Wednesday, April 11, 2007

Excessos e desastres

De onde nasce a conclusão errada, a alucinação? A mente, que não deve gostar da ausência de sentido, quando não o descobre em acontecimentos isolados ou numa determinada série de acontecimentos, vai-se concentrando em cada um deles - os escolhidos apenas - e começa a estabelecer relações. Uma boa parte do processo deve ser inconsciente, desenrolar-se sem nós nos apercebermos disso. Depois, um dia, segura de si, a mente, tendo estabelecido inúmeras relações entre factos isolados mas unidos na mesma série, chegou finalmente a uma conclusão. E nós, sem reflectir mais, agimos, confiando no seu bom senso, na sua inteligência. É assim que às vezes se chega coerentemente ao desastre: loucura mansa. Num romance tal intriga podia revelar-se brilhante, dar excelentes resultados. Na vida real errou-se por excesso de actividade mental consciente e inconsciente.

Há erros cujas consequências não se podem corrigir. Mas zangar-me com a parte de mim que pensa (que faz a gestão do sentido) não me resolve esse problema nem outros.

Este tipo de alucinação (pelo menos este) não é irracional. Antes pelo contrário: o seu defeito é ter sido excessivamente racional. O que é que falhou, então? A obsessão escolheu os elementos que haviam de fazer parte da história, agindo, ao escolhê-los, com intenções ainda obscuras (mais tarde podem tornar-se transparentes). Depois ligou entre si esses elementos escolhidos de modo a chegar a uma conclusão. Só que 1) a escolha dos elementos que fariam parte do sistema cujo sentido se queria descobrir não foi neutra nem inocente, 2) as relações entre os diversos elementos podem ter sido mal interpretadas ou mal estabelecidas, 3) a atribuição de sentido a algum ou alguns dos elementos do sistema criado pode ter sido errada. Assim se chega, com toda a lógica, inteligentemente, à conclusão alucinatória.

P.S. Há conclusões tão difíceis de aceitar que era preferível termos tido uma alucinação. Quando se torna evidente que não foi uma alucinação, sentir-se inteligente não nos consola de nos sentirmos infelizes.

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