Tuesday, May 01, 2007

o cruzeiro

meteram-nos num barco uma espécie de titanic monstruoso com andares como as casas e quando estávamos na sala no terceiro dia de viagem o oceano limpo e sereno o horizonte limpo até ao infinito o padreca começou a pregar é o que eles estão a sempre a fazer neste pais de aldrabões a dar lições de moral aos outros insuportável e o padreca nem sequer sabia do que estava a falar mas crê-se mais virtuoso mais sério mais honesto mais competente com obrigações de reformador ou não sei o que é que se crê mas dizia que temos de ser irmãos uns dos outros e fraternais tanto mais que até estamos a viajar no mesmo barco e ao fim de dois minutos de ouvir a lengalenga eu irritei-me e pedi-lhe que fosse mais rigoroso menos vago nas suas exortações à fraternidade eu queria exemplos de mau comportamento a que se pudessem aplicar essas regras com propriedade e proveito. ele irritou-se perdeu o fio à meda e depois perdeu o pio e ficou a cacarejar com a galinha choca que estava sentada ao seu lado entretanto o castelhano pediu a palavra e engasgou-se num discurso piedoso mais lições de moral mais regras mais parvoíces saídas das mentes destes atrasados mentais por fim a reunião acabou e fomos saindo da sacristia alguns dos religiosos a murmurar entre dentes a reunir-se em seguida quase clandestinamente à porta das celas para criticar para politicar país de atrasados mentais estão a ficar piores do que os soviéticos nunca fui à rússia mas lá devia ser assim leis para controlar tudo todos os gestos todas as ideias todos os comportamentos o padreca e o castelhano querem é mama querem é impor a lei deles apossar-se do poder e então começar a chatear os outros a partir da perspectiva que imaginam ter imposto na ordem religiosa na confraria académica comigo estão bem fodidos estou farto de vigarices de parvoíces de patetices e de ter de os ouvir dizer asneiras e de ter de suportar as decisões absurdas que toma gente sem qualquer sentido politico nem académico beatos estragaram-me mais um dia de sol inutilmente mas deixá-los falar sem os criticar está acima das minhas capacidades também tenho direito aos meus defeitos e à palavra como qualquer cidadão ou habitante deste país diabólico que se pretende democrático e detentor da verdade que arrogância países assim grandes de mais dá nisto armas a mais exércitos a mais guerras sempre no horizonte desvalorização da morte e glorificação do sacrifício e da honra e depois trafulhices a torto e a direito tudo feito com ar legal nojo dá nojo coisas opostas inconciliáveis.

eu até estava de boa vontade no cruzeiro tinha vindo esperançado mas ao vê-los ali todos juntos a proferir banalidades e orações antigas num tom piedoso que já não se usa fiquei mal disposto o cheiro do incenso também não ajudava é verdade e o barco às vezes balançava um pouco apesar de não haver grandes ondas no oceano arrependi-me de ter vindo é um facto devia ter ficado em casa a ler a instruir-me a olhar para as árvores do meu jardim a falar com os meus filhos mas agora tenho de gramar a semana inteira aqui fechado com esta gente e não tenho nada a ver com eles com a maior parte deles em todo o caso e não me apetece fazer alianças com ninguém nem criticar ninguém nem perder tempo a sorrir ou a murmurar que me deixem em paz quero lá saber dos problemas e das ambições mesquinhas destes tarados e fui para o meu quarto a minha cabine a minha cela de convento a ler tolstoi fiquei lá até à hora de jantar vieram bater-me à porta e pediram-me que subisse e eu lá fui subi ao encontro do rebanho manhoso da velhada hipócrita e beata.

no terceiro dia a louca caiu à água ou atirou-se lá do cimo foi um sarilho foi preciso mandar logo um barco salva-vidas e o navio o titanic abrandou o que pôde a louca gesticulava gritava lá a conseguiram salvar ela não dizia coisa com coisa os medicamentos que lhe deram deixaram-na ainda mais tonta do que ela já era os colegas tiveram pena da coitada e deram-lhe muitos beijinhos tiraram-lhe o vestido molhado e embrulharam-na em mantinhas quentes ela estava deliciada por ser o centro de todas as atenções e fazia beicinho dizia ingenuidades estudadas uma estopada e eu que é que estava ali a fazer no meio de gente com quem já não tinha nada a ver o organizador do cruzeiro estava furioso nunca mais dizia ele nunca mais me tragam doidas destas para uma viagem tão longa a mulher dá-me cabo dos nervos ao jantar nunca se cala sabe tudo acerca de tudo especializou-se em todas as disciplinas é uma infeliz coitada às vezes dá-me pena mas por outro lado é uma bruxa insuportável e agora ainda por cima atira-se ao mar só para me aborrecer a mim claro despesas suplementares além do mais que chatice nunca mais nunca mais ouviram bem e desandou a vociferar ainda pelo corredor e subiu as escadas que levavam ao salão do andar de cima.

quando o barco fez escala numa ilha perdida de que nem fixei o nome aquela maltinha saiu toda aos saltinhos iam às compras iam visitar tirar fotografias que maravilha cenário novo novas experiências espirituais a congregação aperfeiçoava os seus conhecimentos os seus métodos as suas práticas estarmos juntos todo esse tempo dava esse resultado só que eu não me sentia nada membro da confraria e cada vez menos me interessava o que eles diziam e pensavam e queriam decidir para o futuro eles os futuros mandarins exercitavam-se na maneira de tomar o poder e inventavam todas as artimanhas para fazer crer provavelmente para que eles próprios acreditassem no futuro tal como eles o viam e estavam a querer preparar. o catelhano e o padreca conversavam muito um com ares episcopais o outro de ombros encolhidos quase sem pescoço parecia que estava a recitar ladainhas mas andavam de um lado para o outro com ar de iluminados e lançavam sobre mim e mais dois ou três hereges olhares de desconfiança de incredulidade de raiva de desprezo puta que os pariu. também saí do barco e fui visitar a ilha encontrei uma esplanada à beira do mar e fiquei lá sentado a ouvir o rumor das águas a beber cerveja a fumar a escrever cartas a ler gogol. ninguém me veio aborrecer os outros deviam ter encontrado alguma igreja e estavam lá a rezar fervorosamente para que o futuro se construísse como eles o imaginavam e o queriam. imbecis, idiotas, beatos, hipócritas, pensava eu enquanto ia fumando.

durante o resto da viagem não jantei com eles não falei com eles passei o tempo a ler e a apanhar sol em tronco nu deitado na madeira ao lado da piscina do barco. ignorei-os e eles ignoraram-me embora de vez em quando eu me apercebesse de cochichos de bocas de lado, de mãos a tapar a saída das palavras, de olhares vesgos. e quando chegámos a primeira coisa que fiz foi escrever uma carta ao presidente da confraria livresca a anunciar-lhe que tinha decidido retirar-me, ir-me embora, deixá-los em paz nas suas tarefas minuciosas nas suas meditações religiosas. e quando me apanhei no avião de regresso finalmente a casa tinha rejuvenescido dez anos pelo menos.

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