Wednesday, February 28, 2007

flores amarelas

num canteiro de madeira com terra que está abandonado no pátio da minha casa bruscamente arrebitaram-se duas flores amarelas. fiquei surpreendido. era um sorriso, eram dois sorrisos. só que esse sorriso não me deve nada a mim. nem é para mim. talvez as outras plantas que lhe fazem companhia nas noites de solidão - e a árvore das camélias em particular - tenham sorrido também ao ver surgir as florzinhas amarelas. quem sabe.

enchi-me de remorsos, amanhã vou regar tudo. a vizinha de cima disse-me há tempos para eu pôr os vasos de maneira a que a água das plantas dela, ao escorrer para baixo, vá regando também as minhas. fiz-lhe a vontade. confesso que tenho sido um padrasto para estas plantas que alguém me deixou no pátio antes de se ir embora de vez. não é que elas me irritem. mas não me são nada, compreendem? é possível até que saibam coisas que eu não gostaria de saber, que se tenham envolvido em cumplicidades contra mim. receberam certamente de quem as tratou carinhos e confidências que diziam respeito a outras pessoas. comigo nunca houve intimidades. não vamos começar agora, é tarde de mais.


duas ou três flores amarelas. a querer amolecer a minha má vontade contra elas. mas eu não cedo. estiveram as sementes ali sem dar sinal de vida quase um ano e agora ressurgem. porquê? a que propósito? quem as plantou tinha certamente razões muito pessoais para as plantar. sentava-se de manhã numa cadeira ao lado da porta da varanda a ler e a olhar para elas. em silêncio, secretamente, sonhava com o futuro. e eu, fui informado disso, sabia o que se estava a passar? não. não soube de nada. fui mais ignorado do que as queridas plantas. rego-as amanhã por caridade, não com amor. daqui a uns meses deixo esta casa. as plantas que tiverem sobrevivido dou-as aos meus amigos ou aos meus vizinhos. ainda me vão dar trabalho, mas será a última vez. depois esqueço-as.

digo isto e fico com remorsos. coitadas das flores amarelas. nem lhes sei o nome, sou um ignorante. aborrece-me bastante, já percebi, que elas tenham todo o ar de estar ali a sorrir para mim. sem me acusarem de nada ter feito por elas. nunca. ou reguei-as sem me dar conta alguma vez? tem chovido bastante, pode ter sido por isso que ressurgiram. tenho remorsos? tenho pena de me ter transformado numa pessoa insensível? agora até com as plantas embirro?

tenho as minhas razões, já sugeri. mas elas fizeram-me algum mal? fizeram. obrigaram-me a pensar na pessoa que as comprou e as pôs ali. ou pelo menos não me deixaram esquecer totalmente essa pessoa com quem já nada tenho a ver, com quem nunca mais terei nada a ver. o sorriso das flores amarelas é uma intrusão de mau gosto na minha vida privada, uma provocação a posteriori. lembro-me das crianças que nos sorriem na rua com inocência e alegria, vão pela mão do pai ou da mãe e não sabem que não nos damos com eles. o pai ou a mãe puxam-nas pela mão para as tirar do nosso caminho e elas enquanto se afastam continuam a sorrir-nos. estas flores amarelas é nisso que me fazem pensar. querem comover-me ou consolar-me. ou fazer-me companhia. ou terão saudades de quem as plantou? não contem comigo para cumplicidades dessas. a minha solidão não me pesa e eu não quero saber.

é de noite, está a chuviscar. fui lá fora dar uma vista de olhos. afinal não são duas, são quatro. e há caules para mais. mas para mim vem a dar no mesmo. é assunto que não me diz respeito.

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