Monday, February 19, 2007

obsessão

a imensidão do mundo. a ordem que o governa e que nos governa. tudo inventado? há organismos perfeitos cujo modo de funcionamento podemos admirar ou descrever mas que não sabemos, nunca poderemos reproduzir. a nossa capacidade de criar é muito limitada. os filhos que temos começam a crescer no corpo da mulher. mas nós que fizemos além de estremecer de prazer ou dor ao depor a poderosa semente? quem a dotou, sendo minúscula, de tanto saber, de tanto querer, de tanto futuro? quem a aperfeiçoou? a renovação da vida deve-nos o quê, deve-me o quê, a mim, que sou ignorante? como se elaboraram máquinas tão rigorosas, os olhos de um peixe, as veias por onde corre a seiva da árvore, o verde e o vermelho, o azul e o branco? nós não inventámos tudo. na verdade não inventámos nada, só falamos.

um dia começamos a entender que todas as aprendizagens tiveram como objectivo proteger-nos do remorso da ignorância, do perigo do caos, da perdição que nasce da ausência de sentido. sorrimos ironicamente. depois há esse momento em que, talvez para criar raízes e escapar à confusão, nos fixamos no rosto da desconhecida. no seu corpo, nos seus olhos. se ela nos viu, nos sorriu, nos ouviu, nos encorajou, habitar o mundo parece aceitável.

deixamos de proteger-nos, a paixão vai crescendo. se surgirem obstáculos, pensam que desistimos? podemos sofrer, mas persistimos. escolhi-te a ti, não foi por caso. comecei a amar-te, não penses que te vais embora, eu não deixo. à obsessão chamamos amor. até ver.

o tempo que passei a falar contigo, a ouvir-te, a olhar para ti, a descobrir-te. as horas que gastei a imaginar-te pensando que estava a conhecer-te. talvez estivesse. mas mais tarde posso descobrir que me enganei, que de ti não sei, nunca soube nada. tudo ilusão. tudo imaginação. criação minha. mas ao erro chamei amor.

pouco sabia de ti. falavas pouco. falavas como se eu te pertencesse, como se estivesse já decidido que me amavas. à mesa do restaurante eu ficava confuso. irrealidade. a mesa era longa de mais, tínhamos de esticar o braço para que as nossas mãos se tocassem. uma sala só para nós e a intimidade era impossível. mais um erro meu. não bastou o requinte. quando partimos não nos sentíamos mais sós? não tenho resposta. talvez esteja a exagerar. pouco sei de ti, do que tu queres, do que te preocupa. e tu de mim o que sabes?

conheces melhor do que eu o malentendido que se esconde no fervor aparente do desejo? conheces melhor do que eu a pouca distância que separa a terra firme do abismo? sabes que mentimos pensando que estamos a dizer a verdade? fico sozinho em casa a reflectir.

sei que em qualquer parte na cidade tu existes. lembro-me da tua cara, das tuas pernas. às vezes sei onde estás, o que tu pensas. a minha vida monótona tornou-se mais interessante. descobri que não sei nada do amor, que nunca soube. lembro-me de muitas vezes ter ficado parado, hesitante, decepcionando quem esperava por mim. não tinha tempo? não acreditava? não estive para me maçar? vivi a minha vida com medo de a destruir?

falas comigo como se eu te pertencesse. se eu digo que é necessário admitir que podemos desencontrar-nos tu ficas preocupada, perguntas-me porquê. se eu te entendesse. não és tu quem está a ensinar-me a ser paciente, a não ir depressa demais para que tu possas acompanhar-me?

não devias preocupar-te. eu não te abandono, não vou desistir. tardei em descobrir-te. ou pelo menos em dar-me conta. mas escolhi-te, não? agora quero saber, quero aprender. deste caminho não saio. deste desejo não saio. pode demorar muito ou pouco. à minha teimosia chama amor ou chama obsessão, o que tu quiseres. eu não tenho medo de nada. estou tranquilo como uma pedra no meio das águas por vezes agitadas do rio.

não me ponho a inventar. para quê? a máquina do corpo trabalha e eu não sou maquinista. a perfeição do que acontece é inexplicável. nós muitas vezes queremos estragar, desregular, destruir. às vezes conseguimos. mas a perfeição minuciosa das máquinas sobrevive a todos os nossos erros, a todas as nossas conspirações. chama-lhe amor. chama-lhe obsessão. o que quiseres.

No comments: