Tuesday, May 29, 2007

O amor: digressões

O amor. Canseiras. Tretas. Suor. Não durmas.
Esforça-te. Esperam por ti. As mãos, pés, os lábios
e os olhos, a pele do ventre liso. O que é sentir?
Não sentir é como o sono da morte? Circulavam
na cidade. Sorriam na televisão. Desapareciam nos
cafés. Amontoavam-se nos aviões, nos hotéis.
Atropelavam-se nos funerais. A rotina triturava
as tardes e os desígnios. Cada dia matava o anterior.
Sem piedade. Eliminado de vez. Restos? Por favor.
Não, ainda não comi nada hoje. Tenha lá dó e
paciência, senhor. Alma inútil. De pedinte sem fé.
Cruzamo-nos na rua. Vemos? Vesgos. Cabisbaixos.
Cegos. Amantes. Fugitivos. Clandestinos. Às vezes
o desejo. Tantas vezes o desejo. A luz ao fundo do túnel.
As pernas pesadas do desajuste com a escravidão. Vamos
indo. Imagino. Vamos para lá. Nunca chegaremos. O sangue
já derramado, pensamos nisso? Tu de novo. Sempre. Nunca
soubeste odiar-me. E perdeu-se tudo. Lixo. Nada. Nervos.
Leite em pó. As tuas maminhas secas. Agora é cedo de mais
para recomeçar. Tu, tu. Tarde. E impossível. Mas se eu.
Não. Eu não. De maneira nenhuma. O teu rosto debruçado
sobre o meu no leito da morte. Sim, acabei de morrer,
terminou a minha vez. Acabou-se o espectáculo. Queria
saber o que sentes antes de ires à tua vida sem mim enfim.
Sem sentimentos. Nunca. Ou nem foste lá? Ver-me.
Observar. Assegurar-te. Não? A intensidade da indiferença.
Cuidado. Por uma fresta dos olhos talvez eu te esteja a ver.
Vigio os teus passos. Os teus braços. Os teus olhos. A tua
boca. Tudo o que tu desperdiçaste. Gastou-se o corpo sem
proveito nem. Foges. Apressada. Cabeça no ar. Foges de
quem? De mim ou de ti, da tua mãe zangada. Só pode
ser isso. E aonde pensas que vais? Tonta. Eternamente
tola. Em casa respondes aos anúncios do jornal.
Metodicamente. Compras-te. Vendes-te. Trocas-te.
Cores. Tecidos. Tintas. Papéis pintados. Anuncias-te.
Tu. Oh, tu. Na mesma cama, lembras-te? No mesmo sono.
Na mesma vida e na mesma morte. Porque saltaste o
muro? Era o que todos pensavam, sem ligar importância.
Que eu te maltratava. E eu então. Eu também. Saber é um
logro quotidiano. Sobrevives a todas as inatenções.
Atendes o telefone. Está lá? Quem fala? Sim, sou eu
mesma. Venceste. Que horas serão, meu amor? Que
se passa? Beicinho caído. Olhar esconso. Bibe sujo.
Estás aos saltinhos. Os teus dedos de sonsa arrefecem.
O teu coração acelera. O teu peito vai rebentar pelas
costuras do vestido. Todas as dores, ó Virgem Maria.
Tem pena da menina. Eu amo-a. Rezo por ela. Que
negaste, ó insensata. Que quiseste esconder. De ti
e de mim. Ela disse que não tinha seios pequenos.
Eu: who cares, eu falei por falar. Estava distraído.
Não sou fetichista realmente. Juro. Sou normal,
monótono, no meu inconsciente o significado ainda
não se divorciou da roupa por detrás da qual esconde o
corpo. Se tal corpo existe antes de o imaginarmos. Sei
não. Não sou ugly, juro, disse ela. Hmmm. Como estar
seguro? Só vendo. Estava a brincar com o fogo. Imbecil.
Vem de saia ou de jeans, como tu quiseres. Não deve
fazer diferença. E não cortes ainda os teus longos cabelos.
Hoje, disse ela há dias, estou de calças azuis e com uma
camisola de lã vermelha. Mas tu não sabes. Eu posso estar
a mentir. Ela fala comigo como se soubesse o que eu quero
ouvir. É esperta. Não, disse eu, tu nunca vais mentir. Não,
disse ela, eu nunca vou mentir. Não era preciso. O telefone
colado ao ouvido horas e horas. Que talento. Que cegueira.
Excessos. Que tolice. Temos medo, agora temos medo?
O mal é esse, eu nunca tenho medo. Avanço, recuo,
encontro sempre uma maneira de sair do beco sem saída.
Ela: telefono-te mais tarde. Está bem. Horas depois,
no café, eu ouvia o estudante judeu que é meu
conhecido dizer: vamos impregnar um charuto de
absinto logo à noite, eu e os meus amigos, e depois
fumamos, é uma experiência. Deve ser divertido,
comentei eu. Estava distraído, a pensar noutra coisa.
Ideias como cerejas. De mais. De menos. À porta do
supermercado uma banda impertinente estragava
o silêncio. Merda. Porra. Não se pode viver em paz.
A rapariga chegou, sentou-se numa cadeira, ficou
logo com o rabo de fora. Duas meias luas, bochechas.
Depois foi-se embora. Leu, leu, passou páginas, depois
foi-se à vida. Deve ter ido para casa. Ou meter-se na
cama do rapaz que a ama. Anónima. Secreta. Nunca
mais a verei, está claro. É-me indiferente neste caso.
É assim, o destino é esse. Não era muito bonita. À
juventude, porém, tudo se perdoa. Hoje é dia de
saldos. É sempre dia de saldos neste putain de pays,
de qualquer modo. Traições. Remorsos. Os mortos
da guerra voltam em caixões invisíveis. Heróis de
palha, humilhados. Parvos da pátria absurda. Milho
dos pardais que nos comem. Vermes. Dinheiro a
rodos. Filhos da puta. Na sombra as palavras
organizam-se como um exército que vai partir
para o combate. Nuno Álvares Pereira. Ala dos
namorados. N'importe quoi. Aljubarrota. Espanholada,
fora daqui. Tudo a postos. Armário dos ódios. Hospital
dos falidos. Depósito de armas. Saltam para o vazio os
heróis ao som das fanfarras pornográficas. A trafulhice.
A noção de pátria em saldo. Fodam-se, seus cabrões.
Eu tenho estado silencioso. Impotente. Por dentro
irreverente. É. A internacional capitalista. Observo-vos,
porém, e tudo me escapa. A minha vida anterior e interior
ocupa-me inteiramente. Não quero ser citado, recordado,
chamado como testemunha do crime. Para quê? Olhares
amortecidos. Cobiçosos. Carnificinas antecipando. Não
insistam, por favor. Ó dias de sublime insignificância. Oh,
transformar-vos. Nas vossas tripas injectámos o carvão
azul do sonho, as fantasias verdes, a memória negra e
branca dos mortos e de todas as ofensas. Seguros de
nada, nunca. A sintaxe, afinal, suporta todas as
transgressões. Que interessa o estilo? Haveis de morrer,
vermes da terra. A desordem não tem qualquer hipótese
de triunfar. É pena? É. Que não seja evidente nem útil
denunciar a actividade dos criadores invisíveis de absoluto
inexistente, entende-se. À sombra está mais fresco,
intriga-se em boas condições de trabalho. Dêem-me
um poeta português muito pouco lido. Ou mesmo
um romancista, sei lá, um gajo falaciosamente muito
conhecido. E iludido sobre a sua missão terrestre.
Tirem-lhe uma fotografia na biblioteca pessoal com
um rosto que olha para a eternidade. A seguir
puxem-lhe o tapete de debaixo dos pés. A ver
se ele percebe. Que vive mal. Quero recuperar
a ideia da pátria,porém. Não sei. Através dessa literatura
de cordel. Desse transvio. Dessa indiscreta arrogância.
Dessa cangalhada a que chamam a literatura portuguesa
contemporânea. Foda-se! Mestres do estilo e do sentido
da vida. Da minha não. Pedantes. Padrecas. Beatos da
palavrinha bem penteada. Ou do sussurro poetizado.
Coitados dos cidadãos incorruptos. Água suja.
Pus nas valetas. Ouvidos de longe os arautos
assemelham-se a papagaios. Corto-os aos bocadinhos,
com desamor, despejo-os no mar. Que eles cantaram.
Classe peçonhenta, vade retro. Despachá-los para a
lua. Viveremos em silêncio enfim. Serias um
deles sem o saber, por isso não exageres. Eça
não sabia escrever nem construir romances.
Disse o escritor que amamentava a burguesia
empobrecida de proteínas no espírito. Ele
há cada um. Fecha a torneira. Cala-te. O jardim
zoológico está na tua cabeça engripada. És a girafa
do pescoço esticado. Não te esqueças de mim,
queridinha. Fala-me como se eu fosse o teu
namorado preferido dos quinze anos.
Amordaçam-nos. Eu sei que és capaz de
fazer isso por mim. O teu amante preferido. O
último. Cinzas lentamente a revoltar-se no fogo.
Sem terrores. Sem pudor. Como é que tu dormes?
Há uma janela no teu quarto, claro. O teu rosto
de manhã ilumina-se. Mas vais envelhecendo.
Eu não quero saber nada. Quero sonhar que te amo.
Há-de passar-me mais uma vez. Não irei de noite
violar a tua intimidade com a minha ausência. Os
moralistas ignorantes. Fracassos ruidosos. Suicídios
que ninguém viu. Sofrer é bom, abre caminhos. A
dor dissolve-se no tempo sem fazer espuma.
Afunda-se no tanque de águas turvas. É engolida
pelo pântano, as mãos ainda a querer agarrar-se.
Chego cauteloso, escondo-me. Quando
te vir, apago-me. Arrisco? Não posso voltar atrás?
Quando levantares os olhos. Eu sei lá. Estremeço?
Olhas para mim. Dás pela minha presença. Não
te distraias de novo, digo ao meu cérebro. Desta
vez tem de ser a sério desde o incício. Balelas.
Não há mais oportunidades. O rio vai secar.
Pois. Nem barcos nem horários, nem travessias
nunca mais. Eu sei, o amor. Eu sei. A cadela
mordeu-me o calcanhar. Tinhosa. Tu estavas
dentro da caixa fechada da adolescência
a brincar com os ratos e as teias de aranha,
fazias pactos ingratos com as cobras, mordias
o focinho dos ratos tristes. Meu amor pequenino.
O céu azul escurece. Podia separar-me de ti e
nunca mais. Que pena. Não. Eu não queria avançar,
estava preso no lodo. E então puxaram-me. Não
resisti. Delirei de novo. O amor. Uma mulher. A
paixão. A minha vida está em ordem, creio. Só
falta alguém antes de eu morrer ensinar-me a
amar e sobretudo a ser amado sem revolta. Ingrata
lição. Nunca aprendi nada. Eu esforço-me, antecipo
todos os sentimentos. Vou depressa de mais. E
no entanto. Ou será por isso. O tapete que escorrega
debaixo dos meus pés. É a sina. Estou doente. Já
dei muito para a tranquilidade social. Agora quero
pensar em mim e entender. Nunca deixo de amar,
acumulo. Tu e tu e tu e tu. Não me reconheço no
que acontece. Acima das minhas forças.
Inteligência limitada. Desfocadamente.

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