Saturday, August 18, 2007

Mais dúvidas




"there is not such thing as The woman... (...) the definite article stands for the universal. There is no such thing as The woman since of her essence (...) she is not all"
(Lacan)

"a woman is a symptom (...) of the polymorphous perversion of the male" (Lacan)


Mais uma vez duvido. Acho que entendo o que Lacan quer dizer. Mas a questão da "masculinidade" tem sido discutida recentemente em termos semelhantes. Num caso como no outro trata-se de desempenhar um "papel", "un rôle", como se diz em sociologia. Eu sei que uma mulher pode irritar-me se adopta comportamentos (linguagem, trejeitos, maneiras de vestir) em que a feminilidade acaba por se revelar de tal maneira uma máscara e um exagero que a gente perde a paciência e o interesse. Mas o mesmo se pode dizer dos homens e da masculinidade. Como se decide, porém, quais são os limites a partir dos quais há "excesso"? Cada um de nós é diferente dos outros, portanto não há regra que sirva a todos. A questão também se pode alargar a outras formas de assumir uma "identidade": crianças, pessoas de idade, deficientes, podem levar tão longe a necessidade de se assumir e reivindicar como tais que nós, perante tão perfeita "representação", não podemos evitar sentir o "excesso" e ficarmos irritados. E de novo surge a mesma pergunta: quando é que começa a haver "excesso", quando é que começa a sentir-se que há artifício e jogo? E já agora: quando na questão da identidade interferem os "traços" característicos de uma profissão, assumida ela própria de maneira tão "excessiva" que os romancistas e os dramaturgos sentem a necessidade de caricaturar, o problema não é semelhante? Mais sobre o mesmo: José Gil e Eduardo Lourenço acreditam que os portugueses se distinguem dos franceses e dos alemães, mas adoptando a perspectiva de Lacan não seria mais correcto dizer-se que "there is no such thing as the Portuguese"? Como tudo isto é divertido quando se pensa nisso de certa maneira...

Às vezes a maneira de ver e de pensar que tentam impõr-nos os pensadores que nos guiam é tão artificialmente teórica. Se nós, homens e mulheres, crianças, adultos e pessoas de idade, pessoas saudáveis e doentes, professores e locutores de televisão perdêssemos enfim as nossas "manias", nos despíssemos dos nossos excessos, poder-se-ia dizer com acerto que atingimos enfim a perfeição, o "grau zero" do ser, e que o mundo ficou mais pacificado? É possível, não sei, mas a pergunta parce-me fútil. A grande questão é outra: mulher ou homem, se conseguíssemos, sem deixar de os ser, ser também e sobretudo pessoas...

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