Saturday, July 28, 2007

friday night

como passava o tempo?
sem destino sem futuro
sem remorsos sem pena
sem amor sem ódio
como se nada passasse
nem houvesse lugar onde
nem razão para
nem som nem cor
nem sentido nem o vazio
e eles e elas dançavam
ao som da música irlandesa
no bar onde se transpirava
pedi um mojito ao balcão
nada a ver distanciei-me
mamas gordas barrigas

nada a ver com o meu destino
as quase inocentes de pele jovem riam
as quase velhas a tentar ainda
os homens sós e dava pena
trejeitos caretas passos indecisos
e tu ao balcão enchias os copos
e tu sorrias mantinhas a compostura
eu tinha estado a olhar para um rosto
para uns olhos para umas mãos eu e ela

estávamos ainda sentados lá fora na esplanada
que noite terrível de calor insuportável ela
viu que eu a via mas era tão discreta tão
bem educada tão séria o que me seduzia
evidentemente a seriedade a beleza das
maneiras são indício de uma alma habitada
por pensamentos nobres por desejos dignos
de longas horas de investimento e de investigação
depois chegou um rapaz e foi a mão dele que ela
tocou não sei se com ternura se com amizade

ou se foi para eu ver como se é mulher carinhosa
com um homem e agradou-me a simplicidade a

espontaneidade o calor que senti nos seus olhos
nos
seus dedos ah ser querido e pensado por uma
menina assim sonho inútil eu de qualquer modo

sabia que não tinha hipóteses estava apenas a
distrair-me a
ver passar a noite seria incapaz de
falar sem
mais nem menos a uma desconhecida
embora
amá-la não me parecesse extravagante seria
certamente uma experiência apaixonante cheia de
imprevistos
de alegrias de esperanças de dissabores
até acabar tudo em nada como acontece quase sempre


o mojito eu olhava-o e bebericava um dia destes
disse-me o rapaz que trabalha no bar e que sempre
me aperta a mão levo-o a comer caracóis a uma tasca
que eu conheço de acordo disse eu a repensar o passado
a tentar sentir-me romanticamente infeliz sem conseguir
não tive saudades dela ela aborreceu-me só de pensar
nela invadiu-me o tédio ah os anos perdidos ao lado
daquela tonta pensei eu ela perdeu-se de si mesma
para sempre quero lá saber durou dois anos depois
apagou-se a chama e à fada sucedeu a bruxa desvairada

para me consolar de ter vivido tão distraído
tão seguro erradamente de estar no caminho
certo lembrei-me da minha menina aquela que
me escrevia um beijo meu amor no fim das cartas
aquela que ao contrário da outra i love you and think of
you all the time e eu dizia-lhe previdente corremos
o risco de estar a viver um amor abstracto o amor não
é um bicho que se possa alimentar a si próprio durante
muito tempo o carnívoro o falso o imprevisível o
animalzinho sem escrúpulos ah o amor e o que a gente
inocentemente imagina que ele é tu estás a dormir escrevia
eu dou-te um beijo mas em que parte do teu corpo tu não
sabes quando acordares procura a marca e ficarás a saber
a grandeza da minha paixão por ti saberás tudo e ela dizia
um beijo enorme e prolongado for how long penso eu agora
mas tudo nos escapa falhamos todas as oportunidades de
ser amados por quem nos ama cobardia ignorância ligeireza
depois um dia morremos e assim se esgotou o nosso destino

quando saí daqui na sexta-feira cheia de
raiva de ti pensei é agora que me livro dele
da ascendência que ele tem sobre mim do amor
e no entanto passei o fim de semana todo
sem conseguir fazer isso conscientemente eu
odiava-te mas lá no fundo não conseguia
e não sei se não tinha medo de viver aí é tão
sozinho só mesmo com um cão bom dia
meu querido afinal tens mais poderes do
que pensas gostava que me visses hoje
sinto-me tão bonita falar contigo acalma-me
e deixa-me feliz vou ficar com a minha cabeça
encostada ao teu ombro e sentir a tua respiração
se me abraçares com força ainda melhor sim sim

como passava o tempo friday night e as cinzas
voavam levadas pelo ar da noite quente para longe
nem um ruído nem uma palavra no meu coração inerte
só a música irlandesa a sacudir a noite ilusões não te
amei eu sei o bastante não lutei por ti durante anos
preferi pensar que era preciso esquecer-te desculpa-me
o amor o que é o amor o que será temos de adaptar
os nossos sentimentos ao bater das batutas militares
quem é tão divino que possa desobedecer ser feliz

No comments: