Friday, May 11, 2007

Indecifrável 1 e 2

Indecifrável - 1

Nem tudo foi dito, mas basta,
não são precisas mais palavras.
No silêncio cai sobre nós a
realidade, com todo o seu peso,
o seu mistério; e não o queremos
decifrar, com palavras sobretudo
não o queremos explicar. O que
não foi dito pertence-nos como
o destino inconfessável, como os
ossos dos joelhos, as dores de
cabeça ao fim da tarde quando
sopra o vento rude que vem do
deserto. Todos os destinos são
exemplares e é impossível
amarrá-los. As palavras nascem
do medo ou do tédio, talvez
do horror ao vazio. À toa
queremos entrar no edifício do
sentido, a casa estranha. E
entramos. Mas todos os destinos
são apenas uma versão caseira
da insensatez da existência.
Calar-se não é morrer. Na
sepultura do silêncio esconde-se,

discreta, a dignidade.

Indecifrável - 2

Amarrá-las. As palavras nascem
na cabeça ao fim da tarde, quando
calar-se não é morrer. No silêncio
da insensatez da existência,
decifrar, com frases sobretudo,
o deserto. Todos os destinos são
medo ou abismo, tédio em que
entramos. Todos os destinos
serem exemplares é impossível.
O que não foi dito pertence-nos,
não o queremos explicar. Não
são precisas mais palavras.
Nem tudo foi explicado, mas basta.
No silêncio cai sobre nós o peso
do destino inconfessável com o
seu mistério; e não o queremos.
Os ossos dos joelhos, as facas
nos olhos, o horror ao vazio. À
toa queremos entrar no edifício
da realidade. Vociferando ou
berrando. Ressuscite-se a

letra legívelo
do sentido no
edifício estranho.
Rude, sopra
nas sepulturas o vento
que
vem de longe, negro, gelado.

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