Sunday, April 29, 2007

dizemos tanta coisa

nem me recordo do titulo que dei a este texto, que está lá para trás no blogue. tenho um amigo que é um engraçadinho. é admirador doentio do david lynch, de davidson, de wittgenstein, do rorty. diz que o melhor filme que já viu é um filme intitulado safe - uma estopada sobre a américa que eu nunca suportei. é incapaz de admitir que gosta do camilo e do eça mas escreve sobre eles artigos que aqueles que gostam deles nunca escreveram. tinha-lhe dado o meu texto a ler e ele disse-me que tinha gostado. mas no dia seguinte devolveu-mo e eu não o reconheci imediatamente. percebi porquê: todas as minhas frases tinham sido postas por ordem alfabética. não fiquei confuso porque já sabia há algum tempo que com as palavras e com as frases não se brinca. podemos trocá-las, misturá-las ao acaso, escrevê-las sem querer dizer nada, ser adeptos da escrita automática, mentir com elas: elas não se importam, riem-se de nós e acabam sempre por ter sentido.


dizemos tanta coisa.
- que tinha acontecido alguma coisa.
a complexidade e riqueza das coisas simples ultrapassa de facto a nossa imaginação.
a conclusão a que cheguei - que amá-la e conquistar o amor dela é a melhor solução para as nossas relações e para a minha vida em geral - surgiu depois de eu ter examinado a questão com seriedade?
a conversa deixou-me bem disposto, tranquilo.
a ideia, uma ideia antiga difícil de pôr em prática, era simples: viver a sós comigo mesmo, tentar perceber, antes de me ir de vez da vida, o que é que em mim vive.
a letra não era a da dona do bloco.
a moral deles é vaga.
a novidade do lugar interessou-me vagamente.
a outra: incontinent action always favours the beastly, selfish passion over the call of duty and morality.
a rapariga a quem alugaste a casa esqueceu-se cá do bloco, não há mistério nenhum.
a rede de arame farpado invisível dos receios impedia qualquer aproximação.
a resposta não se escondeu: claro que amar é perigoso, tudo pode acontecer.
acho que a amo.
acho que vivem na selva e atolados no terror.
acho-os inflexíveis como máquinas que foram programadas para executar certas tarefas e nunca serão capaz de executar outras.
acho-os oportunistas, incapazes de distinguir o bem do mal, escravos do código civil.
ainda assim fui apanhado desprevenido e acabei por sofrer.
alguém desenhara na mesma página uns gatafunhos de bonecos como as crianças os desenham.
amar e ser amado tornou-se uma coisa perigosa para mim?
amei, mas com cuidado.
apetece-te esquecer tudo, voltar à piscina e à paz dos teus livros de filosofia.
basta de especulação.
basta de palavreado.
chegado aqui, olhando para mim de fora, emperrei.
comecei a preparar-me para partir.
como não gosto de perder o meu tempo inutilmente, depois de ler davidson pergunto-me: neste preciso momento, quando admito vir a amar uma mulher que conheci há alguns meses, estou a agir tendo reflectido o suficiente?
como pude resistir tanto tempo?
creio que é desse desastre fatal que estou ainda, por hábito, a querer proteger-me.
creio que preparar-se para morrer exige tempo, tranquilidade.
davidson refere que há duas maneiras de olhar para ele.
deduzi que o bloco pertencera a uma mulher activa sexualmente, pelo menos em teoria.
deixando de falar e de ouvir talvez me esquecesse de pensar e começasse apenas a sentir.
deixa-te de tolices, don't be silly.
depois fazes um bom jantar ou vais jantar fora.
depois lês os teus livros de filosofia.
depois vais deitar-te, dormes bem.
depois vem o arrependimento.
depois, bem cedo, comecei a aborrecer-me.
desapareciam as barreiras, as distâncias.
desse vício ou defeito original da lei nasce a tentação permanente da mentira, do salve-se quem puder, do deixa ver que já te digo.
devia devolver-lhe o bloco, provavelmente.
devia haver alternativas mas não as vi.
é a esse destino que aspiro?
e com a viagem a itália?
e com o endereço de londres?
e com tudo o resto?
é daí que derivam a corrupção, a hipocrisia, a mentira.
é dessa maneira que a minha revolta se vingará da pequenez da vida?
e indicação de que convinha inscrever-se num curso de russo para disfarçar e aprender italiano para preparar a viagem a itália.
e o medo, claro.
é por isso que tens medo.
e porque é que é que não há-de tudo correr bem?
é possível, não sabes bem.
é receio de um excesso de emoção.
e silêncio.
ela diz que não.
ela diz: ainda não.
ela telefona-te do hospital mais tarde, entre duas urgências.
ela voltou a rir-se.
em que ponto da sua investigação estará agora?
encontrámo-nos quando lhe dei a chave e quando ela me a devolveu.
encontraste um tipo melhor do que eu?
enviei-lhe uma mensagem: paro no meio da garrafa ou vou até ao fim?
era essa a ideia.
era uma mulher interessante, aparentemente amável e discreta.
eram sete horas, interrompi os meus devaneios.
escapa-nos qualquer coisa.
escolhemos o que nos parece pior sabendo o que estamos a fazer, então?
esqueceste-te de mim?
estas questões interessam-me.
eu já tinha bastante em que pensar.
eu não sabia o quê.
eu sei que neste momento estás cheia de trabalho, mas deixas-me sozinho tempo de mais.
exactamente nesse momento o meu telemóvel tocou.
ficas tranquilo.
fico baralhado por momentos.
fiquei a pensar, a fazer contas, a tentar perceber.
fiquei irritado: por que diabo viera este bloco absurdo intrometer-se de repente na minha vida?
foi por decisão, com lucidez, que me pus a correr riscos?
fosse o que fosse que tinha acontecido, só mais tarde se poderia saber o que era.
fui-me habituando a viver insatisfeito.
hmmmmm.
ia lendo e pensando em casos que eu próprio classificaria como consequência de fraqueza da vontade.
imagine-se, no entanto, que eu me tinha abandonado completamente, que a minha ironia tinha desaparecido, que eu me tinha posto a acreditar a sério no que me estava a acontecer.
imagino que as informações que ela lá deixou perderam toda a utilidade e interesse.
infelizmente aqueles que ditam e fazem respeitar a lei não são de confiança.
já expliquei as minhas dúvidas, os meus temores.
lembro-me do meu amigo compositor que andava a decompor o dó nas suas partículas.
mais misteriosas ainda eram as iniciais em maiúsculas escritas noutra página: GSM, GPRS.
mais tarde pus-me a arrumar papéis que andavam dispersos por aqui, em cima das mesas ou em sacos de papel.
mas como entrar em contacto com elas?
mas como estava para me ir embora, apeteceu-me insistir, tentar aproximar-me.
mas decidi fazer um último esforço, verificar pela última vez que tinha razão, que esta terra não é a minha, que nada tenho a ver com a humanidade desta gente.
mas depois recuperas.
mas em vez de te atormentares com o que já não tem solução pensa no futuro que espera por ti.
mas hoje cheguei a casa e abri uma garrafa de vinho, comecei a beber.
mas não tenho o endereço dela.
mas o amor teria só por si o poder de me destruir, por exemplo, de me fazer percorrer intensamente, apaixonadamente, dolorosamente - em êxtase, sem querer voltar para trás - a distância que me separa da minha morte?
mas o que leste no bloco que alguém deixou em tua casa continua a dar-te que pensar.
mas pela primeira vez pensei: já viveste bastante, já conheceste muitas coisas, arrisca-te a amar pondo em perigo a tua vida.
mas tenho dormido bem, o meu espírito está tranquilo, nenhuma dor me atormenta.
mesmo falando a língua que nós falamos, alguém vindo de outro planeta teria dificuldade em perceber as teias de aranha do sentido sobre as quais repousa a nossa identidade.
mesmo sendo cuidadoso, acabei por me envolver demasiado na relação onde em princípio apenas uma parte de mim estava presente.
muitas vezes, diz o filósofo citando austin, ao desrespeitar o que entendíamos ser a melhor solução nós agimos com calma e sem estar a ceder minimamente a qualquer tentação.
não a ouviste ontem repetir que não se esquece de ti?
não aqui, esta terra não é a minha, não tenho nada a ver com os projectos desta gente.
não conseguia acalmar-me, pus-me a ler um livro de filosofia.
não digo que tanto se me dá que tu fiques ou que te vás embora.
não é medo de falhar sexualmente, nada disso.
não era meu, como veio aqui parar?
não estiveste já metido noutras?
não há razão para preocupações.
não ia sobretudo imaginar ingenuamente que me estava a apaixonar, que ia amar e ser amado.
não me arrependo de nada.
não os entendo.
não quero errar, não quero enganar-me a mim mesmo.
não quero, depois de ter falado, sentir remorsos e renegar o que disse.
não sei ou não quero responder.
não sei, só posso sabê-lo quando chegar o momento de o saber.
não te dás conta de que me fazes falta, disse eu.
não vou recuar, evidentemente.
no meio desta barafunda eu via pessoas que me pareciam inocentes, que punham em causa as minhas conclusões pessimistas.
noutra página havia anotações sobre as datas em que lhe vinha o período, iam de janeiro a julho de não sei que ano.
noutro continente, de onde vim, era aí que pensava em refugiar-me.
numa gaveta encontrei um bloco pequenino com informações enigmáticas.
numa página onde também estava escrito com letra infantil a hug lia-se o endereço de uma casa em rivulet road, em londres.
nunca mais pensei nela.
nunca me embebedo, minha querida.
nunca pensei que se pudesse fazer tal coisa.
o amor, é disso que estou a falar?
o bloco devia ter sido deixado cá em casa por uma pessoa a quem eu a alugara por três meses, durante o verão, havia dois ou tês anos.
o desastre teria sido fatal.
o encontro assusta-te.
o problema é complexo.
o que acabaste de descobrir tem muito sentido e tu sabes isso.
o que é que me aconteceu que não posso imaginar o amor sem estremecer?
o que é que me aconteceu que perdi a capacidade de falar?
o que é que me aconteceu que tornou o silêncio indecifrável?
o que é que tu tens a ver com o GSM e com o GPRS?
o que eu percebi, porém, já não vinha a propósito de nada.
o que queremos e o que não queremos.
o que significa que só pode acreditar entender-nos quem joga o mesmo jogo que nós.
o respeito e o medo da lei é que os educa, lhes molda a personalidade.
obrigam-me a reflectir e a descortinar por detrás da aparente simplicidade do nosso comportamento potencialidades imprevistas, sentidos desconhecidos.
ou lamentamos não ter ido mais longe, depende.
ou pelo menos atingiria um estado em que pensar e sentir se confundiriam.
paciência.
para disfarçar o quê?
para me esquecer de ti vou nadar todas as noites.
pensando no meu retiro, imaginando a minha solidão, não tinha ilusões sobre as alegrias ou prazeres que a vida pudesse ainda dar-me.
pensei bastante, hesitei, admiti recuar.
pensei nessa possibilidade, mas recusei-a imediatamente.
perguntou-me: estás com os copos?
permanentemente.
pode ser.
pois, nada te diz respeito, já disseste isso, não é necessário repetir-te.
pois.
pois.
porque diabo me veio à cabeça uma vez mais o risco, a ideia do risco, o medo do risco?
porque sou fraco?
porquê?
quando antevês o momento em que pela primeira vez te vais deitar na mesma cama com ela entras em pânico.
quando aqui cheguei não conhecia ninguém.
quando nos encontrámos para falar, senti - ou quis sentir?
quando olhei para ti com atenção e interesse dei-me logo conta da rede de arame farpado que te protegia da invasão vinda do exterior.
que dizer sobre ti?
que encontraria no fundo de mim mesmo, na zona da maior obscuridade, lugar de que não sei nada?
queixando-me, mas não fazendo nada para melhorar a situação.
queixei-me.
quem sou eu ou o que é esse ser, isso, não sei o quê, de cuja existência me apercebo, que sempre se confundiu com aquilo a que me refiro quando digo eu?
queria esconder-me em qualquer lado.
respondi: eu?
ri-se.
se achares que ela o merece, ama-a.
se acreditares que ela te ama, abandona-te à paixão.
se alguma coisa correr mal, não há-de ser por falta de coragem da minha parte.
se as coisas simplesmente acontecessem, já tivessem acontecido, não seria tudo mais natural, mais simples?
se ela deixar de te amar ou tu descobrires que te enganaste, não te oponhas à dor.
se queria viver, tinha de correr alguns riscos.
sempre me protegi do perigo das paixões.
só a lei os intimida.
só sabes que a intimidade com essa mulher te assusta.
sou uma pessoa solitária.
talvez.
também havia, escrita à mão, uma receita para fazer um bolo.
também já disse claramente que não estou preocupado.
tenho adiado o momento em que começarei a construir o teu retrato porque nunca me senti tão inseguro.
tenho medo de começar.
tenho muito em que pensar.
tenho suportado tudo porque sempre tive um alto sentido do dever.
tentei tantas vezes, nunca consegui.
tratou-me bem.
tu não tens, mas sabes quem tem.
um artigo sobre a fraqueza da vontade.
uma: desire distracts us from the good, or forces us to the bad.
vá, não inventes histórias, não mintas a ti próprio.
vai nadar, disciplina-te, disse-me em voz alta.
venceu o desejo de persistir na tentativa.
via-se que pertencera a uma pessoa hipocondríaca e obsessiva, estava cheio de notas sobre sintomas de doenças graves.
voltei a pôr o bloco na gaveta onde o encontrara.
vou aguardando, sabendo que não é impossível estar a aguardar qualquer coisa que nunca acontecerá.

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