Thursday, July 05, 2007

A cómoda inglesa

Aquela cómoda inglesa
que era a minha paixão,
um dia pensei vendê-la,
livrar-me da escravidão.

Nela eu guardava sonhos,
rascunhos, fotografias,
uns poemas enfadonhos,
restos de melancolias.

Rangiam como nos barcos
os mastros na tempestade
as suas gavetas velhas,
inchadas de má vontade.

Se eu tivesse adivinhado
que envelhecias assim,
nunca te tinha comprado,
trazido pró pé de mim.

Cómoda inglesa tão bera,
sem classe, sem qualidades.
E pediu-me que a pusesse
no museu de antiguidades.

Àquela cómoda inglesa
que não tinha qualidades
não faltavam arrogância,
santa ignorância, vaidades.

Se fosse jovem, bonita,
a gente compreendia.
Mas era velha, esquisita,
e além disso gemia.

Era um móvel de direita?
Talvez homossexual?
Fizeram-lhe uma desfeita?
Ninguém lhe queria mal.

Ó ambição desmedida
de móvel utilitário.
Provavelmente querias
ser madeira de sacrário.

Contenta-te com o que és,
não queiras ser admirada.
Tens o destino traçado:
um dia serás queimada.

Aquela cómoda inglesa
que eu tratara com desvelo,
ingrata, tornou-se um dia
no meu maior pesadelo.

Amarga, no canto da sala,
onde eu a tinha deixado,
se me acontecia olhá-la,
insultava-me: falhado!

Ó cómoda sem qualidades,
que eu venerei, protegi,
ignora a minha existência,
faz de conta que morri.

Eu não creio no futuro
nem na imortalidade.
Deixa-me em paz, ó maldita,
ó poço vão da vaidade.

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