Thursday, May 03, 2007

Roda




A ausência daqueles que morreram dói-nos. Acende um cigarro, vai passando as páginas do álbum. A dor cura-se quando se desagregarem as diferentes partes do corpo de que ela se apossou, que ela invadiu, de que começou a fazer parte.

A maior parte das vezes basta-nos a memória. A paixão antiga é sempre nova, ocupa inteiramente o lugar do amor. A dor não tem remédio.

Acendeu um cigarro. A separação estava decretada, era inevitável. A única coisa que não muda nunca é a presença da mulher. Amou-a muito?

As fotografias que vão contando a história do grande amor deviam fazer-lhe entrever a parte escondida da sua existência. As pessoas morrem e nunca mais regressam. Apenas a magia da memória a torná-las presentes. A desaparecida não voltará.

Às vezes há outras pessoas e os lugares variam. Ela era afectuosa, atenta. Séria. Nunca mentia. O homem ilude-se. Diz que ela ia triste.

As pessoas não lhe podiam explicar que ela morrera. Chora quando a recorda, quando revê nas fotografias o seu rosto, o seu corpo. Diz que foi ele que a levou ao autocarro ao fim da tarde.

Atravessaram pontes, parques cheios de árvores. Bruscamente, sem explicação, uma árvore enorme caiu. De maneira inabalável como a sucessão das estações. Como contar a dor?

Convence-se de que ela está viva em qualquer lado. É ela, só ela, que ele ama.

De vez em quando revemos numa fotografia aquela ou aquele que morreu. Durante muito tempo o homem não percebeu nada. Ela era inocente, curiosa, alegre. Mas ele ignora que perdeu a mulher que amava muito antes desse episódio trágico.

Ela tirava fotografias às árvores do parque, aos patos. Imagina que se separou definitivamente dela à porta do autocarro. É possível. Muito provável.

Ele continuava a falar com ela. Era distraído e parecia não levar o amor muito a sério. Ele contaria a história da separação de outra maneira, com outros detalhes e de uma perspectiva diferente.

Dias que não terminavam nunca, dias negros, de uma dor inconsolável. Os amigos recebiam-no, visitavam-no. O homem, porém, confundia tudo. Ele não sabe se ela morreu ou se ainda está viva em lugar incerto.

Ele sabe que nunca mais há-de amar ninguém. Ele recorda-se disso. Em todas as fotografias.

Era o destino. Ele não entendia. Era injusto, não tinha sentido. Mas era assim, estava decidido. Estão ainda sentados no banco da avenida, à janela ou à porta da casa, à mesa, riem-se para nós. Imaginando-a viva, alegra-se-lhe o coração. Então é feliz, aceita o sacrifício, não a procura. Depende dos dias.

Ferir inutilmente um inocente? Não há choro nem soluços que tragam de volta os desaparecidos. Foi-se embora, nunca mais voltou. Lembra-se desse dia negro, nunca mais pôde esquecê-lo.

Às vezes chora a sua morte. Ele não sabe onde, mas ela está viva. Ia com ela visitar os amigos. Há uma mulher, sempre a mesma. Mas não tem importância. Aquela que morreu ou vive longe, num lugar desconhecido.

Não percebeu. Nenhum deles tinha força para sobreviver no meio da tempestade.

Não se pode contar. Não podia viver sem ela. Até se extinguir a consciência em que a sua marca de fogo se gravou para sempre. No momento da despedida nem ela nem ele falaram. O que é a dor? Não era dor.

Não tinham coragem de destruir a ilusão. De destruir o milagre da sua existência inacreditável. Nunca mais se consolou de a ter perdido. O amor velho renasce todos os dias mais novo.

Ninguém terá o poder de fazer renascer no seu coração o amor. Como obrigá-lo a voltar à realidade? No meio da apocalíptica desordem. O tempo passou. Não quer interromper a felicidade em que ela vive. Não poderia, mesmo que quisesse, já percebeu.

No seu delírio, para se proteger de uma dor maior, o homem imagina que ela apanhou um autocarro. Nós vemo-los, mas eles não estão lá. É tudo imaginação. Nunca há-de amar outra mulher.

O homem amou-a. O grande amor tinha durado apenas dois anos.

Tem os olhos vermelhos de tanto chorar, tem olheiras. O tronco da árvore esmagou-a.
Não há descanso.

Para não quebrar o encanto. Infelizmente não havia nada a fazer: a hora da partida, a hora da separação chegara. Não havia nada a dizer, pensa ele, porque nada podia ser modificado.

Para quê viver? Para a dor não há palavras, nem gemidos, nem gritos que consolem. Perdeu-a de vista. Omitida pela sua própria censura inconsciente.

Parou o carro no parque. Pode explicar-se? Por ora não está em condições de aceitar o que aconteceu. Recorda-se, mas não percebe.

Pode consolar-se, a dor, pode diminuir? Custa a habituar-se. Pode esquecer-se?

Quando se recorda, chora, deita a cabeça em cima da mesa. Rejuvenesce com a passagem dos dias e das noite. Quando se cansa de soluçar e levanta a cabeça da mesa só reencontra a solidão. Tirava-lhe fotografias a ele.

Sabe que será sempre assim. Sacrifica-se, não a procura. Refere-se a acontecimentos que se lhe varreram totalmente da consciência. Saía com ela de carro a passear nos domingos.
Se um deles ou os dois falassem, pensa ele, ameaçava-os uma dor insuportável. Se a memória não o traísse, se a memória dele não estivesse a protegê-lo de recordações mais dolorosas do que a da partida dela no autocarro.

Vê, olha as fotografias. Seguiu viagem para um destino desconhecido. Se não a tivesse ao seu lado a vida deixava de ser vida. Seria um abuso de confiança. Transformava-se num caos insuportável.

Sentaram-se na margem de um lago onde nadavam uns patos. Tão grande era o amor, tão cego. Soluça desesperadamente. Não era dor a sério, não era uma dor verdadeira.

Tem a pele por baixo dos olhos cheias de sulcos abertos pela água das lágrimas.

Um dia ela desapareceu da sua vida. Um homem está sentado em casa, pensativo, com um álbum de fotografias na frente, em cima da mesa.

Um dia foram passear de carro. Uma terrível tempestade, uma desordem para a qual não havia solução. Um amor novo. Vê as fotografias, mas não percebe.



P.S. Obrigado, João Pedro, pela sua mensagem.

No comments: