Sunday, July 15, 2007

O meu cão e tu




Nunca nada me fez só mal, nem só bem. Tudo me tem feito sempre mal e bem. Hoje não sei que dizer, só te envio a fotografia do cão. Por mim não mandava. Mas o cão veio pôr-se ali à entrada da sala, na porta que dá para o jardim, e perguntou-me porque é que eu lhe tinha mentido.

- O que é que estás para aí a contar, disse eu.
- Disseste-me que ela hoje vinha, mas não veio nem vem.
- Como é que sabes?
- Assim que olhei para ti esta manhã percebi logo que ela hoje não vinha.
- Provavelmente ela nunca pensou em vir. Sabes como são as miúdas, um pouco fúteis, não sabem o que dizem.
- Mas tu pensavas que ela vinha.
- Nunca acreditei nisso a sério. Mas era uma possibilidade.
- Ela não é fútil, não inventes.
- Ok, ela não é fútil, nunca foi fútil, antes pelo contrário, tens toda a razão. Retiro o que disse.
- As raparigas não sabem o sentido exacto das palavras que dizem e que ouvem. Põem-se a sonhar com felicidades que ou não existem ou não duram muito. E tu exageras, falas sempre demais.
- Páras de me criticar, se fazes favor? Ou ficas sem o osso do jantar.
- Escusas de me ameaçar, eu não me calo. Tu inquietaste-a.
Aborreceste-a. Fizeste de propósito?
- De propósito o quê? Obriguei-a tomar consciência do sarilho em que se estava a meter. Foi só isso.
- O amor obrigou-te a sacrificar o amor. Contradições. Acredito ou não na tua bondade?
- Ela não tinha força para aguentar as consequências do que estava a fazer.
- Exasperaste-a de propósito, era o que eu queria dizer. A dado momento quiseste que ela se fartasse de ti.
- Se eu te explicasse tu não entendias. O que é que os cães sabem do amor? Os cães e as cadelas só sabem de sexo.
- Tudo na vida dela estava em ordem até tu apareceres. Ela dormia descansada.
- Não sei se dormia descansada antes de me conhecer, acho que não. Mas sei que percebi a tempo que se a deixasse acreditar que me amava a vida dela ia sofrer uma grande reviravolta.
- És tão imaturo. As paixões são sempre nefastas. És meio doido. E não tens emenda.
- Só meio doido? Sou doido de todo. Mas corrigi, está bem? Não aconteceu nada de grave nem vai acontecer.
- Alguma coisa deve ter sobrado para ela. Algum estrago.
- Tudo se resolveu como devia ser. Já te disse que não vai haver drama nenhum. Que chato!
- Vi-te secar umas lágrimas ontem.
- Porque é que te estás a meter onde não és chamado? A história de amor é minha e dela, não é tua.
- Está bem, já cá não está quem falou, peço desculpa.
- Eu e ela assumimos as responsabilidades. O prazer e a dor, a dúvida e o erro. As consequências. Tu não passas de um cão, portanto cala-te.

- Tanta arrogância. Os cães também têm sentimentos.
- Pois.
- Vi-te meio triste. O orgulho não te vai servir de nada.

- Estás enganado. Estou tão feliz como antes. Aliás ficas a saber que continuo a gostar muito dela, não mudou nada.
- Pois. Não mudou nada.
- Nunca me aconteceu uma coisa assim. Não me vou esquecer das palavras que ela me escreveu. Nunca. Ela é corajosa.
- Tudo se esquece um dia, não te iludas.
- O raio do cão. Abelhudo. Se já se viu um descaramento destes.
- Não desconverses.
- Nunca ninguém me disse de maneira tão sincera e tão terna que me amava. E muitas vezes. E ela está longe de ser uma pessoa qualquer.
- Pois, acredito.
- O que ela diz não pára de me supreender, faz-me pensar, toca-me. Uma sinceridade quase infantil.

- Pois, talvez. Mas arriscas-te a ficar sem nada na mesma.
- Que imbecil. Mas para que estou eu a abrir-me contigo. Parece que o parvo sou eu.
- Tiras-me uma fotografia?

- Para mandares à tua namorada? Não me faças rir.
-Grrrrrrrrr....
- As cadelas preferem os cães de carne e osso, uma fotografia não resolve nada.

- Perco a paciência e o respeito e mordo-te. A fotografia é para lhe mandares a ela. Não me digas que ainda não lhe falaste de mim...
- Morde à vontade. Olha, morde aqui na perna. E quem é que pensas que és para eu lhe falar de ti? A gente ouve cada uma...
- Ingrato, pouco educado e cobarde. Não tens coragem de assumir em público que és meu amigo.
- Não comeces com histórias...
- Ela não te sai do pensamento.
- Pois não. É natural.
- Digo o nome dela? Começa por A ou por ...

- Caluda! Proibido dizer o nome.
- Que reprimido. Tanto pudor, tanto segredo. Sofres em silêncio.
- Pensa o que quiseres. Eu não sou nenhum romântico imbecilizado. Mind your own business!
O cão olhou-me com ar interrogativo, não sei se duvidava da minha sinceridade. Eu vim-me embora, sentei-me a ler. Tirei-lhe a fotografia, mando-ta aqui. Um cão que pensa e fala não é coisa corrente. Enquanto te escrevia estava a ouvir os Madredeus. A hora que te espreita é só tua... Coisas pequenas... E a menina... foge... o barquinho... do Porto para Lisboa... foge a menina da beira-mar... Haja o que houver, eu estou aqui... Mas não posso pôr a música muito alta porque, como tu dizes, eu sou “um amor clandestino” e por isso não tenho direito a nada. Posso dizer pela boca da Teresa Salgueiro que “queria mais alegria, isso é que eu queria”, posso deixar essas palavras e a música como mensagem no teu telefone, mas é tudo. É muito ou pouco? É muito e é pouco.

P. S. I shoud write to you in English but I prefer not to, forgive me. If you did not understand what I wrote it doesn't matter anyway. I found this letter and the picture of the dog
today among other old papers in my new house, I couldn't stop thinking of you afterwards. It was longtime ago, do you still remember? Maybe not. I found a picture of you in the internet, you didn't change much. In the picture you smile, you look happy. I really loved to see you again so many years later.

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