Saturday, April 21, 2007

out of reach

quando eu falava contigo pensando ou nem
pensando que estava a falar com ela com a outra
aquela de que não sei ainda às vezes que fazer

mas não fazia diferença os rostos a personalidade
os corpos confundiam-se as mulheres que eu
amara ocupavam sempre o mesmo lugar os

gestos as expressões os olhos confundiam-se
no meu espírito confusões de identidade muito
curiosas vinha a dar no mesmo quer fosse uma

ou a outra o que contava era a minha obsessão
a minha vida ultimamente se eu não estivesse
tão interessado em aprofundar se não tivesse

a mania que sou inteligente a minha existência
dizia eu seria mais modesta aparentemente mas
muito mais tranquila para além das máscaras porém

esconde-se a aparência da verdade e a mim só a
verdade me interessava sempre foi assim uma
obsessão desfeito o equívoco esclarecidas as

dúvidas eu podia finalmente começar a amar
ou a torturar-me com a impossibilidade do amor
ou com a imperfeição dos sentimentos ou com

não sei o quê é o meu destino se eu fosse cego
não via se eu fosse mudo não falava se eu fosse
surdo não ouvia mas além disso a minha cabeça

não pára de funcionar nunca pára de trabalhar
a mentira raramente me escapa mas antes de a
poder denunciar eu sentia-a com uma nitidez

surpreendente terá sido a minha boa educação
ou a cautela o respeito excessivo mal usado
a impedir-me de gritar imediatamente o meu

descontentamento a minha náusea e agora
anos depois nem sei quantos é que me revolto
por não me ter zangado e ido embora enquanto

era tempo tudo se paga e depois fica mais caro
qualquer puta encontrada num bar de lisboa ficaria
muito mais barata e pelo menos não havia equivoco

nos sentimentos uma vez que em princípio estariam
ausentes o que não deve ser bem verdade mas enfim
isto não é um poema filosófico não compliquemos as

coisas lembro-me do sorriso com que entraste em casa
para me fazeres acreditar que eras excessivamente fiel
e sobe-me do peito ou desce-me da cabeça uma amarga

raiva tu nem imaginas tu nem tens ideia qualquer puta
faria o que tu fazias me atraiçoaria com o mesmo sangue
frio só que tu não eras uma puta exactamente e por isso

foste destruindo tu também com autorização minha
a ideia do amor que me fazia andar de um lado para o
outro os sentimentos terão alguma justificação algum

sentido alguma importância que se foda perdi tempo
com parvoíces distraí-me daquilo que imagino
ingenuamente que é a vida propriamente dita fui

vítima das minhas paixões exacerbadas imbecil
pobre de espírito meu deus e neste preciso momento
estou pesaroso hesito não sei o que fazer ela aquela

de quem mal posso falar disse tira-me daqui eu sozinha
não consigo corrigir o meu destino já não consigo talvez
tu possas tirar-me desta prisão e disse não sei se quero

realmente ou se posso mas talvez seja possível tu olhas
para mim eu vejo o teu olhar e acredito que tu poderias
com as tuas mãos puxar-me tirar-me deste inferno deste

rio que me arrasta na sua corrente eu estou pesaroso não
sei que fazer será que eu podia realmente terei tanto poder
sem o saber a questão é complicada as pessoas são arcas

cheias de segredos do passado recordações feridas na
alma que nunca cicatrizam e talvez não tenham cura se
ela confiasse em mim me contasse a verdade que lhe for

possível sobre si própria talvez eu lhe perdoasse mesmo

os pecados mais graves isto no caso de os haver de ela os
ter cometido mas ela tem medo já percebi está aterrorizada

nem sei se tem amigos ou apenas quem a faça sofrer quem
a escravize quem a explore só desconfiei disso recentemente
agora nem sei onde ela está nem sei se ela alguma vez me

me mentiu ou se decidiu apenas calar-se insegura receosa
sem saber como é que eu reagiria os sentimentos meu deus
que sabemos nós dos sentimentos dos outros se nem dos

nossos não posso saber nunca saberei provavelmente mas
eu não lhe disse que podia contar comigo incondicionalmente
claro que disse pelos vistos não bastou as minhas noites de

novo são aborrecidas não tenho imaginação nenhuma para as
transformar o tempo vai passando e eu ainda por cima estou
indeciso um pouco magoado também pela incompreensão

cheguei a pensar que ela poderia vir a ser o grande o último
amor da minha vida o mais difícil aquele que exigiria
mais
de mim agora que finalmente entendi e estou preparado


para ser amado e amar eu sei bem sei estou farto de pensar
sem consequências para mim nem para ninguém seria melhor
calar-me
aguardar esperar logo se vê de qualquer modo o

carrossel dos dias desfila a uma velocidade estonteante eu
devia descer em andamento sentar-me à beira de um rio à
sombra de uns salgueiros a ouvir cantar os rouxinóis mas

imaginá-lo não basta é preciso agir mexer as pernas ficar
fora do alcance de todos os desejos longe infinitamente
das mãos que poderiam estender-se para me tocarem eu

talvez aprendesse a vida de uma perspectiva diferente
talvez a lentidão fosse benéfica para o meu espírito e
para o meu corpo mas a existência terá remédio não sei

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