Thursday, April 19, 2007

A dor

As pessoas morrem e nunca mais voltam. Perdemo-las de vista. Custa a habituar-se. De vez em quando revemos numa fotografia aquela ou aquele que morreu. A maior parte das vezes basta-nos a memória. A ausência daqueles que morreram dói-nos. Para essa dor não há palavras, nem gemidos, nem gritos que consolem. Não há choro nem soluços que tragam de volta os desaparecidos. Eles estão ainda sentados no banco da avenida, à janela ou à porta da casa, à mesa, riem-se para nós. Nós vemo-los, mas eles não estão lá, é tudo imaginação, é apenas a magia da memória a torná-los presentes.

Um homem está sentado em casa, pensativo, com um álbum de fotografias na frente, em cima da mesa. Acende um cigarro, vai passando as páginas do álbum. Há uma mulher, sempre a mesma, em todas as fotografias. Às vezes há outras pessoas e os lugares variam. A única coisa que não muda nunca é a presença da mulher. O homem amou-a. Amou-a muito. E nunca mais se consolou de a ter perdido. E chora ainda quando a recorda, quando revê nas fotografias o seu rosto, o seu corpo. O homem tem os olhos vermelhos de tanto chorar, tem olheiras, tem a pele por baixo dos olhos cheias de sulcos abertos pela água das lágrimas.

Às vezes o homem ilude-se, convence-se de que ela está viva em qualquer lado. Ele não sabe onde, mas ela está viva. E ele sacrifica-se, não a procura para não destruir o milagre da sua existência inacreditável. Um dia ela desapareceu da sua vida, foi-se embora, nunca mais voltou. No seu delírio, para se proteger de uma dor maior, o homem imagina que ela apanhou um autocarro e seguiu viagem para um destino desconhecido. Chega a dizer que foi ele que a levou ao autocarro ao fim da tarde. Chega a dizer que ela ia triste mas que infelizmente não havia nada a fazer: a hora da partida, a hora da separação chegara. Era injusto, não tinha sentido, mas era assim, estava decidido, era o destino. Ele lembra-se desse dia negro, nunca mais pôde esquecê-lo. E quando o recorda em pormenor chora, deita a cabeça em cima da mesa e soluça desesperadamente. Mas a desaparecida não volta. E ele, quando se cansa de soluçar e levanta a cabeça da mesa, só reencontra a sua solidão. Para quê viver? Ele sabe que nunca mais há-de amar ninguém. Ela morreu ou vive longe, num lugar desconhecido. Mas não tem importância porque é ela, só ela, que ele ama. Ele sabe que será sempre assim. Ninguém terá o poder de fazer renascer no seu coração o amor, um amor novo. Nunca há-de amar outra mulher. Não poderia, mesmo que quisesse, já percebeu. A paixão antiga é sempre nova e ocupa inteiramente o lugar do amor. O amor velho renasce todos os dias mais novo, rejuvenesce com a passagem dos dias e das noites, afirma-se de maneira inabalável com a sucessão das estações.

O homem, porém, não sabe que confunde tudo. Não sabe que perdeu a mulher que amava muito antes desse episódio trágico em que imagina que se separou definitivamente dela à porta do autocarro. No momento da despedida nem ela nem ele falaram, ele recorda-se disso. Já não havia nada a dizer, pensa ele, porque nada podia ser modificado, a separação estava decretada, era inevitável. Se um deles ou os dois falassem, pensa ele, ameaçava-os uma dor insuportável, ameaçava-os uma terrível tempestade, uma desordem para a qual não havia nesse momento solução. Nenhum deles tinha nesse momento força para sobreviver no meio da tempestade, no meio da apocalíptica desordem. É possível. Mas se a memória dele não o traísse, se a memória dele não estivesse a protegê-lo de recordações mais dolorosas do que a da partida dela no autocarro, ele contaria a história da separação de outra maneira, com outros detalhes e de uma perspectiva diferente, referindo-se a acontecimentos que se lhe varreram totalmente da consciência. As fotografias que vão contando ao longo dos anos a história desse grande amor deviam fazer-lhe entrever essa parte escondida - na verdade omitida pela sua própria censura inconsciente - da sua existência. Mas ele por ora não está em condições de aceitar o que aconteceu. Vê, olha as fotografias, recorda-se, mas não percebe.

O grande amor tinha durado apenas dois anos. Ela era inocente, curiosa, alegre. E afectuosa. Ele era distraído e parecia não levar o amor muito a sério. Um dia foram passear de carro, atravessaram pontes, parques cheios de árvores. Ele parou o carro num dos parque, o maior, e sentaram-se na margem de um lago onde nadavam uns patos. Ela tirava fotografias às árvores do parque, aos patos, tirava-lhe fotografias a ele. Ele acendeu um cigarro. E bruscamente, sem explicação, uma árvore enorme caiu, o tronco da árvore esmagou-a. Ele não percebeu. Durante muito tempo não percebeu nada. E as pessoas sabiam que não lhe podiam explicar que ela morrera porque ele não entenderia. Ele continuava a falar com ela, ia com ela visitar os amigos, saía com ela de carro a passear nos domingos. Os amigos recebiam-no, visitavam-no - e não tinham coragem de destruir a ilusão, de obrigá-lo a voltar à realidade. Seria um abuso de confiança, seria ferir inutilmente um inocente. Ele não podia viver sem ela. Se não a tivesse ao seu lado a vida deixava de ser vida, transformava-se num caos insuportável. Tão grande era o amor, tão cego.

Ele vê as fotografias mas não percebe. O tempo passou e ele já não sabe bem se ela morreu ou se ainda está viva em lugar incerto. Depende dos dias. Há dias em que chora a sua morte: dias que não terminam nunca, dias negros, de uma dor inconsolável. Há dias em que, imaginando-a viva, se lhe alegra o coração: e então é feliz, aceita o sacrifício de não a procurar para não quebrar o encanto, não quer interromper a felicidade em que ela vive. O que é a dor? Pode contar-se, a dor, pode explicar-se? Pode consolar-se, a dor, pode diminuir? Pode esquecer-se? Não. A dor não se pode contar. A dor não dá descanso. A dor não tem remédio. Se o tivesse não era dor a sério, não era uma dor verdadeira, não era dor. A dor cura-se quando se desagregarem as diferentes partes do corpo de que ela se apossou, que ela invadiu, de que começou a fazer parte; quando se extinguir a consciência em que a sua marca de fogo se gravou para sempre.

No comments: