Friday, July 20, 2007

Era uma sexta-feira...

Quando expôs o quadro a artista escreveu por baixo - ou alguém escreveu por ela, noutra língua- que ele representava "le désarroi" de uma mulher que "having left her home" se sentia perdida na cidade imensa. Eu tive o privilégio de conhecer a artista antes de ela nos deixar e posso assegurar que o que estava escrito por baixo do quadro no momento da exposição não corresponde inteiramente à verdade. Ela própria me deixou em herança algumas páginas do seu diário dessa época e uma cassete que me pediu para só ouvir uma vez (ainda não a ouvi porque ouvi-la significa perdê-la para sempre). No diário ela tinha escrito estas palavras relativamente enigmáticas acerca do acontecimento que lhe inspirara a obra-prima:

Era uma sexta-feira, a noite já caíra em L... quando com uma mala saí de uma casa num bairro sossegado de C. S. Não pensava em nada, apenas ouvia o ruído das rodas da mala no passeio de cimento. Era nesse som que estava concentrada como se a vida não tivesse sentido. Necessidade de esquecer. Era eu que ali ia, toda, com os meus pertences numa cidade estrangeira. A caminhada era curta porque a uns cinquenta metros ele esperava-me com ansiedade. Era curto o trajecto, mas como que se prolongou para o resto da vida. Ouvia os passos e as rodas da mala na rua solitária, numa noite calma sem frio e sem chuva. Ia como quem anda sonâmbula. Quando chegasse ao carro acordaria e esqueceria o som dos passos e do rolar da mala pesada na calçada. Perdera o tino? Andara a brincar às casinhas? Não. Nem sequer podia desculpar-me com tais coisas.

Se entendi bem, estas palavras referem-se a um erro de que a artista se mostra arrependida (e que sente a "necessidade de esquecer"). Erro pelos vistos grave, pois a artista usa a expressão "perdera o tino" para tentar explicar o seu comportamento passado. A expressão "andara a brincar às casinhas" a que se refere? Adivinha-se. Embora o texto escrito para a exposição do quadro refira que "she left HER home", a impressão que se tem é que ela foge o mais depressa que lhe é possível de uma casa alheia para regressar "à SUA casa". Entende-se que a dolorosa viagem de retorno e a fuga da situação intolerável - do erro cometido - lhe parecem intermináveis. Mas "ele" espera-a "com ansiedade" e quando ela o reencontrar, ele ajudá-la-á a esquecer e cessará o tormento. As explicações que os artistas dão sobre as suas obras, como já se sabia e se prova uma vez mais, não devem nunca ser levadas a sério. Às vezes, porém, convém ter em conta que não são eles quem as escreve.

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