Wednesday, February 21, 2007

coincidências

eu estava sentado na biblioteca a ler um velho manuscrito quando ela veio sentar-se ao meu lado. eu acenei com a cabeça em forma de cumprimento, ela respondeu com um vago sorriso e sentou-se a ver imagens num livro com retratos. era pintura antiga. vi o título do livro: “românticos e revolucionários”. os quadros, lia-se na capa, estavam na national portrait gallery em londres. era sexta-feira à tarde, a pior hora para quem não tem nada que fazer, nem projectos, nem família, nem amigos. se estivesse em casa, preparava-me um whisky com perrier e ia bebericando. um copo em geral basta-me para atenuar algumas recordações que me dilaceram. o manuscrito não tinha grande interesse ou era eu que estava meio ausente a pensar noutras coisas. deitei um olhar indiscreto para o que se passava ao lado. ela continuava a folhear o livro com os retratos e tinha começado a tirar fotografias com uma pequena máquina digital. concentrei-me de novo no manuscrito, tirei umas notas. eu conhecia-a de vista não sabia de onde. talvez da biblioteca. ou da universidade. ou de a ter encontrado nalgum cinema. ela deve ter sentido que eu a observava e levantou a cabeça, ficou a olhar para o ar. depois acabou por olhar para mim e ficou outra vez pensativa. eu sorri meio embaraçado. ela sorriu mais abertamente. interessantes esses retratos aristocráticos? arrisquei eu. artistas, políticos, gente com poder ou dinheiro, respondeu ela. e acrescentou: como eu gosto desta pintura e destes ambientes. e o seu manuscrito, interessante? bastante, respondi eu. hmmmm,fez ela, tenho estado a vê-lo pelo canto do olho e não me pareceu que a sua relação com esse manuscrito fosse uma coisa muito apaixonante. mas é, protestei eu, é um manuscrito renascentista onde provavelmente se vislumbram vestígios do que poderia ser o pensamento filosófico português, essa raridade. só que estas velharias inspiram com frequência mais respeito e curiosidade do que paixão. e mais tédio do que interesse, comentou ela ironicamente. arrumou a máquina fotográfica na pasta, pegou no livro da biblioteca e disse: estou a precisar de um bom café. quer vir?

estivemos no bar duas horas a conversar e a beber martinis. falámos de fotografia, de pintura, de literatura, de pessoas conhecidas, de pessoas desconhecidas, de projectos. fumámos bastante. era sexta-feira ao fim da tarde e não havia ninguém à nossa espera. decidimos ir jantar juntos a um restaurante argentino perto das amoreiras. já não sei quando é que os nossos dedos se encontraram entre os copos, os talheres e os pratos. ela aceitou uma carícia leve, mas retirou a mão logo a seguir. deixou de sorrir, ficou meio ausente. senti-me mal, como uma criança que meteu a mão no pote do mel e foi repreendida. pagámos, levantámo-nos, saímos. ela caminhava ao meu lado, mas percebi que evitava o contacto. que apesar da cordialidade, queria manter a distância. descíamos a pé para o marquês e foi então que me lembrei de onde a conhecia.


eu tinha-a visto pela primeira vez há alguns anos, quatro ou cinco talvez, no início do verão talvez, provavelmente em junho. nesse ano eu estava a tentar escrever um ensaio que nunca terminei sobre a influência do último wittgenstein na filosofia pragmática americana. estranha coincidência: ela estava a jantar com um homem mais velho, que podia perfeitamente ser o marido, no restaurante de onde acabávamos de sair. a beleza dela, meio grega, meio italiana, vagamente mestiça, não passava despercebida. eu estava a jantar com o meu editor e fiquei longos minutos a observá-la de longe, seduzido. o rosto dela fascinava-me. ela e o homem saíram, eu fiquei no restaurante a tagarelar com o paulo.

umas três semanas depois, estava eu de novo a jantar no mesmo restaurante com um colega da faculdade quando a vejo entrar com um tipo de cabeça rapada, mais da idade dela, mais novo do que o homem que eu tomara pelo marido. o criado levou-os a uma mesa perto da entrada, eles sentaram-se. eu, além de fascinado, fiquei perturbado. e estava cheio de curiosidade. cheirou-me a intriga romanesca, a adultério. pus-me a observá-los enquanto ia comendo e conversando com o meu colega. notava-se que o tipo de intimidade que ela tinha com o carequinha era diferente do que mostrara ter com o homem que eu tomara pelo marido. com este parecia haver mais cerimónia, a relação parecia mais formal. via-se que não era uma relação com hábitos nem antiga. percebi depois que o skinhead era inglês. para mim tornara-se evidente, no entanto, que se tratava de uma relação e não apenas de um encontro fortuito. esta mulher, pensei eu, com aquele rosto angélico, com aqueles olhos que pareciam puros, com aquele ar de menina apenas honesta, ou tinha dois amantes ou tinha um marido e um amante. ou seria eu que estava com vontade de inventar romances? o que é certo é que enquanto ia saboreando o bife e o vinho a minha curiosidade e o meu interesse iam aumentando. quando eles saíram de mão dada eu saí pouco depois atrás deles. invoquei não sei que desculpa e deixei o meu colega a acabar a sobremesa sozinho no restaurante. tinha decidido segui-los. a história sentimental, o desplante daquela mulher intrigavam-me. eles desceram a pé até ao marquês. de vez em quando paravam para se beijarem e abraçarem mais longamente. depois cortaram à direita e acabaram por ir dar a um hotel perto da cinemateca. entraram, desapareceram lá dentro. eu fui à minha vida a cismar naquele romance que não me dizia respeito.

há existências que estão destinadas a cruzar-se. uma semana depois, ó deuses do olimpo, voltei a encontrá-los no porto, nos jardins e nas salas do museu de serralves aonde eu fora para tirar uma série de fotografias destinadas a uma revista de arquitectura americana. quase os cumprimentava quando os vi porque, distraído, os tomei por conhecidos meus. entretanto, satisfazendo a minha veia detectivesca, misturei-me a outras pessoas e fui andando atrás deles discretamente, observando ora os quadros em exposição, ora como é que eles se comportavam um com o outro. percebi depressa que o tempo tinha passado. alguma coisa mudara em relação ao que eu vira em lisboa. agora havia uma distância, uma reserva, menos palavras, uma quase frieza bem educada da parte dela, nenhuma intimidade. a cara do carequinha traía resignação e infelicidade. olhava para ela, que lhe escapara mais uma vez, sem perceber. entretanto apercebi-me de que de por duas ou três vezes ela desaparecera das salas de exposição, deixando o skinhead com um casal de amigos que os acompanhavam. ia à casa de banho ou ia até ao jardim tomar ar - e aproveitava para telefonar a alguém. a conversa, que eu observara atentamente de longe, não era uma conversa banal, via-se que alguma coisa a preocupava. a dado momento, caminhando arrojadamente numa das veredas do jardim, aproximei-me mais e ouvi-a dizer de forma determinada “evidentemente que estou sozinha, com quem é que queres que eu esteja?” está a falar com o primeiro, com o outro, com o que tinha ar de ser o marido, pensei eu. a história tornava-se cada vez mais interessante e eu estava em pulgas. havia ali mistério, a intriga merecia investigação. uma madame de bovary contemporânea e nacional? parecia. eu sei que o adultério se tornou banal, mas quem sabe, talvez daquela matéria eu pudesse tirar obra original. para um romance, para um filme, para uma telenovela. trago sempre uma pequena máquina digital no bolso e apeteceu-me tirar-lhe uma fotografia. mas resisti à tentação.

e agora eu vinha a descer com ela, também à noite, a mesma rua que leva ao marquês. ela chamava-se clara e era professora de pintura. vivia há alguns anos em inglaterra. apeteceu-me dizer-lhe que antes de a ter visto na biblioteca já a conhecia, mas preferi calar a boca. era sensato não perturbar com questões que não me diziam respeito a relação agradável que tínhamos estabelecido. perguntei-lhe de onde era, disse-me que quando estava em portugal morava na província, o pai tinha lá uma quinta. mas estava num hotel ali perto do marquês. ainda é cedo para ir dormir, disse eu. ela olhou o relógio, hesitou e decidiu: ver montras é uma paixão para mim, podemos descer um pouco a avenida da liberdade. do lado esquerdo, se não se importa. fomos descendo a avenida a essa hora já mais frequentada por automóveis do que por pessoas. o passeio foi curto. meia hora mais tarde acompanhei-a ao hotel e apanhei um táxi para casa.


no dia seguinte encontrámo-nos de novo na biblioteca, eu a olhar sem grande paixão para o meu velho manuscrito, ela a folhear e a tirar com entusiasmo fotografias noutro livro de retratos. gente ilustre, poetas, condes, políticos, gente poderosa ou endinheirada que os pintores tinham protegido do esquecimento. deviam ser umas dez horas quando eu cheguei. ela já lá estava. às onze fomos tomar um chá à cafetaria da biblioteca. aí eu não resisti. não sei guardar segredos ou pareceu-me uma traição guardar este só para mim. enquanto mexia o açúcar na chávena e a olhava nos olhos castanhos maliciosos confessei-lhe que já a conhecia e que a sua história me intrigava. ela corou, ficou a olhar para mim timidamente e com um vago receio. contei-lhe que a vira há alguns anos a jantar com um homem que parecia ser o marido precisamente no restaurante onde tínhamos jantado na véspera. acrescentei que tendo-a visto uma vez era impossível esquecê-la. ela sorriu, mas eu pressentia que ela ficara surpreendida e meio inquieta, à espera de conhecer o resto da minha história. eu não hesitei e disse que umas semanas depois a vira com outro homem no mesmo restaurante e que também com ele ela parecia manter uma relação que dificilmente se poderia considerar inocente. contei-lhe que quando eles tinham saído do restaurante os seguira até ao hotel, confirmando o que já pressentira ao vê-los jantar, isto é, que eram amantes. ela olhava para mim atónita. admiti que se preparava para negar tudo. talvez se levantasse e se fosse embora, olhando-me com desprezo ou rancor. mas decidi continuar. confessei-lhe que um acaso inacreditável voltara a pô-la a ela e ao amante no meu caminho uma semana depois: encontrara-os no porto e dera-me logo conta de que as relações deles tinham evoluído. ela aborrecia-se, via-se que já tinha a cabeça ou o coração noutro lugar. contei-lhe que nessa tarde a vira duas vezes afastar-se do skinhead para ir ao jardim telefonar a alguém. com esse alguém era visível que havia um problema a resolver. imaginei logo, disse eu, que você estava a falar com o seu marido. acrescentei que na minha interpretação do que presenciara, ela, quando estava no porto, já tinha remorsos do que fizera e estava a preparar o regresso a casa. disse-lhe que ficara, e continuava agora ainda, perplexo e fascinado com as suas contradições, com a sua vida misteriosa. o rosto dela não mostrava qualquer expressão, devia estar banzada. repare, disse eu: esses jantares tiveram lugar no mesmo restaurante a poucas semanas de intervalo; você parece uma mulher séria e certamente que o é. como explicar, então, o seu estranho comportamento? o mistério das complexas relações humanas sempre me fascinou. eu sei, o amor não é tão simples como se diz hipocritamente por aí. mas ainda assim, há limites. pelo menos para mim. ora você não cabia no quadro do retrato em que as suas noites lisboetas a queriam emoldurar.

ela parecia agora meio ansiosa meio irónica. quando eu terminei, comentou sem sorrir e sem me olhar: seguir as pessoas, espiá-las, é uma atitude muito feia. aceitei a acusação e invoquei a minha curiosidade de artista e a minha inquietação de filósofo para me fazer desculpar. ela parecia aborrecida ou atrapalhada, não entendi bem. ora olhava para mim, ora olhava para os lados. a dado momento voltei a recear que se levantasse e se fosse embora, punindo com altivez e desprezo a minha inaceitável ousadia e indiscrição. mas se o pensou, resistiu à tentação. ficou muito tempo calada, de cabeça baixa. se ela quisesse podia ainda negar tudo, dizer que eu estava enganado, que não era ela a pessoa que eu tinha visto antes. mas eu sentia que ela tinha necessidade de se justificar, só que não sabia como. eu também não sabia como continuar a conversa. calado finalmente, tive remorsos: o que é que me deu para me estar a meter tão grosseiramente na vida desta criatura? quem me concedera o direito de a aborrecer com a minha estúpida indiscrição? estive quase a pedir-lhe desculpa e a suplicar-lhe que parássemos ali aquela conversa que eu indelicadamente provocara com a minha leviandade. a frase que lhe saiu da boca a seguir surpreendeu-me: quando me dei conta de que me olhava, pensei que via em mim uma desconhecida interessante com quem eventualmente podia vir a ter uma aventura. descubro agora que se debruçou sobre a minha vida com mais paixão do que a que dedica aos seus manuscritos. é o mistério, são as intrigas que o atraem. disse isto calmamente, segura de si. não me pareceu irritada. pensei: está a ganhar tempo e a preparar uma explicação para o seu comportamento imoral. mas a explicação não veio. ela o que disse foi que era melhor voltarmos às nossas tarefas. não tive coragem de protestar. segui-a, voltei ao odioso manuscrito.

era sábado e nós ali fechados na biblioteca, sem sol, a sufocar de tédio. pelas quatro e tal da tarde estávamos ambos cansados. pelo menos foi a essa hora que um de nós se decidiu a confessá-lo. creio que bocejei e ela riu-se. imaginei que depois da conversa que tínhamos tido enquanto tomávamos chá nem ela nem eu tínhamos ficado com energia suficiente para nos concentrarmos no que estávamos a fazer. entre nós tinha-se desenvolvido inesperadamente uma relação secreta, difícil de definir. agora havia entre nós um segredo, uma cumplicidade, um incómodo que certamente não lhe agradava e que a mim me deixava na expectativa. senti que ela tentaria livrar-se de mim e desse fardo usando de uma estratégia imprevisível. se alguma hipótese tinha existido em algum momento de virmos a estabelecer entre nós uma relação pessoal, susceptível de se prolongar para além dos ocasionais e breves encontros dos dois últimos dias, essa porta, eu adivinhava-o, fechara-se estrondosamente. eu estragara tudo ao intrometer-me desajeitadamente no seu passado, ao mostrar-me a par de um episódio da sua vida que ela preferia, e tinha toda a razão, manter secreto. além disso eu recordara-lhe a existência de dois homens que tinham sido, e provavelmente ainda eram, importantes na sua vida. a minha falta de tacto criara um mal-estar impossível de desfazer.

saímos da biblioteca calados. pensei que nos íamos despedir em breve, uns metros à frente, sem muitas palavras, partindo cada um para seu lado. nunca mais nos veríamos. íamos caminhando na direcção da entrada do metro quando ela murmurou: há assuntos de que é muito difícil falar, sobretudo com estranhos. a partir do que viu, você não teve dúvidas em deduzir que eu enganei um homem com outro. e por isso não deve ter grande consideração por mim. eu respondi que era um dos meus defeitos nunca me permitir julgar o comportamento de uma pessoa a partir das aparências. ela não acreditou. vi-a abanar a cabeça com ar de censura. tomou o que eu acabara de dizer por uma gentileza sem interesse nem credibilidade. continuámos a andar, mas desviámo-nos da entrada do metro. aonde íamos? o que é que ela tinha ainda a dizer? e eu, o que é que tinha a dizer ou o que é que queria saber? voltei a recordar-me de que para ela eu era um estranho e que ter sido testemunha fortuita de um episódio intrigante da sua vida me tinha colocado numa situação embaraçosa. íamos a meio da avenida da república e parámos no passeio. ambos sabíamos que a minha atitude imbecil criara um problema e que o problema não estava resolvido. era preciso falar. ela necessitava de falar. eu necessitava de falar. ambos necessitávamos de ouvir. olhei par ela, fascinou-me o seu perfil tranquilo e grave. admirei a sua coragem e achei-a generosa. então ela disse: a sua curiosidade não será forçosamente recompensada, mas proponho-lhe que vamos jantar ao lawrence’s a sintra. é um restaurante de que guardo boas recordações. a gente às vezes é tão saloia: até lá me tiraram uma fotografia à porta uma noite, depois de lá ter jantado. creio que é um bom sítio para continuarmos a nossa conversa.

fomos no carro dela, um golf branco que ela tinha deixado no parque de estacionamento do hotel ao lado da cinemateca. pelo caminho falámos de pintura e de música, de inglaterra e de portugal, isto é, essencialmente, e como convinha, de tudo e de nada. o rosto dela, mais ossudo quando as sombras o marcavam, perdia por momentos a sua beleza, masculinizava-se. ou era eu que estava a mudar de opinião a seu respeito? pensei, sem razões objectivas, que ela devia ser uma pessoa dura, pouco sensível, calculista. e interroguei-me: qual é a táctica agora? o que é que ela quer? seduzir-me? sobrepor à imagem que ela pensa que eu tenho dela outra, menos severa, mais respeitável? que ela estava incomodada por ter encontrado uma pessoa que presenciara acontecimentos da sua vida que ela preferia manter privados eu não duvidava. que se quisesse justificar também me parecia normal. mas eu não estava muito seguro de que ela o conseguisse.

entrámos em sintra. ela foi descendo pelas ruas a essa hora tranquilas. belas árvores, uma fonte, azulejos, casas velhas. a dado momento passámos por um café ao lado de uma igreja onde eu uma vez, há anos, estivera sentado à tarde com uma mulher de quem gostara muito. percebi que estávamos a chegar ao lawrence’s. ela conhecia bem o lugar. encontrou facilmente onde estacionar. pouco depois estávamos sentados à mesa do restaurante. deram-nos uma mesa encostada à parede, quase no canto da sala. o jantar foi excelente, como se esperava. pouco falámos enquanto comíamos. trocámos banalidades inocentes e de vez em quando eu olhava para ela e voltava a sentir o fascínio antigo. ela não envelhecera realmente. ou antes: envelhecera, mas o seu rosto exibia agora uma maturidade quase trágica, parecia ter sido moldado pela dor ou pela intranquilidade. imaginei-a histérica, depressiva. por momentos cheguei a ter a impressão de que éramos dois antigos amantes que não se viam há muitos anos mas que o acaso ou o destino voltara a unir. estava a delirar, claro, devia ser efeito do vinho.

quando veio o café senti que se aproximava a hora das confidências. eu estava curioso e ao mesmo tempo sentia-me pouco à vontade. não sabia se ela me ia dizer a verdade ou contar uma história qualquer que servisse de conclusão convincente, sem a deixar mal vista, ao que eu presenciara e lhe contara. acendi um cigarro e fiquei à espera. ela olhou-me nos olhos, pousou a chávena do café e disse: eu não tenho explicações a dar a ninguém sobre a minha vida privada. portanto não o trouxe aqui para me confessar nem para me justificar. mas achei-lhe piada, há em si restos de uma adolescência que deve ter sido engraçada. a sua curiosidade infantil começou por me irritar, depois divertiu-me. além disso gosto de comer bem e em boa companhia. eu fiquei um pouco intimidado com o estranho cumprimento, mas ela não me deu tempo de reagir e prosseguiu: o primeiro homem com quem me viu era de facto o meu marido. o segundo era um rapazola que conheci em inglaterra e que me seduziu porque era inglês e eu era provinciana. o primeiro homem dizia que me amava, mas achava-me aborrecida e não se privava de o proclamar nem de me o fazer sentir. fora assim desde o início. agora acredito na sinceridade do seu amor. mas é tarde de mais e o facto de ele me amar não o inocenta, antes pelo contrário, ainda o torna mais responsável pelo fracasso do nosso casamento, pela minha frustração. ele não me ouvia, falava-me pouco, não me fazia companhia, parecia não se interessar pela minha vida nem por nada do que eu fazia. provavelmente julguei-o mal e tinha eu própria alguma culpa na sua impaciência para comigo. o rapazola inglês adorava-me, idolatrava-me, quase poderia dizer que passava a vida surpreendido por eu lhe ter prestado atenção. um dia percebi: este rapaz toma-me ao mesmo tempo por uma rainha e por uma égua. não me peça para explicar, por favor. ele era um chato e ainda por cima de pouca confiança em questões de dinheiro. o que você viu em serralves era o último episódio do malentendido. eu tinha-me enganado mais uma vez. tinha cometido erros grosseiros. tinha-me formalmente separado do meu marido antes das férias porque já tinha planeado passar duas semanas de férias com o rapazola em portugal. estando ainda em inglaterra tinha passado com ele alguns momentos românticos. já não sei o que é que me deu, ele convenceu-me a deixar o meu marido. e foi tão convincente ou eu tão fácil de convencer que cheguei a mudar o meu endereço no banco e na escola onde dava aulas para casa dele. depois das férias íamos viver juntos. e tudo isto pensado e preparado nas costas do meu marido, que desconfiava de tudo, parecia não se incomodar o suficiente e não tinha provas de nada.


afinal as férias com o rapazola inglês desiludiram-me. e desta vez era definitivo, eu de facto não o suportava. era uma coisa física. foi quando cheguei a essa conclusão que comecei a telefonar ao meu marido, tentando remediar o mal já feito e evitar uma catástrofe. no início ele ou não atendia o telefone ou era brusco comigo. acho que estava farto das minhas parvoíces e leviandades. se ele soubesse tudo o que eu tinha feito, tudo o que se estava a passar, nunca mais me olhava para a cara. hoje reconheço que o meu comportamento foi incorrecto, inadmissível. quando ele descobriu que eu me tinha separado dele para ir passar as férias com o rapazola ficou tão furioso que pela primeira vez pôs-me fora de casa. morávamos então em south kensington, no edifício do christie's. fiquei assustada. tive de ir para um hotel. fiquei lá dois dias. ele depois deixou-me voltar, mas de vez em quando recordava esse episódio, acho que nunca me perdoou. dou-lhe razão, eu tinha-me portado mal. os factos são estes mais coisa menos coisa. acha que me devo sentir muito culpada, mais culpada ainda? diga-me que punição é que acha que eu mereço. sendo um estranho para mim, imagino que será justo e não terá piedade. fez uma pausa e acrescentou: a minha vida amorosa parece um folhetim de mau gosto. se fosse uma novela ou um romance eu não os lia ou repugnavam-me. mas apesar da evolução dos costumes, apesar de o amor não ser tão simples como nos ensinam, apesar eu achar que as mulheres têm tanto direito à liberdade sexual como os homens, tenho impressão que por ignorância, distracção ou defeito de carácter desperdicei a oportunidade de ser feliz e passei ao lado do que poderia ter sido um grande amor.

eu não sabia que dizer. estava meio emocionado. por que razão é que ela decidira ser tão sincera, abrir-se tanto comigo, um estranho? é verdade que os católicos vão pata o confessionário e contam a sua vida toda, intimidades incluídas, a uma pessoa que muitas vezes não conhecem e de quem nem sequer vêem a cara, mas enfim. consolei-me: não te critiques, não te arrependas do que fizeste, pois ao reavivar o seu sentimento de culpa ofereceste-lhe uma oportunidade de se redimir. ela parecia aceitar sem discussão e sem falso pudor as suas responsabilidades. depois hesitei: e se tudo isto é teatro, literatura para tornar o serão agradável e romântico? não acreditei nesta última hipótese. mas em vez de dizer alguma coisa que mostrasse admiração ou gratidão, que recompensasse convenientemente a sua sinceridade, ouvi-me dizer: agora fico com curiosidade em saber que rumo tomou a sua vida depois desse episódio infeliz. ela olhou para mim sem sorrir e durante pelo menos um minuto não disse nada. entretanto mandou vir a conta, pagámos, voltámos ao carro. eu sentia-me estúpido, mal educado. cada vez que abria a boca, estava a tornar-se um hábito na minha vida ultimamente, era para arranjar chatices. metemo-nos no carro e fomos andando para lisboa em silêncio. cada quilómetro que fazíamos acrescentava à minha vergonha mais vergonha, ao meu sentimento de culpa mais culpa. e ela não dizia nada, conduzia calada, de olhar fixo na estrada. eu portara-me tão mal. não lhe devia ter tido que já a tinha visto antes, que fora espectador indiscreto da sua traição. não devia, não devia, só um idiota podia agir como eu agira. a minha mania de dizer o que penso, a minha sinceridade e espontaneidade várias vezes me tinham já deixado em maus lençóis. a dado momento, para tornar tudo mais negro, pareceu-me que ela chorava. e de facto pouco depois ela encostou o carro à beira da estrada e limpou os olhos. depois desatou a soluçar. meu deus meu deus. eu não sabia que fazer nem que dizer. acariciei-lhe o cabelo e o rosto timidamente, receando ser mal interpretado. tentei consolá-la. ela acalmou-se um pouco e disse baixinho: obrigado. ficámos um momento em silêncio. ela voltou a pôr o carro a trabalhar e reentrou na estrada. um pouco mais tarde, inesperadamente, ouvi-a dizer: os acontecimentos que você presenciou tiveram lugar há cinco anos. espanta-me que você me tenha reconhecido tanto tempo depois. devo ter-lhe feito grande impressão. eu podia negar, dizer que não era eu, que você estava equivocado. os anos que passaram talvez o levassem a duvidar. mas não quis e não sei por que é que não quis. quando você me viu a primeira vez eu acabava de deixar o meu marido pela segunda vez no espaço de um ano para ir ter com o outro. da primeira vez eu tinha voltado para casa ao fim de dez dias. dessa segunda vez só estive fora de casa três dias, quando voltei a inglaterra e o meu marido, que descobrira tudo, me pôs na rua. há um ano, eu e o meu marido voltámos a separar-nos. queríamos ver-nos livres um do outro. ele não me suportava e eu já não o amava, se é que estas palavras têm algum sentido. mas é assim que a gente explica as coisas, usando as palavras à nossa disposição. quando o meu marido descobriu, pouco tempo depois da nossa separação, que eu tinha restabelecido as minhas relações com o rapazola inglês pela terceira vez – e que pela terceira vez eu tinha feito tudo nas suas costas, escondendo-lhe tudo - ficou furioso comigo. ficou irascível. mandou-me várias mensgens por email a insultar-me. queixou-se: eu estou ainda a tentar entender o que é que aconteceu à nossa relação, ainda não me recompus desse desastre e tu já te tinhas desligado de mim há muito tempo. sem me dizeres nada, como é teu costume, foste de novo meter-te na cama do idiota que já sabes que não amas, que eu sei que desprezas. é para me aborrecer e para me provar que não me perdoas não te ter amado como tu querias? mas eu amei-te, tu é que sempre tiveste ideias infantis e utópicas sobre o que é o amor. ela fez uma pausa e comentou: se nos tínhamos separado, o que é que ele tinha a ver com a minha vida, que lhe importava que eu estivesse com fulano ou com beltrano? objectivamente, onde é que estava a ofensa? a ofensa para ele era eu usar sempre o mesmo homem como alternativa para a minha relação com ele. a ofensa era haver um indivíduo que se metera entre mim e ele e que não me largava. enfim, que dizer? ele sentiu-se humilhado, traído, menosprezado, incompreendido, abandonado. depois de me ter telefonado pela última vez, escreveu-me a dizer que eu era uma cadela sem escrúpulos nem sentido das responsabilidades, acusou-me de nunca ter tido respeito nem consideração pelos seus sentimentos. provavelmente tinha razão. claro que tinha razão. quando recebi a carta dele cheia de impropérios já sabia há dois dias que ele se tinha suicidado. o rapazola inglês deve de facto ter-me servido de protecção contra a solidão ou de vingança contra o meu marido. ainda não entendi bem, provavelmente nunca entenderei, mas é possível. o que se passou ultrapassa a minha compreensão das relações entre as pessoas e em particular das relações amorosas. é verdade que eu também me sentia menosprezada, mal amada. suspeito também que interpretei o que eu considerava o desinteresse dele por mim e pela minha vida como rejeição, como repúdio da pessoa que eu era. um psicanalista disse-me um dia que o meu comportamento com o meu marido devia ter explicação na minha infância. perguntou-me se eu me lembrava de algum incidente ou situação em que me tivesse sentido recusada ou preterida pelo meu pai. eu não me lembro de nada. mas o inglês eu nunca o amei. depois do suicídio do meu marido ele deixou de ter qualquer interesse para mim. não digo que os dois acontecimentos estejam ligados, mas foi assim. deixei-o definitivamente, nunca mais o vi.

chegámos a lisboa em silêncio. ela foi para o hotel mas antes deixou-me em casa na artilharia um. ficámos de nos encontrar no dia seguinte na biblioteca. infelizmente não pude comparecer. a morte de um parente na província obrigou-me a deixar lisboa por uns dias. nunca mais a vi. o meu editor, que esteve em londres recentemente, pretende ter-se cruzado com ela em piccadilly o mês passado. e afirma: alguém que a conhece bem jurou-me que ela nunca deixou de viver com o rapazola, o suicídio do marido ter-lhe-á passado ao lado. não sei se duvide, se acredite. quando falei com ela achei-a sincera, a sentir o que dizia. mas que sabemos
nós acerca da sinceridade das pessoas, acerca do que elas sentem? provavelmente nada.


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