Tuesday, February 20, 2007

19 de fevereiro

o fim da tarde, hoje, pela auto-estrada.
o pacífico, à esquerda, metálico, rugoso.
as montanhas recortando-se contra o céu
na pouca luz do fim do dia. eu sentia-me
bem, nada a dizer. ia sozinho no carro pela
estrada adiante e não ia a lugar nenhum, ia
apenas indo. e depois regressaria. conhecia
bem o caminho. até à saída onde está a ponte
sobre a auto-estrada. pensei em muita coisa.
nas mulheres que amei mas não soube amar,
na mulher que provavelmente comecei a amar
há pouco tempo. tive saudades de algumas
pessoas distantes, noutro continente. desterro,
a minha vida fabulosa. what the hell am i doing
here? gastei anos a aprender lições que não me
serão úteis a mim nem a ninguém. quando morrer,
porém, estarei mais perto da suprema sabedoria
dos ignorantes. agora limito-me a fumar um cigarro
na esplanada deserta de um café. a minha cabeça
não pára de pensar, de recordar, de avaliar. para
quê? às vezes, evidentemente, chego a conclusões
importantes. a poesia, por exemplo, para que
serve? tenho horror à poesia, acho-a obscena.
quero lá saber dos vossos estados de espírito e
das vossas opiniões, do vosso estilo insuportável
e das vossas brincadeiras infantis com as palavras.
não me aborreçam, tenho mais que fazer. estados
de espírito! achados estilísticos! é de morrer a rir.
que tédio. rilke sim, celan sim, mário-de-sá-carneiro,
pessoa ainda às vezes, cesário verde. a literatura
não é gratuita, as palavras e as frases pagam-se caro.
quem tem alguma coisa a dizer que o diga, em vez de
se engasgar perpetuamente em pedantices literárias.
eu sei, também passei por lá. em vez de amar, escrevi
poemas que falavam do amor. quando eu morrer quem
se interessará pelo que eu cá deixei? ninguém. as
pessoas têm a sua vida para viver, querem lá saber
da nossa. ó pátria em que penso sem ter realmente
saudades de ti. ó noite de inverno, ó desolação das
vidas sem paixões. ó música de rock no café, ó
esperança de ser amado até à loucura, para sempre.

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