Monday, August 06, 2007

Escritores?



A missão social do escritor tende a confundir-se com a sua vocação espiritual, com a sua vocação comercial, com o seu destino: sem escriturário ou folhetinista que escrevesse o guião das cenas quotidianas de acordo com as leis estatais, os credos religiosos e ideológicos, etc., a existência humana reduzia-se à caótica ditadura da biologia e às suas consequências impossivelmente referenciadas (nem sequer mentalmente, num estado pré-verbal). Por isso eu não gosto da maior parte dos escritores e abomino em particular os escritores populares, que vendem muito, dão regularmente entrevistas, escrevem crónicas nos jornais mais lidos, contam quando deixaram de fazer chichi na cama, o que liam quando eram pequeninos, o que pensam enquanto nadam na piscina. Eu quero lá saber o que eles pensam, quando é que eles se divorciaram, o que eles fazem. Eu não os conheço nem os amo. Por isso não me aborreçam com mariquices narcisistas. No panteão das minhas autoridades aceites ou reconhecidas não há nenhum escritor contemporâneo português e famoso. Até tenho pena de quem os lê, para ser sincero. Embusteiros. E tenho pena de mim mesmo por ter demorado tanto tempo a perceber com clareza o logro em que vivi durante tantos anos.


O silêncio não é obrigatório. Mas escrever devia ser como fazer bolos, encher garrafas de vinho ou pneus, vacinar crianças, assar peixe nas brasas, dar beijos. Isto é: escrever deveria fazer-se de maneira tão natural, espontânea e justificada que não suscitaria elogios despropositados. Alguém felicita ou premeia alguém por respirar, por fazer pão, por se levantar da cama de manhã? Para quê, então, tanto alarido e gastos inúteis com condecorações presidenciais a gente que escreve e publica livros? Tudo isto cheira a negócios obscuros que a polícia de costumes poderia investigar.

Penso estas coisas como coisas importantes. Que me importam as desinteressantes divagações mentais de outras pessoas quando elas se formalizam, se corrompem em imitação de qualquer coisa que a sociedade adora - sem reflectir e sem sentir - sob a designação de “obra literária”? Os escritores banais, que são a quase totalidade, só têm interesse como sintomas. Através deles, neles, é posto a circular pomposamente, isto é, “artisticamente", isto é, com complacência, ignorância, arrogância, vaidade, uma gama de produtos vulgaríssimos e nada genuínos, coisas que facilmente se consomem em vez de prestar atenção ao que se está a passar e que é sempre difícil de identificar.

A literatura imita a realidade ou inventa-a? Impõe-a, desculpa-a? Confunde-a, deturpa-a, assassina-a? Provoca-a, nega-a?

O que é que nasceu primeiro, foi o ovo ou a galinha? Isto é, foi a literatura ou foi a realidade, foi o professor ou o romancista? Foi a galinha ou foi o galinheiro?

No comments: