Saturday, May 05, 2007

boring

a inclinação para o amor. nas mulheres
a inteligência, evidentemente.
a linguagem não permite verbalizar tudo.
a mim só a cumplicidade me afecta. a
paixão que sentem por nós. mais uma.
aborreço-me, já disse. acaba tudo no lixo,
não é verdade? acumulou-se o tédio e a
pressão. alguma coisa se perdeu no minucioso
processo. alguns filmes tiveram uma profunda
intenção amorosa. não foi enquanto a idolatrava,
juro. batem tão perto um do outro os corações.
dói-me a cabeça. cansa-me ter de telefonar.
como ser assimilado pela linguagem? como
viver sem a literatura? é criminoso. odeio
ter copos e pratos. há cura para os males
que nos afligem? palavreado. em silêncio, sim,
em silêncio. detesto fazer as malas, arrumar livros.
dissimulada, santa, escorraçada. não quero
mudar de casa, já disse. onde fica à espera

de sair o que não encontrou uma porta ou uma
janela? o tédio do passado. lê-se nos olhos das
pessoas. memórias que não me interessam. e no
sofá de coiro preto, lembras-te? é uma questão,
no entanto, de nos sentirmos mais ou menos
antecipadamente abandonados. entre nós
e quem nos ama não há nada a escolher. fica-se
só por acaso. estou farto. não se pode arriscar.
eu sempre escolhi a mulher que devia. forçosamente,
alguma coisa se deteriorou. garfos e facas. oiço
música se me apetecer. gosto de alguma pintura.
gosto de trabalhar. há uma semana que estou
constipado. ilusões, só ilusões. já não sei se
dependo do que me impede de pensar. a percepção
tem influência em mim. amam-nos, não nos veneram.
nunca a desprezei. desse modo, quero dizer.
dependo do futuro? das montanhas e dos rios?
não há solução. não tenho força para me abandonar.
ninguém ama ninguém. ninguém.
o amor é invisível.
o facto de vir a expirar o indizível,
transforma-o? o
peso da censura. o que é que me
fascina mais? o
telefone, ah o telefone, incessantemente.
onde
estaríamos neste momento se? os corações
a
amputar com uma faca. para cortarem a água, a

luz, o gás, sim, é isso. e para quê tanta canseira?
para quê ter
mesas, cadeiras, camas? para onde
vai o remorso?
pode dizer-se que temos saudades
do futuro?
pode quando muito adivinhar-se,
pressentir-se,
inventar-se. podia estar-me nas
tintas para tudo
o que me vai acontecendo. porque
é que me
incomodo a incomodar-me com tantas
perguntas?
porque é que não paro de fumar?
porque estou
sentado diante do computador a
escrever há
horas? porque não temos saudades
do futuro?
preciso de sair de casa. quando me
lembro
disso. há alguma coisa lá fora que se
possa
presenciar? estamos sós. reconstruction.
reconstruir sem parar. os buracos negros da
culpa. recordo algumas pessoas que foram
simpáticas comigo. no rosto pode sofrer-se
tudo isso. e nota-se. talvez. não a adorei sempre.
se eu não estivesse tão constipado. se eu não
fosse tímido, algumas hipóteses transformavam-se
em sucesso ou em fracasso. se eu soubesse, ah
se fosse possível. sei que sou amado. sem
terem, que eu saiba, razão particular para me
odiarem. ser feliz é ter falhado na vida, eu sei.
seria despropositado perceber o que se passa.
sim, sei e não sei tudo isso. só ela me conheceu,
penso eu de vez em quando. só me deixaram o
tédio como solução. a indiferença é enorme,
já se sabe. o que não se pode dizer. tantas
caixas de cartão para encher. tenho uma
pontaria afinada para escolher a mulher
que um dia deixará de me amar. todos os dias
penso no assunto. não é por falta de competência.
um amor inconfessável. e que nós temos de ignorar.
um dia. mas não me leva a desistir. uma catástrofe
abateu-se sobre a minha vida. veementemente,
ignorante ainda, espero pelo único acontecimento: o
amor. uma vez mais, a milésima. maldita gripe que. vou
cansar-me a pôr em ordem o que está desarrumado. whisky
em garrafas meias ou quase cheias. indícios e tanto pó.

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