Tuesday, June 05, 2007

Mudam-se os tempos

A linguagem da paixão é imoral, imortal, boçal,
sobrenatural. Tanto se lhe dá. Ele, pensativo.
Sentou-se num banco da cozinha ao serão.
Ironicamente. Pudera. Quem sofre, alienado,
baralha-se.
Quem não sente, morde-se. Recusar.
Sempre. Suicidar-se
está longe de ser uma ofensa.
Ficam as putas e
os vermes à solta, sem o nosso
carinho ancestral. É triste, é pena. Sobrevivem
os virtuosos?
Sei lá. Masturbar-se obriga a adiar a
dissecação
do cadáver, essa vocação. Tão amado,
tão apalpado e apaparicado,
o odioso. Repelente.
Esguicham-lhe dos olhos esvaziados os esperma-
tozóides, essa praga. O
rosto do mundo. Deus, ó
Deus, se existes, restitui-me
a inocência, restaura-me
ignorante. O amor. Não me o
negues, ó Deus dos
bordéis que proteges da destruição
todos os vícios.
Não, não quero a redenção através
do sucesso. Never.
Chupa-chupa? Quadradinhos de marmelada?
E o
chocolate em pó? Bolos enrolados da infância.
Fuck you.
You will not get me. But you can try.
Connard, vas-y si t'as le courage, couillon. Putain.

Êxtase. Blow job com sabor a chocolate. Podia ser.
À bela, repousada sombra dos plátanos. Deitados
na relva. Eu por mim. Mas não tenho o controle dos

sabores do meu corpo nem dos meus líquidos. Nem me
interessa. Tu preferias, talvez. Contenta-te com o que
há. Não desesperes. Vai chupando. Soluça de alegria.
Oh, espasmos. Inundações. Tocam os clarins, nasceu o
senhor. O reizinho nu.
Ó, os teus triunfos. A tua sedução.
Palo Alto. Firme.
O teu mérito escondido nas alcovas
dos hotéis de terceira
categoria. Nem lençóis. Não se
sentia puta, mas. Há toda
uma literatura sobre a
vaidade humana e sobre o nosso
ondular soberano
nos carrosséis de cartolina. Por baixo,
nos alicerces da
casa, fornicam os ratos. Nas praças antigas da cidade
sorriem com dentes muito sexuais as desamparadas da
inteligência, as tolinhas da província. Cabras, filhas de
cabras, pastam nos jardins de Belém, com os Jerónimos
ao fundo. Mé. Mé. Mé. Camões ainda
acreditava no
amor. Linguagem profunda do conhecimento.
O jovem
futuro casal sem futuro, que se lambia mutuamente a
pele suja em orgias alccolicamente românticas, foi
fazer compras à Ikea. Cama, mesa, cadeiras. Belo
jardim nas traseiras. Rãs aos saltinhos.
A menina
camponesa cumprimenta o patrãozinho que lhe
há-de ir ao cu. Se o papá soubesse. Para consumo
artístico, o amor? E o casamento? Com flores.
Rendinhas. Talheres de prata. Loiça de Vista Alegre.
Brancura. Sou totalmente
ignorante em questão de
contratos, de objectivos. De drogas,
de excrementos,
nada sei. Sim, sou burro. Há especialistas,
porém.
Não creio? Eu? Que parvoíce, claro que sim. Sou crente.
A vida nunca se
sepultou no túmulo da arte. Jamais.
É uma recusa inabalável. Dela,
da vida. Sensatez, porém,
decisiva. Sim, eu sei. Sim, a arte. Sim, talvez o
sublime.
Religiosamente. Amen. Relações que se prestam a
eternas
investigações e argumentos. Sábias descrições.
Sapientes
durante uns segundos, um século. E depois
o barco, todos
os botes se afundam. Carregados de
conceitos, de verdades,
de consolações, de frutos
desprezíveis do tempo que passou.
Por nós. E a roupa
gasta, abandonada, fora de moda. Proteger-me do
entusiasmo e das fontes secas. Perigo. Sim,
pensei nisso.
Seriamente. A ostra. Sem pérola. Apesar de praticarem
também a
ironia, embelezam o lixo da linguagem
em versos sexualmente impotentes,
cheios de remela.
As macacas do nariz, ó menino do coro, ó rapaz, ó
rapazinho. Ó grilo.
Não as puxes para baixo. Nem às
calças, nunca as baixes ao entardecer, quando vais
na rua a caminho do pub. Quem te vir pode enganar-se
a teu respeito. Quem pode circular na rua nua? Só tu.

Comprometer-te? Para nada. Estiveste no restaurante,
querias levar-me lá para eu acreditar. Perguntamos ao
garçon, vais ver que não te menti. Pois. Não sabem.
Não se apercebem. Infinitamente dóceis. Manter a forma.

O que se crê linguagem poética serve para distrair do
que podia ter alguma importância se. Se se. Se em vez
desta realidade nos tivessem dado outra como exemplo
do mundo. Embustes.
Pesadelos. Tudo fora do tom. Anda,
vem jantar, ó bajuladora, ó leprosa, ó
espermatozóide
vencedor da maratona daquela tarde. Traz as mamas
jovens à vista no decote de seda. Ó
campeão olímpico,
vem connosco. Traz a bandeira nacional, símbolo da
nossa unidade inalterável. Perder sem sentimento de
culpa? Talvez ao alcance de
alguns. Será. Não estou
seguro. As medalhas contam. Os melhores provavel-
mente. O
que dão a ver aos outros aqueles que, pelo
contrário, etc.? Cegos. Manetas. Dançarinos. Coxos.
Zeros. Emlambuzados.
Vêem as sombras das árvores
na floresta negra? E o meu
perfil de gato anestesiado,
de cão subjugado. Vêem? Aqueles a
quem uma
tenebrosa lucidez. Sabe-se, assusta. É inacessível.
É um edifício. Sobe-se, desce-se. Tropeça-se nas
escadas. É-se vítima da
velocidade do elevador.
Zzzzz por aí abaixo. Catrapuz.
A irregularidade
das montanhas. Declives súbitos. A cor dos
sentimentos? Vertigens. Vómitos. Remorsos.
Sem provas.
Espíritos fracos. Sem salvação.
Pesados, no entanto sem força.
Sugados pelo
vazio do precipício, ventos irascíceis da eternidade.
Engolidos. De que serve entender?
Blasfemar?
Sem se distanciar? Sem ter influência?
Sem agir?
Por muito que tenham desconstruído. Pensei um
pouco. Abri
uma garrafa de vinho, comecei a beber.
O destino? O
sentido? Como se me importassem
ainda os pormenores.
Ela falou-me das minhas mãos
como se eu. Enfim. E
dos meus olhos como se eu.
Enfim. E do meu corpo, não
sei quê, momento
privilegiado. O meu corpo de cão ensimesmado.
Levitra, disse eu, meio cínico, enigmático. Eu cioso.
Estou-me perfeitamemte nas tintas para as razões do
desejo. Odeio o sexo em si mesmo. Altivo, caricatural,
arcebispo de catedral ruidosa.
Ao que a gente tem de
descer para alcançar a dignidade social. Merecer a
puríssima óstia.
Quase sete dólares, imagine-se. Não
vale a pena exagerar. A minha transpiração: era o
ressentimento, era vingança. Fácil, aliás. Sem hesitações.
Recompus-me, refiz-me um ego novo, capaz de durar.
Depois neguei tudo. Detestei-me. Impuro. Sem ideal nem
refúgio
que. Nada de pessoal. Juro. Trágico ainda: os
que
imaginam que falar, babar-se, redime da morte.
A morte,
dizem, é ficção ainda, puro remastigar de
papel, uma osga abstracta. Uma ostra em que ninguém
consegue penetrar. É preciso a faca. E então começa
a esfarelar-se o cálcio branco nos rebordos. Foge-lhe
a forma
. Nem consigo imaginar. Muito curioso. Falta-
me o rigor científico. Distraio-me entre nada e o infinito.
Obsessão da doença. Não fui eu quem começou. Juro.

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