Tuesday, May 01, 2007

Carta de amor ridícula

Tu escreveste “meu amor" mas eu não sei se conseguem penetrar no meu coração incrédulo as tuas palavras.

Falamos, é certo. Mas sabemos o que dizemos? Não posso afirmá-lo. Sei que me sento à noite na sala deserta a ouvir a música de Schumann, ela entra por mim serenamente, a sua força assegura-me da nossa necessidade de amor. Transparece a paixão e a meditação dos intervalos da música, da lentidão do ritmo; depois, violenta, manifesta-se como numa revolta. Nada de original: também eu conheço a hesitação, mas esqueço-me de perguntar, oiço e admiro; vou na corrente impetuosa do rio e seria insensato querer resistir-lhe.

O nosso amor e as palavras em que o dizemos são frágeis, parecem fúteis.

Não posso falar-te, nem ouvir-te, nem apertar-te contra mim. De que me serve escrever-te? Pensar em ti de que serve, realmente?

Queimou-nos uma noite, uma manhã, o fogo do amor, inesperadamente. Depois disso nunca mais soube o que sentir, o que pensar.

Casa-te, não hesites. Vai de branco, de vestido comprido à maneira antiga, não te esqueças de beijar o noivo com convicção. Respeita os teus avós, os pais, a tradição.

Esquece-me a mim, o amor é uma ilusão. Se quiseres telefona-me no dia do casamento, logo depois da cerimónia e do almoço, interrompe tudo e vem dizer-me que lamentas, sussurra-me que me amas e és ainda a minha menina querida, para sempre o serás.

Pareço cínico? As minhas sinceras desculpas. Eu na verdade entendo tudo, tudo, tudo.

Quem sabe, no entanto, se um dia deixo de entender?

De momento vou ouvindo a música de Schumann, ela é verdadeira como a morte e a loucura. De ti nada sei, nem onde estás agora. Dormes, imagino. Podes até sonhar comigo, é engraçado ter um amor clandestino a conferir à tua existência um ar de aventura, um calor particular, nascido não sei se da tua solidão e do medo, se da tua vontade de não renunciar ainda aos sonhos da adolescência. Já te disse que te podes casar, vai de vestido branco comprido.

A mim não me faz diferença, acho até piada eu estar a escrever este poema romântico, nos limites da telenovela da noite. Acho mesmo imensa piada eu ser uma das personagens dessa intriga tão pouco original. Mas nada me espanta já, juro-te, tudo me parece normal como os dias que passaram sem a gente dar por isso. Meu amor, ó palavras tolas.

Mas agora calo-me, palavras são palavras.

Beija-te o teu querido K., manda-te saudades.

Junho de 1993

No comments: