Tuesday, March 27, 2007

De passagem

Dias perdidos no calendário, à solta
do tempo, como folhas que esvoaçam
dos plátanos e sem destino acabam
por pousar nas lajes do Cours Mirabeau.
Ninguém deu por nada nem pela tua
existência discreta ao fundo do café.
E se dessem, e se deram sem tu veres,
deram por quê? Sempre tiveste saudades
de alguém que não chegou ainda ou já
partiu ao encontro do seu destino.
Não sabes viver só, mas passas os dias
só. O tempo arrefece, vai chover, que
te importa já? Era domingo, estavas
cheio de remorsos. As mãos que
folheiam os livros, que erguem
as paredes da casa, que anunciam
o amor também são mãos que matam:
cegas, irresponsáveis, ao serviço do
castigo desconhecido, nem sequer
entrevisto nos sinais em que ele
se deixava adivinhar. E agora,
meu amor, onde estás? E porque
sofrias, inquieta, que te atormentava
quando, sentada no café, falavas com o
velho amigo? Mistérios. Eu estava
de fora. Eu vi-te de passagem. Mais
tarde, quando falei, disse o que não devia
dizer. Depois fui para casa arrepender-me.
Não me serviu de nada. Dormi mal.
Os dias não se juntam uns aos outros,
como folhas soltas caem da árvore
quando lhes apetece, quando chegou
a sua vez. Como fazer um livro
dessa desordem, dessa ausência
de intenção? E tu, sentado no café,
nem tentavas responder. O amor
existe, esse malentendido? O ódio
existe, essa dor póstuma? Nem tudo
está ao nosso alcance, às vezes escapa-nos
o sentido das palavras e os olhos que nos
fixavam descobriam em nós sentimentos
ou o rosto de alguém que não
sabíamos que éramos. Os teus
olhos. A tua inquietação. De onde
vieste até parar aqui e tentar
construir aquilo a que se chama
uma vida? Eu não sabia. Não sabia
nada. Falei-te, mas deve ter sido com
as palavras erradas. Ou antes: que sentido
terão para ti as palavras que para mim
têm algum sentido em particular? E
quantas vezes me escapa a palavra
dos lábios e da caneta antes de eu me
aperceber do erro, da escolha que
não vinha a propósito. E assim
se prolonga o malentendido. Por
isso ou por fatalidade, estou só,
estava só, sentado ao fundo do café.
A ver as folhas dos plátanos abandonar
a carne firme do tronco em que cresciam
para ir perder-se, ao acaso, na calçada.

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