Thursday, February 15, 2007

body language

difícil resistir ao interesse que alguém parece ter por nós terem-nos visto quando há tanta gente para ver merece gratidão eu estava sentada no café os óculos escuros pendurados no vértice da camisola preta puxando-a um pouco para baixo o que deixava os seios mais visíveis e se eu mexia um pouco os dois ombros para dentro ao mesmo tempo os seios tocavam-se eu sentia-os encostados ternamente um ao outro tinha-o visto entrar e sentar-se a uma mesa mais à frente mais perto do balcão dos bolos ele olhava para mim com interesse eu estava meio virada para ele quem soubesse alguma coisa de body language podia entender que havia de facto uma abertura da minha parte eu estava curiosa só que seria necessário acontecer qualquer coisa um pretexto convincente para falarmos ele comia um bolo e tinha um copo de café com leite na frente de onde ia bebendo eu sabia que ele me olhava o rosto oa seios as pernas o que ele não sabia era que eu estava ali abandonada a mim própria ao meu tédio evidentemente distraía-me dava-me prazer merecer a atenção dele era um homem mais velho parecia um tipo sério maduro aí dos seus quarenta e tal de barba um pouco esbranquiçada eu observava-o discretamente como ele me observava a mim quantas vezes se repetem nos cafés nos restaurantes nos cinemas cenas semelhantes as pessoas sentem-se atraídas por outras pessoas mas na maior parte dos casos não se falam nunca chegam a conhecer-se entretanto ali no café eu distraía-me de mim mesma no olhar de um desconhecido sem fazer nada para o conhecer porque uma mulher não se põe a falar com um homem que não conhece sem ter razão para isso sem haver ocasionalmente um pretexto para se ter iniciado uma conversa.

que cara bonita que maminhas jovens que sorriso o cabelo atado deixava ver a nuca eu estava a tomar o pequeno-almoço tardiamente ela era encantadora mas como conhecê-la sempre o mesmo problema havia entre nós a distância de três ou quatro mesas eu não podia pôr-me a fazer sinais cá de longe seria ridículo podia sorrir é certo e ver se ela me sorria também podia procurar os seus olhos e ver se não fugiam dos meus mas entretanto não fiz nada fui tomando o café com leite e comendo o bolo de arroz ela parecia-me eu imaginava-a uma mulher interessante séria alguém com quem eventualmente se poderia ter uma relação que fosse além da cama contraditoriamente comecei a despi-la ela nua com as suas formas discretas devia ser muito interessante distraí-me enquanto ia comendo o bolo e bebendo o café com leite a dar-lhe beijos na boca a morder-lhe na orelha a acariciar-lhe os seios e as pernas ela abandonava-se beijava-me atentamente e sofregamente e depois depois bom o melhor era eu concentrar-me no café com leite deixar-me de erotismos mentais.


quando ele saiu passou perto da mesa dela e subitamente parou não sabia o que ia dizer mas tinha de dizer alguma coisa não queria ser ridículo nem aborrecido perguntou-lhe estupidamente se lhe podia oferecer um café ela olhou para ele com ar de o achar ridículo então ele sentou-se e ficou calado a olhar para ela e ela olhava para ele à espera cada um deles desempenhava bem o seu papel ele o invasor sem vergonha ela a invadida a não lhe dar razões para pensar que era assim tão simples estabelecer uma relação com ela então ele falou não sei que dizer estou envergonhado a verdade é que não tenho nada a dizer queria conhecê-la e pronto falar consigo estou cheio de curiosidade a seu respeito se quiser eu vou-me embora já não a aborreço repetir-lhe as banalidades que deve estar farta de ouvir sobre a sua beleza encanto sorriso olhos é que está acima das minhas possibilidades não espere isso de mim não neste momento em que há coisas mais importantes a dizer e que as pessoas desperdiçam com leviandade ela não disse nada olhava apenas para ele depois perguntou-lhe se eu lhe disser que estou à espera do meu marido ou do meu namorado o que é que você acha o que é que me diz ele levantou-se imediatamente para se ir embora mas ela pôs-lhe a mão no braço e disse deixe-se estar temos ainda algum tempo.

não havia marido nem namorado havia apenas uma solidão semelhante à sua. tinham tanto a dizer um ao outro. encontravam-se três vezes por semana no início e ao fim de quinze dias encontravam-se diariamente às vezes iam jantar a um restaurante iam falando mas protegiam-se receavam estar a entregar-se de mais o que estava a acontecer podia ser o princípio de uma paixão de um amor que tinha possibilidades de se prolongar ou podia ser apenas um malentendido e como saber só o tempo a experiência permitiriam avaliar a situação de maneira mais acertada por isso eram prudentes embora fossem afectuosos e atentos sem terem abordado essa questão ambos pareciam seguir os mesmos princípios talvez feridos ou educados cada um deles por experiências anteriores semelhantes.

se era malentendido já se tinha prolongado pois há três meses que se conheciam e agora passavam muito tempo juntos. mas cada um vivia na sua casa nenhum deles tinha ainda ido a casa do outro tinham falado nisso e decidido adiar não ter pressa ela achava por exemplo que ir para a cama com ele não era o mais importante ele às vezes pensava que já deviam ter ido mais longe e dormido juntos mas também não se inquietava a questão do sexo não lhe parecia de facto a mais importante por enquanto. andavam a pé na rua sentavam-se nos cafés iam às livrarias da baixa faziam-se companhia beijavam-se abraçavam-se habituavam-se um ao outro lentamente sem obedecerem a um programa previsto e era como se não tivessem pressa de chegar a lugar nenhum nem entusiasmo o tempo corria tranquilamente.

e então uma noite ela faltou ao encontro telefonou a dizer que lhe doía a cabeça que ficava em casa. ele ficou preocupado e triste mas não duvidou dela. no dia seguinte ela ainda não estava bem. não se viram durante quatro dias ele não sabia que pensar podia acontecer que subitamente ela tivesse percebido que ele não lhe interessava que não iria nunca gostar dele amá-lo. disse-lhe isso mesmo ao telefone falou-lhe da sua inquietação mas ela desviou a conversa disse que ainda estava doente não lhe apetecia entrar em explicações cansativas não havia razão além disso. ele começou a dormir mal. mas depois de quatro dias de ausência ela reapareceu e ele ao vê-la ficou excitado encantado feliz inquieto nervoso achou-a bonita mais bonita do que nunca. ela sorriu de prazer quando ele lhe disse isso e pegou-lhe na mão com ternura. e recomeçaram os dias felizes com encontros à tarde e à noite jantares no restaurante idas ao cinema.

depois ao fim da tarde de uma sexta-feira decidiram ir jantar a cascais e durante o jantar ela perguntou o que é a nossa relação por que razão precisamos de nos ver por que razão ver-me te dá prazer ver-te me dá prazer daqui a não sei quanto tempo morremos em que é que a nossa relação modifica a nossa morte ou antes a nossa vida a caminho da morte se é que estas perguntas têm sentido. ele bebeu vinho branco do copo e depois perguntou-lhe se ela o amava nunca tinham pronunciado essa palavra ele às vezes preocupava-se com isso. ela não respondeu. ele disse eu creio que te amo e baixou a cabeça porque ela não disse nada ficou calada a pensar depois ela murmurou que importa o nome que damos às relações nós conhecemo-nos o suficiente somos suficientemente lúcidos para perceber que não necessitamos de estabelecer fronteiras com rótulos para nos assegurarmos de que estamos dentro do nosso país exclusivo no qual as outras pessoas não podem entrar como nós entramos. chamamos-lhe amor? não sei se é amor ou se o vai ser mais tarde não sei confesso que não sei sinto-me bem contigo é tudo o que eu sei não tenho nenhuma relação com ninguém que se assemelhe de perto ou de longe à nossa os outros estão de certo modo excluídos desta espécie de intimidade que são os nossos encontros as nossas conversas alguma ternura dispersa a materializar-se em beijos e nas mãos que se procuram. pausa breve. pouco depois ela continuou: será aquilo que nós sentimos amor o que eu sinto será amor? ele ouvia-a calado estava cansado não lhe apetecia filosofar ela tinha razão ele estava de acordo com ela mas o jantar tinha sido excelente o vinho branco e o vinho tinto bem escolhidos no mar à direita deles brilhava uma lua simpática para quê complicar as coisas mas a verdade é que ele também entrara na conversa perguntara-lhe se ela o amava e olhava para os lábios dela apetecia-lhe beijá-la devagarinho. ela disse nunca senti pessoalmente a intensidade de uma grande paixão como se vê nos filmes ou nos livros nunca me abracei a ninguém em silêncio sentindo-me protegida abandonando-me completamente escapando-me para um lugar que pressinto que existe onde a alegria uma intensa alegria e uma grande dor ao mesmo tempo tomariam conta de mim só no cinema só a ler é que tenho é que já tive o pressentimento desses momentos excepcionais talvez divinos talvez de loucura momentânea meu deus como deve ser bom eu não me recordo de alguma vez ter perdido a consciência de ter os pés no chão. ele não dizia nada mas tinha parado de comer e olhava atentamente para ela para os olhos dela para os seios dela viam-se os biquinhos na camisola fina de algodão ele estremecia por dentro não sabia se era medo se era decepção se era outro sentimento ou até cansaço o que ela dizia não lhe parecia muito entusiasmante muito optimista as relações deles provavelmente não eram o que ambos tinham esperado nenhum deles conseguira ainda interessar o outro suficientemente na sua própria personalidade na sua pessoa nas suas histórias nos seus problemas coisas sempre tão privadas. ela acabou de falar e voltou às batatas fritas e ao bife. ele sentia-se confuso e ia bebericando o vinho tinto.


quando já iam no café ele disse que ao ouvi-la falar tinha ficado triste e um pouco perplexo mas que depois de pensar um pouco e para ser totalmente honesto também ele seria incapaz de dizer se a relação deles era aquilo a que as pessoas chamam amor aquela emoção intensa prazer e dor ao mesmo tempo que se vê em alguns filmes como ela dizia também ele conhecia o desamparo a solidão o tédio às vezes chegava a casa sentava-se num sofá e a vida parecia-lhe absurda para que patrão é que eu trabalho que garantias é que me deram para ter-me convencido a levantar-me todas os dias a acreditar no que acredito quando eu morrer não sinto nada porque deixei de existir serei como uma árvore que secou e que já só serve para queimar na lareira nas noites de inverno portanto não me vão fazer falta as paixões os prazeres da vida nem me vai fazer falta nada do que existe neste mundo claro imagino ilusoriamente que me ficarão as saudades dos rostos puros das raparigas dos seus corpos graciosos e nervosos suaves e belos frescos como a aurora mas paciência quem não existe não vê não sente não tem desejos nem remorsos nem memórias não lhe falta nada e nesse caso por que razão não morrer já a solidão em que nós vivemos é terrível cada um de nós vive na sua ilha incomunicável as compensações que nos são dadas o amor a paixão a arte a natureza o sexo o sucesso será que bastam. agora era ela que parecia curiosa acendera um cigarro e olhava-o ele sabia-o via a sua camisola branca o seu meio sorriso os seus olhos atentos era para aí que ele enviava as palavras e o olhar apesar de tudo o que acabo de dizer acrescentou ele seria muito infeliz se deixasse de te ver e tenho de confessar que a tristeza a pena a decepção as dificuldades da vida como se diz me são agradáveis pode parecer paradoxal mas o facto de eu sentir de eu pensar de eu duvidar de me interrogar de me enganar de me queixar de sofrer de ter que me impor disciplina são já em si independentemente das recompensas que receber um parte muito importante do prazer que eu tenho em estar vivo talvez viver tenha a ver mais com o sofrimento e as dificuldades do que com os prazeres as vitórias os sucessos.

enquanto ela conduzia de regresso a lisboa pela beira-mar continuaram a conversa. ela dizia por que razão é que ainda não fizemos amor não percebo e ele disse porque tu não quiseste e eu não insisti aparentemente pelo menos são essas as razões mas na realidade se fosse tão importante e ela interrompeu-o e disse deixámos de ser animais transformámo-nos em não sei que monstro a nossa cabeça o nosso sistema nervoso devem ter tomado conta do organismo e vencido começado a controlar o que havia em nós de selvagem de espontâneo de irreflectido e deve ser por isso porque ir para a cama com alguém mesmo quando há a veemência do desejo e tudo corre bem não resolve o problema da nossa solidão a dado momento interrogamo-nos se vale realmente a pena dar-se ao trabalho de iniciar uma relação. e nem falo já continuou ela dos casos em que a gente evita envolver-se sexualmente com uma pessoa só para evitar futuros aborrecimentos chatices problemas às vezes cometem-se erros há gente insuportável. ele não dizia nada as palavras dela eram uma música com a qual ele concordava que lhe dava prazer ouvir mas entretanto pôs a mão esquerda entre as pernas nuas dela e começou a acariciá-la foi indo devagarinho suavemente por aí acima subiu-lhe o vestido para poder ver o que estava a tocar aproximou-se dela beijou-a no pescoço ela estremeceu tinha-se calado ia de olhos fixos na estrada mas ele sabia ele sentia que também nela no corpo dela o desejo finalmente pudera aparecer. ela estacionou o carro à beira-mar perto da praia da torre e então abraçaram-se com uma violência selvagem com uma sofreguidão de famintos com uma ternura de deserdados expulsos do paraíso. fizeram amor pela primeira vez e depois abriram as janelas do carro acenderam um cigarro e ficaram a saborear em silêncio o ar frio que vinha do oceano ela com a cabeça deitada no seu ombro ele recostado no assento do carro com a mão fechada na dela.

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