Monday, May 21, 2007

Exigente (2)

a minha capacidade de amar é inesgotável, excessiva.
a solidão pesa-me. às vezes ela não me entende, acha
que eu fui mau com ela; eu fui apenas tímido e desastrado.
beijo-a no pescoço, no cabelo, ela enternece-me. cheguei
a casa, meti o peito do frango no forno e o arroz a cozer.
creio que estou mal habituado, que não percebi ainda.
ela é frágil, insegura, sensível, secreta. depois falámos.
ela responde: acho que sim, mas não me faças mais
perguntas, neste momento não te posso responder.
enchi um copo de vinho e comecei a beber.
estás sempre insatisfeito, diz ela, não é fácil para
mim lidar com a tua insatisfação. sou uma besta,
digo eu. nem sempre. às vezes. se começo
a acariciar-lhe o rosto ela fecha os olhos, fica
perturbada e foge das minhas mãos. sei
que vou esperar. não é isso que ela quer, ela
só me pede paciência, que não acelere as coisas.
não entendo. não estou habituado a esperar
pacientemente pelo amor, por exemplo.
não faço nada bem feito. não me pressiones,
neste momento estou deprimida e tu sabes isso.
é a voz dela, faz eco nos meus ouvidos. não
me resta mais nada. não acredito em mais nada.
não mereço tanto. não paro de pensar nela, mas
ela está exausta. ninguém me compreende e ela está
exausta. os lábios dela são quentes e macios, gosto
de a beijar. é ela que aproxima os lábios e me beija.
pela primeira vez fui a casa dela. encostado à cómoda,
pergunto-lhe: que lugar é que me vês ocupar na tua
vida, achas que me podes amar? às vezes apetece-me
fugir-lhe. quando cheguei ela encostou a cabeça no
meu peito, gostei muito, mesmo muito. que posso fazer?
uns segundos. não mais. a cozinha era à esquerda, meio
separada da sala onde ela tinha a cama, a mesa de trabalho
e um sofá. quem é que me pode aturar? sei, digo eu, mas
tu excluis-me dos teus problemas, não recorres a
mim nos momentos difíceis. sou um idiota. sim.
talvez depois de comer fique mais optimista.
t
u és demasiado exigente, diz ela. sou sou.

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