Monday, April 23, 2007

anastásia

que engraçado chama-se diz ela anastásia e
escreve-me mensagens a dizer que apesar das
diferenças culturais que nos separam devíamos

acreditar no amor visto que a atracção inicial
que nos projectou um para o outro não foi puro
acaso ultimamente no entanto parece ter deixado

de exercer-se com a mesma convicção o magnetismo
diminuiu mas a relação a nossa merece certamente
que a tenhamos em consideração e a melhoremos

eu fico perplexo como pode esta rapariga ter uma
percepção tão acertada das nossas relações na
verdade eu nem sei quem ela é não a conheço

de lado nenhum creio que me escreve de um país
do leste onde certamente sufoca e se aborrece
e tem dificuldade em imaginar o futuro por isso

quer fugir para sempre a fim de integrar-se na
sociedade liberal capitalista onde todos os prazeres
imagina ela com uma fé religiosa estão ao alcance do

nosso espírito do nosso corpo da nossa carteira do
nosso desejo diz ela que não devíamos nós os dois
renunciar apesar das dificuldades do aparente ou real

enfraquecimento momentâneo dos sentimentos
que nos aproximaram e nos ligam não devíamos
diz ela renunciar a acreditar temos obrigação de

fazer um esforço de construir o nosso destino é
espantoso ela é espantosa é loira tem tranças e
olhos azuis não é nada feia antes pelo contrário

e não lhe faz diferença pelos vistos ter uns quinze
centímetros a mais do que eu nem muito menos
anos em cima dos ombros são pormenores sem

grande importância evidentemente o amor não
pode depender desses detalhes insignificantes
o que conta é a comunicação espiritual dos corpos

ela tem vinte anos e para ser sincero não me
desperta interesse nenhum em particular as
cartas calorosas que ela me escreve devem ser

enviadas ao mesmo tempo a cinco mil anónimos
através da internet e apesar destas circunstâncias
da confusão dos discursos sem sujeito e na verdade

sem destinatário verdadeiro que seja uma pessoa real
identificada individualizada apesar dos sentimentos que
ninguém em particular sente ainda haverá quem me

critique por eu não dar às vezes muitas vezes grande
valor às palavras e por duvidar do amor eu nem às
mensagens das pessoas que me conhecem respondo já

a maior parte das vezes embora algumas me sejam enviadas
por amigos verdadeiros que não estão a solicitar a minha
admiração nem a minha atenção amigos que são puros

desinteressados na amizade pobre bela anastásia
que estás a perder o tempo comigo inutilmente eu na
verdade sinto-me tão só como tu se é que tu te sentes

só não sei aliás nem foste tu quem escreveu a carta bem
escrita quase íntima tão sincera tão convincente como se
me tivesse sido enviada por uma mulher que de facto me

conhecesse me amasse a sério e estivesse disposta a lutar
pelo meu amor e estivesse preocupada com o esfriamento
dos nossos sentimentos anastásia a tua voz é como a voz

consoladora e misteriosa de deus que nos
chega
de lado nenhum ou do deserto do nada do vazio

e no entanto suscita em nós a vontade de acreditar

ah a esperança o delírio optimista eu devia responder-te
pôr-te em contacto com algumas raparigas que imaginaram
que podiam amar-me e depois se desenganaram talvez

então tirasses de vez o meu endereço de email da tua lista
em todo o caso e admitindo a possibilidade de estares
atenta aos meus gestos palavras ao meu destino quero

que saibas que entendo a tua juvenil vontade de transformar
a tua existência e a minha espero que alguém te responda
que não envelheças nem morras sem ter visto o teu sonho

realizar-se e oxalá te seja poupado também o desengano
a desilusão que sucede à realização de todos os projectos
oxalá nunca descubras que por detrás de tudo não há nada

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