Sunday, July 01, 2007

Dilema

Era um homem sem presente nem futuro. Só tinha passado. Mas viam-no no presente a cumprir todas as obrigações e sujeito a todas as necessidades, como as outras pessoas. O processo que o levara a semelhante evolução seria difícil de descrever e de explicar. Ele próprio a única coisa que sabia dizer era que odiava a situação em que se encontrava. Gostaria de libertar-se dela enfim, de aceder ao presente, de poder sonhar com o futuro. Não podia, por enquanto. No futuro só via a morte: ele e a morte, daqui a dez ou quinze ou vinte anos. Um acontecimento imprevisto, uma surpresa de que nem sequer teria tido tempo de dar-se conta. Porque num segundo morre-se, no meio da consciência que começava a ter-se do que ia acontecer. No presente só via sombras, silhuetas, inconsistência, nada. Nada em que pudesse deter o olhar ou pôr a mão sem que o passado se intrometesse na percepção, na sensação, tornando impossível qualquer emoção original, desconhecida. O conhecimento da actualidade do corpo, da consciência, do mundo estava-lhe vedado.

Como foi que as coisas aconteceram? Ele vive de obsessões, a querer resolver o que não se resolveu, a tentar compreender o que não foi compreendido. Se morresse agora, morria no passado, numa zona imprecisa do passado que tenta decifrar. O que é que há para compreender, para explicar? Ele cala-se, não responde. Se insistimos, diz: não sei. Não se pode interrogar de maneira tão directa uma pessoa sem a embaraçar, sem a confundir. Não se deve. Uma vez ele perguntou a uma rapariga com quem saía às vezes: o que é que tu queres, afinal? Ela respondeu: não sejas indelicado, perguntas dessas não se fazem. É o que ele pensa também acerca da obsessão com o passado: não há explicação, não se pode explicar; ele, a parte dele que pensa e sente, ficou lá para trás. O espírito fixou-se em certos detalhes de episódios que aconteceram e nunca mais ficou disponível para se ocupar do presente nem do futuro.

O espírito não está disponível para se ocupar do presente nem para se preocupar com o futuro. É uma maneira interessante de apresentar o problema. Não explica grande coisa, mas permite ficar com uma ideia do que se passa. O que é que ele não conseguiu entender e agora passa o tempo a tentar entender? Ele não sabe dizer. Admite que o acontecimento que está na origem de tudo, que amarrou a si o espírito, a consciência, a inteligência, pode ter a ver com o amor ou a ilusão do amor. Mas que também pode ter a ver, de maneira mais geral, com a questão da verdade. Sem se dar conta, sem o ter desejado, sem estar minimamente preparado para isso, transformou-se num filósofo perturbado por questões insolúveis. Pelo menos enquanto não encontrar a solução, enquanto não puder dar uma resposta satisfatória à pergunta fundamental, que na verdade se tem de desdobrar em duas perguntas: o que é a verdade? o que é que distingue a verdade da mentira?

A questão da verdade. Que lhe ensinaram em casa e na escola, que aprendeu na rua ou no cinema? O que é a verdade? O que é a mentira? Por que razão tem importância distinguir a verdade da mentira? Que significa dizer a verdade, identificar a verdade, reconhecer a verdade, encontrar a verdade? Exemplos: o olhar pode mentir? o rosto da mãe, do pai, da pessoa que se ama podem mentir? as palavras que aparentemente estão a dizer a verdade podem estar a mentir? o amor pode ser mentira? Não há resposta, diz ele, que permita resolver cientificamente, definitivamente, o problema. A regra, a definição que permitiriam ultrapassar o problema não só não existem como não serão nunca descobertas. Temos de viver com a dúvida. Temos de aceitar que não está ao nosso alcance chegar a uma conclusão. Às vezes ele diz: nós queremos encontrar a resposta para uma pergunta à qual não é possível responder. O rosto da verdade e o rosto da mentira são idênticos. Nada os distingue. Ora se eles são idênticos, como é que nós podemos distingui-los? O que distingue a verdade da mentira não é o rosto, é o que está por detrás do rosto. Mas não há ciência que permita ver o que está por detrás do rosto. Por detrás do rosto ora pensamos que vemos a verdade, ora pensamos que estamos a contemplar a mentira. E nós não sabemos explicar convincentemente a nossa mudança de opinião, a indecisão, a dúvida.

No comments: