão de alguma coisa, a gente dá-se conta finalmente de que uma coisa é falar, outra coisa é a melodia do ruído. As raparigas ou os rapazes falam português de Portugal ou do Brasil ou de Angola, inglês dos Estados Unidos ou de Inglaterra ou da Escócia, francês de França ou do Quebeque, castelhano de Espanha ou do México ou da Bolívia, por exemplo. Gente de idades diferentes, com estatutos sociais diferentes, com origens sociais diferentes, de regiões diferentes, de sexos diferentes, em estados de espírito diferentes, com preocupações ou ambições diferentes, etc., etc., "falam" músicas diferentes, variações da inicial eventualmente, daquela melodia de uma língua que se instala em nós quando se aprende a falar e que não é por força uma música para sempre idêntica, uma melodia que não possa mudar. O impacto e o sentido das palavras e das frases e o impacto e sentido da música da língua são produto de órgãos distintos em funcionamento simultâneo. Duas máquinas que se pressentem uma à outra, mas quem saberia a partir disso elaborar um dicionário, um manual de estilística ou de harmonia exemplar, rigoroso, infalível, elucidativo? Ao inexplicável tentamos opor-nos querendo entender e querendo explicar. Mas neste caso como em quase todos explicamos o quê, que sabedoria ou ciência nasce das nossas pretensões? Interpretar é que é algaraviar.

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