Friday, July 20, 2007

Vago

Confidências. Estados de espírito. Mas
não se movem as montanhas nem no mar
se agitam as ondas, tu podes amar ou odiar,
sentir-te só ou feliz, ninguém se dá conta.
Aquela que ao teu lado dorme não sonha
contigo. Nem na sua imaginação tu és o
abnegado cavaleiro que de aventura em
aventura persegue pelos campos um segredo,
a verdade, a decifração do mistério. Ausenta-te.
Foge de ti mesmo. Abandona todos os amores,
despreza o vício. Nem assim as águas, nem
assim os rios hão-de dar pela tua peregrinação
solitária, nem no futuro alguém sentirá por ti
alguma coisa, entende bem isso. Escreve à noite
nos cafés poemas inúteis em vez de ir jogar
poker ou de num bar te embebedares. Distrai-te
da solidão, gasta-a sem piedade inutilmente. Tu,
aquele que recusou todas as oportunidades de
redimir na santidade ou no crime o pecado da
desilusão, o remorso da perdição. E nem te amam
nem tu amas. Como se fosse apenas uma palavra,
a tábua do amor, destroçada, foi lançada ao rio e
agora vai, ignorada, pelos caminhos, pelas veredas
que ninguém conhece. Tu, ó falso místico, ó
religioso de crenças que nenhum deus se
preocupa em recompensar. Tu. Podes acreditar
que aconteceu alguma coisa. Mas nada aconteceu.
Estados de espírito: nuvens, fumo. Alegria ou
dor: vapor de água invisível. E sentados nos
cafés os jovens, rapazes e raparigas, sorriam-se,
trocavam as palavras do amor. Se eles soubessem.
Noites de ninguém. Não sucumbias. Não desesperavas,
não te sentias pobre ou rico, feliz ou desgraçado.
Tudo no seu lugar, paz do vazio que nenhum
remorso ou necessidade perturbava com o seu
ruído exagerado, com o gume da sua faca assassina.
Ó recordações de outrora, de outras cidades, de
outras paisagens. A Sainte Victoire branca, os
pinheiros na estrada do Tholonet, as papoilas
vermelhas nos campos loiros de trigo a ondular
ao vento. E de tudo ficou apenas a memória,
aqueles que lá estiveram juntos separaram-se.
Podes voltar, é a tua terra. Estão lá as flores, o
verde dos pinhais e o vermelho da terra onde
cresce o romarin é o mesmo. Só faltas tu e
aqueles que tu amaste e amas, jovens ainda,
na infância da vida. Amar de que serve? De
nada. Sofrer de que serve? De nada. Mas
porque haviam de ser mais do que felicidade
ou pena, mais do que ódio ou desejo os
sentimentos, porque haviam de ser mais do
que o que são? Os seios pequeninos da rapariga,
o seu corpo sossegado que a imaginação do
prazer não perturba ainda. A contemplação da
beleza e o tédio. Inventa-te um destino. Um
sacrifício. Uma vocação. Um desespero. Uma
dor de amor profunda. Chora. Não te incomoda
hoje a beleza, nem isso. Elas, as raparigas, podem
ir e vir diante de ti com as suas pernas nuas
bronzeadas, o cabelo desgrenhado na nuca,
a saia de algodão bonita, o fio de oiro no
pescoço. E tu lembras-te daquelas que amaste
um dia. E não lamentas nada realmente. Nem
te incomoda esta noite o que apreendeste sem
querer sobre a maldição. Onde está a pobre
louca que passava os dias e as noites a gemer,
que sonhava com amores que nunca existiram?
Já não dormia nem comia, uma terrível doença
atormentava-lhe o corpo e o espírito. Que tédio
sem fim a vida, afinal. Na mesa ao lado da tua
na esplanada do café as pernas das raparigas
cruzam-se e descruzam-se e as suas mãos
acariciam o nada com ternura. E sem inveja nem
sofrimento tu observas, sorris com bondade.

No comments: