Saturday, February 17, 2007

parado

não entender nada mas isso não impede de falar talvez o vício a tentação o projecto o medo do vazio recomeçamos a procura das pedras para construir a casa talvez seja isso não compreender deixa-nos desolados à beira de todas as tristezas e então escrevemos pensamos as frases sucedem-se e as perguntas e as imprecações e os lamentos mas não chegam a ser palavras as dores que mais nos magoam nem frases os remorsos que nos deixam mais sós e entendemos que por haver morte ter perdido a oportunidade de amar por exemplo é imperdoável eu ia subindo as colinas caminhando nas veredas descendo da montanha mas por onde andasse iam comigo às minhas costas no meu peito o sentimento de culpa a pena a responsabilidade de ter desaproveitado o tempo e os sentimentos não havia palavras que pudessem dizer o que sentia não havia quem as ouvisse ou compreendesse não andaste comigo à beira daquele rio não estiveste comigo em mil lugares mesmo quando parecia que estavas não estavas de tudo te ausentaste eu tinha-te levado comigo para estares lá para veres para falares para aprendermos para gostarmos e tu deixaste-me só no meu álbum de recordações completamente só nunca entendeste como é possível como foi possível não respondes porque eu não te pergunto a minha voz não chega a sair da garganta ou as palavras ficam perdidas no sangue congeladas na língua se eu pudesse falar se tu pudesses ouvir sei que a tristeza nunca mais terá fim e não odeio nem amaldiçoo aceito a incompreensão a ingratidão o malentendido que me deixou na berma de todas as estradas como um foragido sem língua em que contar ou queixar-se sem pátria a que poder regressar sem paraíso com que sonhar.

parado no lugar escondido resguardado dos olhos de quem passasse sentei-me numa pedra à sombra de uma árvore vieram-me as lágrimas aos olhos não sabia aonde ir de onde vinha não havia pensamentos para entender o que era estar ali o que ocorria também não me apetecia ir a lugar nenhum podia ter parado noutro sítio e ter ficado lá até que o meu corpo definhasse e começasse a desagregar-se poderia ter ficado em casa a entristecer-me na cama a perguntar-me por que razão esperamos pela morte se já sabemos que do amor e da pena do prazer e da dor não ficarão resíduos nem frutos nem sementes nem a memória o poço do tempo engole tudo para quê adiar então que ganhamos com isso mas a esperança de resolver o enigma de continuar a beber a comer a cheirar a ver não é fácil renunciar ao pouco que nos foi oferecido.

eu lembrava-me como tinha sido fácil passar ao lado das casas sem as ver ao lado dos rios sem os ver e não entendia para que nos servem os olhos onde estava a atenção há quem não saiba ouvir nem ver e provoque a confusão e o desespero no coração de outras pessoas há quem se passeie pela vida como se ela fosse a margem ajardinada do rio como se ela fosse eternamente o recreio do jardim de infância eu sei pode ser o medo a fazer-nos cantar e dançar e sorrir eu sei e não vi mais provavelmente do que ninguém não soube ver melhor.



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