Sunday, June 03, 2007

Controlar?

O que é que eu disse? Coisas muito simples. Por exemplo: o que significa controlar? Eu controlo-me para não sair fora de mim, para não me comportar desrespeitando excessivamente as normas que regulam as situações em que me encontro. Não quero aborrecimentos. Não quero chocar ninguém. E acrescentei: os sinais de trânsito controlam-nos. Sem eles, andar de automóvel transformar-se-ia numa aventura arriscada e as cidades, por exemplo, viveriam numa permanente barafunda. Ora bem, disse eu ainda, se você diz que o Jorge do Primo Basílio do Eça está a querer controlar a mulher quando mostra o seu desagrado por ela se dar com a Leopoldina, eu não digo que você não tenha razão. E mais tarde, estou de acordo consigo, quando o Jorge pede ao Sebastião, um amigo, que vigie a mulher e a aconselhe, está ainda certamente a querer “controlar” o comportamento dela. Mas o que é controlar? Ele é o marido, ela é a esposa. Eles amam-se, mas ele conhece-a o suficiente para saber que ela é ingénua, não tem experiência da maldade. O que ele diz à mulher é o que um pai diria à filha. É correcto, é incorrecto? Pelo que compreendi ao ouvi-la falar a si, este tipo de atitude é inadmissível porque ninguém tem o direito de controlar ninguém. É possível que você tenha razão. Que você me acuse de querer controlá-la a si só porque eu tenho sobre esta questão um ponto de vista diferente do seu também não me surpreende inteiramente. Vocês, americanos, provavelmente vivem na sociedade mais controlada que alguma vez existiu. E reagem contra esse domínio que se exerce sobre cada um de vocês neste pais ficando hipersensíveis a todo e qualquer uso de poder. Mas eu acho que vocês exageram. E sobretudo surpreende-me que você não queira compreender ou seja incapaz de compreender que controlar tem a ver com a lei, que a lei é sempre repressiva, que deve haver por conseguinte boas e más formas de controle. O Jorge não ameaça a mulher, não lhe bate, não lhe fala com rispidez. Antes pelo contrário, acho-o suave na maneira como exprime o seu desacordo sobre as relações de Luísa com Leopoldina. Se eu lhe lembrar que o que acontece a seguir no romance dá razão a Jorge, você diz-me o quê? Que a Luísa tinha o direito de trair o marido e de ir para a cama com o primo? Mas não são vocês, americanos, que exigem fidelidade absoluta nas relações amorosas e acham inaceitável qualquer forma de cheating? São. Se quer que lhe diga, estou um pouco farto destas conversas. Não entendo as vossas histórias. Este país vive de contradições mal resolvidas, que coexistem absurdamente umas com as outras. Você dá-se conta de que ao acusar-me de a querer controlar só porque defendo um ponto de vista diferente do seu me está a intimidar? Por que razão é que vocês, americanos, passam a vida a intimidar as outras pessoas, a defender-se ou proteger-se de ataques exteriores imaginários? Porque razão é que vocês interpretam as relações humanas sempre a partir de critérios do tipo “luta pelo poder”, “tentativa de controlar”, “abuso”, "lack of self esteem", "sociedade patriarcal"? Não tenho paciência. Não se pode falar consigo. É impossível. Você está sempre desconfiada, baixa a cabeça quando não está de acordo para que não a aborreçam, mas não muda de ideias. Se pensa que me vai controlar dessa maneira e intimidar-me com a sua atitude inflexível e os seus exageros de militante feminista está enganada. Fique lá com a sua opinião, deixe-me ficar com a minha. E repare que a maior parte das suas colegas que participaram nesta discussão não está de acordo consigo. O que prova que quando pensamos conhecer um país conhecemos apenas uma parte dele. Parece-me uma boa conclusão, fico-me por aqui.

No comments: