Friday, March 09, 2007

poema ambicioso

se eu ladrasse gemesse ou uivasse em vez de falar
ninguém me levaria a sério ou levavam-me a sério
de maneira errada e ofensiva por isso deve ser por

isso que por vezes passo muito tempo sem dizer
nada o silêncio é discreto ninguém dá por nós podem
limpar-nos o pó da cara e das pernas porque nos

confundiram com a cómoda no canto do quarto e
não tem importância nós ficamos imobilizados
como uma estátua para não os assustar não vale

a pena perturbar-lhes a rotina e se nesse momento
ladrássemos havia de ser engraçada a reacção não
posso evitar tive de me rir ao imaginar a cena se

eu soubesse cantar ou tocar piano também podia
falar sem usar a garganta a boca a língua mas se
tocasse flauta já seria diferente quando me dou

ao trabalho de pensar um pouco descubro coisas
interessantíssimas acontece-me quando aquilo
que designo por inspiração ou ímpeto criativo

me abandona não será curioso claro que é curioso
contribuir para denegrir aquilo a que alguns
ingénuos ainda designam por poesia e que lhes

dá tanto trabalho e tantas emoções fabricadas
na oficina em que cinzelam sem descanso as
peças de oiro que acabarão no fundo de um

armário antes de serem definitivamente enviadas
para a lixeira municipal mais próxima denegrir a
poesia a literatura nem sequer me diverte na

verdade o projecto é muito antigo o que acontece
é que eu nunca tinha tido coragem de ir tão longe
distante da pátria dos escritores dos legisladores

de meia dúzia de tolos tontos que se tomam por
historiadores da literatura e pensam que alguém
lhes presta atenção a minha liberdade é total o que

eles dizem o que eles pensam nem sequer chega ao
meu conhecimento a maior parte das vezes e quando
chega não me merece grande atenção como dizia

no início se pudesse ladrar uivar gemer e até tocar
piano ou oboé a situação mudava radicalmente
só que embora me importe pouco o que possam

pensar do que eu faço a maior parte das pessoas
não tenho competência suficiente em nenhuma
dessas artes daí o meu silêncio quando se esvai

aquilo a que chamo a inspiração o ímpeto criativo
a minha sintaxe desconjuntada não me leva a lado
nenhum bem sei mas se escrevo provo que existo

não abandono o lugar que é meu a ninguém oh não
se alguém o quer ocupar empurre-me rasteire-me
insulte-me tente assassinar-me daqui não saio

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