Friday, July 20, 2007

... e passa-o pelo corpo

Li este poema de Bruno Béu no blogue paperback. Foi uma surpresa. Há aqui e noutros textos que li no blogue qualquer coisa que já tem muito sentido... É bom que seja impossível dizer qual...

relato dentro das minhas possibilidades de um concerto

(celebração)

toma, pega neste pedacinho
de noite e passa-o pelo corpo
antes de te deitares
. o fisicista
beijava a mulher e olhavam ambos
pedaços de terra antes de manipular
os elementos. aprender música
dizia o joão é como aprender a andar
de bicicleta
. e explicava: o silêncio
é a terra batida e ao início ainda
tememos a sua força ele está sempre
lá é nele que pedalas a diferença
está que quando sabes ele tem-te
em equilíbrio porque o equilíbrio
nunca é nosso
. sabes
o que vivi ontem na floresta
da serra ao cair da tarde?
disse
a mariana ao chegar ao concerto onde
o joão a esperava não havia vento
nenhum vento como se o vento
se tivesse ido embora e a sua ausência
congelasse a copa das árvores
e folhas na beira dos caminhos.
toma, pega neste pedacinho
de noite e passa-o pelo corpo
antes de tocares
. uma mulher
chamam-na bela roda com a mão direita
um manípulo na máquina do café e lança
vapor quente para o vazio
da chávena. pergunta alto: deseja
mais alguma coisa?
no largo do palácio
duas nuvens baixam-se e apanham
uma folha que caiu no chão, dizem-lhe:
não é assim que se anda
de bicicleta, não esqueças o ditado
o equilíbrio nunca é nosso.
o joão ajusta o banco, levanta
a tampa do piano no ar e com a mão
esquerda coloca bem alto o suporte faltam
três horas para o concerto pega na chave
e lá começa a rodar as cravelhas ao piano e
a afinar os sons. no intervalo ainda tem de
verificar se eles não mudaram de
lugar. o pêndulo do relógio, se o visses
apressa-se mais do que costuma
acerta as horas pela telefonia e toca
sete vezes, manel está na hora
diz para dentro a mulher do fisicista.
tem as mãos no peito. o rodrigo
afasta-lhe o cabelo do rosto
ele e a ana têm sete anos
e beijam pela primeira vez.
faltam três dias, diz para dentro
a mariana, quantos? pergunta-lhe ainda
a mãe, três grita, o joão disse-me
que era na quinta.
uma nuvem escurece
segue para as montanhas a norte onde
chegada meditará sobre a existência. o coração
a bater-lhe muito, depois de ter subido
tudo até ao cimo. toma, pega
neste pedaço de noite e passa-o
pelo corpo antes de tocares
. o joão recebe-o
nas mãos beija a mariana e agora chama-se
rodrigo tem sete anos e beija-a
pela primeira vez. sara tem de levantar muito os calcanhares
quando abraça (e abraça-o sempre) o marido depois dos elementos
serem manipulados. ficam assim
uma existência.
o teatro já está iluminado, manuel
nos seus vinte anos ajeita a casaca
e aparece do lado esquerdo do palco. ainda
passa o lenço pelo teclado as nuvens também
suam quando sobem pensa, e toca para
a segunda parte. o joão empurra a porta e ouve-se
um sino. avisa em sinês para dentro
que um novo cliente entrara
na loja velha. (sino pequeno, voz
aguda). joão dirige-se ao balcão
respira como uma nuvem cansada
a existência dentro de si. mariana
adoecera. agora, que acabara de ser
mãe. sara olha o marido.
beijam-se e olham ambos
pedaços de terra. manuel vai para dentro
(velho como a loja) manipular os elementos. o sino
toca. um cliente saíra. abraçam-se agora. ficam assim
uma existência.
beethoven, hammerklavier, manuel coloca
ainda as mãos sobre as coxas, depois
distende os braços ao lado do corpo.
vai entrar, respira, é uma sonata, e ataca
as notas com o futuro lá dentro. uma mãe
dá à luz. beijam-se, ela e o marido, e olham ambos
no céu uma nuvem que escurece. a mulher
chamam-na bela ainda roda o manípulo de vapor
quente para dentro da chávena quando
o homem lhe responde não,
obrigado. nada mais. duas nuvens
brancas baixam-se e apanham
um homem que caíra no chão, ele
chora, e tem um pedaço de noite no bolso.
elas dizem: entende agora: é de tudo isto
que se fazem as bicicletas
.

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