Sunday, September 02, 2007

Em despeito do amor profano

Mostra prudência sábia o que é minino,
Apresenta-se manso o que é tirano,
Aparece sagrado o que é profano,
Profanando porém o que é divino.

O siso quer fingir no desatino,
A verdade pintar no falso engano,
Disfraçar o proveito em nosso dano,
Matando o natural e o peregrino.

Imóvel se afigura o inconstante
Amor, porque de falsa cor se tinge
Para que nada dê, mas nada negue.

Tal este amor se mostra e finge ao amante,
Mas tal qual este amor se mostra e finge,
Tal fica quem o busca e quem o segue.

Baltesar Estaço (poeta do século XVI)

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